Artigo na Behavioral Ecology

Musaranhos mais ousados e ativos em ambiente urbano

Resultados da investigação integram tese de doutoramento em Biologia e Ecologia das Alterações Globais

Musaranho-de-dentes-brancos a ser devolvido à natureza

Musaranho-de-dentes-brancos a ser devolvido à natureza

FGO

Neste trabalho Flávio Gomes Oliveira e Sophie von Merten foram responsáveis por desenhar a experiência e por realizar o trabalho de campo em Lisboa, parte urbana e no Parque Natural de Sintra Cascais, parte rural, com a ajuda do Joaquim Tapisso. Flávio Gomes Oliveira analisou os resultados das experiências metabólicas e comportamentais, estas últimas realizadas também com a ajuda de Sophie von Merten. Maria da Luz Mathias cedeu o material e as instalações necessárias para a realização deste trabalho. O artigo foi escrito por Flávio Gomes Oliveira e contou com contribuições de todos os autores.

Um estudo realizado em Lisboa por um grupo de investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) do polo da Ciências ULisboa e da Universidade Adam Mickiewicz de Poznań (UAMP), na Polónia, detetou diferenças substanciais no comportamento e metabolismo dos musaranhos-de-dentes-brancos (Crocidura russula) que ocorrem na capital portuguesa, quando comparados com indivíduos provenientes de áreas naturais.

O artigo “Metabolic and behavioral adaptations of greater white-toothed shrews to urban conditions” tem como coautores Flávio Gomes Oliveira, Maria da Luz Mathias, Leszek Rychlik, Joaquim Tapisso e Sophie von Merten e foi publicado este mês de outubro na Behavioral Ecology.

Os resultados desta investigação integram a tese de doutoramento de Flávio Gomes Oliveira, doutorando do programa doutoral em Biologia e Ecologia das Alterações Globais, um curso ministrado em associação entre a Universidade de Aveiro e a Ciências ULisboa.

Este tipo de adaptação urbana está em linha com estudos realizados noutras espécies, nomeadamente aves e insetos. “Os testes de personalidade revelaram que os musaranhos da cidade adotam comportamentos mais ousados e estão também mais predispostos a explorar um ambiente que lhes é estranho”, diz Flávio Gomes Oliveira, que concluiu a sua licenciatura em Biologia, perfil ambiental terrestre e o mestrado em Biologia da Conservação, ambos na Ciências ULisboa. O jovem investigador de 30 anos acrescenta ainda que “a falta de vegetação natural e os constantes estímulos externos tão típicos do ambiente urbano, tais como ruído e luz artificial, levam a que os animais que aqui vivem se tornem mais arrojados na procura de comida e de locais onde possam habitar”.

Flávio Gomes Oliveira iniciou o programa doutoral em 2015 com o objetivo de estudar de que forma o comportamento e a fisiologia desta espécie se adapta e altera quando confrontada com diferentes condições ambientais – também chamada de plasticidade fisiológica e comportamental. No programa doutoral, Flávio Gomes Oliveira conta com a orientação de Maria da Luz Mathias, professora do Departamento de Biologia Animal, coordenadora do Laboratório de Biologia da Adaptação e Alterações Globais do CESAM no polo da Faculdade; de Joaquim Tapisso, investigador do CESAM, polo da Faculdade e Leszek Rychlik, professor da UAMP. Todos eles são coautores deste estudo.

Teste de ousadia filmado com luz infravermelha
Teste de ousadia filmado com luz infravermelha
Fonte SM

“Estávamos à espera de encontrar uma correspondência direta entre comportamentos ousados e ativos com elevadas taxas de consumo energético, ou seja, com uma maior capacidade metabólica. Ao invés, verificámos que os animais urbanos apresentam uma capacidade metabólica 37% inferior aos animais de áreas naturais”, salienta Sophie von Merten, investigadora do CESAM, no polo da Faculdade e outra coautora do estudo.

Os fatores que influenciam a forma como estes animais urbanos usam energia são ainda desconhecidos, já no que diz respeito à relação entre comportamento e metabolismo, estes pequenos animais parecem estar adaptados à vida, tanto no campo como na cidade. “Ao contrário do que acontece na maioria dos animais, os musaranhos parecem adotar uma estratégia de alocação de energia. Ou seja, animais com um metabolismo mais rápido são mais tímidos e exploram menos território, enquanto animais com um metabolismo mais lento são mais ousados e exploram mais território. Desta forma, o seu saldo energético mantém-se relativamente constante”, explica Flávio Gomes Oliveira.

"A ideia para o trabalho surgiu em julho de 2018 durante uma conferência internacional organizada pela Society for Experimental Biology."
in entrevista com Flávio Gomes Oliveira

Os musaranhos são pequenos mamíferos insectívoros, raramente avistados, mas em expansão na Europa, tendo já sido identificados como tendo um carácter invasivo em algumas ilhas, nomeadamente na Irlanda.

“É relevante compreender como é que esta espécie se adapta tão rapidamente a ambientes novos para prever melhor o ritmo da sua expansão”, refere Flávio Gomes Oliveira, que já no mestrado se dedicou a estudar estes animais, nomeadamente, as suas adaptações fisiológicas e comportamentais à temperatura, tendo trabalhado também nessa ocasião no grupo de investigação de Maria da Luz Mathias.

A primeira vez que Flávio Gomes Oliveira trabalhou com a Sophie von Merten foi na Serra da Estrela, em 2014, num trabalho de campo sobre o comportamento e a personalidade destes pequenos e enigmáticos mamíferos, um trabalho financiado por uma bolsa Marie Skłodowska-Curie atribuída a Sophie von Merten e cujo projeto foi realizado em parceria com as equipas de Leszek Rychlik e Maria da Luz Mathias, assim como de um outro grupo científico alemão.

O crescimento das áreas urbanas que se prevê continuar a aumentar vai levar a que mais animais se vejam confrontados com a dualidade campo/cidade. A este propósito, Maria da Luz Mathias refere que “infelizmente, a maioria das espécies não vai conseguir adaptar-se a um ambiente tão alterado como as áreas urbanas”, por essa razão considera “fundamental continuar a estudar o fenómeno de adaptação urbana em todas as suas vertentes ecológica, fisiológica, comportamental e evolutiva” e o musaranho-de-dentes-brancos tudo indica que seja “uma importante espécie modelo para ajudar a compreender o destino das espécies perante uma alteração global como a crescente urbanização”.

Para os investigadores este género de estudos tem um carácter cada vez mais relevante no cenário atual de alterações climáticas. Muitas espécies conseguem adaptar-se às alterações antropomórficas que o homem causa na paisagem e no clima, mas outras não. É importante aumentar o conhecimento sobre o porquê de isto acontecer.

Plantações no Instituto Superior de Agronomia, onde alguns dos musaranhos urbanos foram capturados
Plantações no Instituto Superior de Agronomia, na Tapada da Ajuda, em Lisboa, onde alguns dos musaranhos urbanos foram capturados em 2018
Fonte FGO

 

Ana Subtil Simões, Área de Comunicação e Imagem Ciências ULisboa
info.ciencias@ciencias.ulisboa.pt
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O primeiro “Guia de Peixes de Água Doce e Migradores de Portugal Continental” coordenado por Maria João Collares-Pereira, professora da Ciências ULisboa e do cE3c, publicado em 2021, já está à venda. Os peixes de água doce são um dos grupos de vertebrados mais ameaçados em todo o mundo. Portugal não é exceção, com mais de 60% das espécies nativas em risco de extinção.

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A Comissão Nacional da Organização Internacional da Vinha e do Vinho premiou “The interplay between membrane lipids and phospholipase A family members in grapevine resistance against Plasmopara viticola” com a Distinção CNOIV 2020, atribuído ao melhor trabalho nacional de divulgação, experimentação ou investigação no domínio da viticultura, da autoria de um grupo de investigadores da Ciências ULisboa.

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É com grande tristeza que informamos o falecimento duma grande mulher cientista, a professora Claudina Rodrigues-Pousada, uma grande mentora de vida na Ciência pelo seu empenho, persistência, foco e determinação.

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Joana Carvalho, de 28 anos, investigadora na Fundação Champalimaud, alumna da Universidade de Groningen, na Holanda, e Ciências ULisboa, foi uma das cientistas galardoadas com a 17ª edição das Medalhas de Honra L’Oréal Portugal para Mulheres na Ciência e com uma Individual Fellowships Marie Skłodowska-Curie Actions.

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Décima terceira rubrica Radar Tec Labs, dedicada às atividades do Centro de Inovação da Faculdade. A empresa em destaque é a Lean Health Portugal.

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Valorizar o conhecimento é a oportunidade para dar a conhecer um outro Portugal que tantas vezes passa despercebido. O press kit da Faculdade tem uma página de especialistas com 162 nomes e mais de 200 temas científicos. É fundamental que os mass media coloquem a ciência no centro das atenções.

O terceiro meeting científico da ação COST EUTOPIA ocorreu entre 15 e 17 de fevereiro passado.Trata-se de um projeto de colaboração interdisciplinar que explora a importância crescente da topologia em sistemas físicos e biológicos, e no desenvolvimento de novos materiais. Esta ação reúne 29 países e mais de 100 participantes. Portugal está representado em dois dos cinco grupos de trabalho temáticos e Patrícia Faísca é responsável pela liderança de um deles.

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"Os objetivos destas missões compreendem: a preparação clara de uma futura colónia humana em Marte, e a tentativa de responder à questão se houve vida em Marte", escreve o cientista Pedro Mota Machado.

Pisco-de-peito-ruivo

+Biodiversidade@CIÊNCIAS: Mobilizar a comunidade de Ciências para a promoção da sustentabilidade no Campus” é uma iniciativa do Laboratório Vivo para a Sustentabilidade. Para colaborar neste projeto basta participar nas ações de monitorização, através da plataforma BioDiversity4All ou da app iNaturalist/BioDiversity4All.

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O Centro de Testes (CT) da Ciências ULisboa  atingiu 100% de concordância nas provas a que foi submetido no âmbito do programa mundial de controlo de qualidade da Organização Mundial de Saúde - OMS “WHO Global Round of Laboratory Proficiency Testing” e no Programa Nacional de Avaliação Externa da Qualidade promovido pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA).

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A participação no Projeto Lisboa Romana (Felicitas Iulia Olisipo) vem na sequência de vários anos de colaboração entre os geólogos da Ciências ULisboa e várias equipas de arqueólogos que têm por missão o estudo e a salvaguarda do património arqueológico que ocorre durante as escavações associadas a várias obras na região de Lisboa.

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O Young Leaders Access Program visa ajudar jovens, entre os 18 e os 26 anos, a impactar as suas comunidades. Leia a crónica de Vasco Medeiros, um dos 50 jovens selecionados em 2020 para realizar este programa. As candidaturas à edição de 2021 terminam em março.

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"Existem várias teorias que dão contexto a este medo, mas sobretudo há uma ideia subjacente: o medo de não viver, sentir ou fazer qualquer coisa em vida, uma sensação de vida não vivida", escreve Andreia Santos, psicóloga no GAPsi Ciências ULisboa.

Vários números desenham um coração

Brainteaser é o nome do consórcio que coloca a inteligência artificial ao serviço da saúde, nomeadamente dos doentes com Esclerose Lateral Amiotrófica e Esclerose Múltipla. A Universidad Politécnica de Madrid lidera o consórcio composto por 11 parceiros de Espanha, Itália, Portugal, Sérvia, Irlanda e Bélgica.

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As partículas de aerossol atmosférico podem modificar as nuvens e o clima ou contribuir para a poluição urbana. O estudo “Role of iodine oxoacids in atmospheric aerosol nucleation” publicado na Science apresenta os resultados da experiência CLOUD (Cosmics Leaving Outdoor Droplets), anuncia o CERN. Este artigo é assinado por mais de cem investigadores, entre os quais se contam João Almeida, António Amorim, António Dias e António Tomé.

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O primeiro Radar Tec Labs de 2021, dedicado às atividades do Centro de Inovação da Faculdade, tem como empresa em destaque a Delta Soluções.

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A ideia para esta entrevista surgiu na sequência da publicação do livro "A Anatomia das Moléculas", de José Artur Martinho Simões, pela Imprensa da ULisboa. É um livro curto que numa linguagem simples, precisa e atraente, acompanhada de muitas imagens, nos dá a conhecer o admirável mundo das moléculas, as suas propriedades, ligações e reações.

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Desde que o atual site da Faculdade foi lançado, há cerca de nove anos, foram publicados 1800 géneros jornalísticos relacionados com o ensino, a investigação e a transferência do conhecimento e da inovação nas áreas das ciências exatas e naturais e das tecnociências. Em 2020 publicamos 144 géneros jornalísticos, no ano anterior 121. Este mês demos visibilidade a mais de uma mão cheia de assuntos diferentes.

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Rui Pita Perdigão, recentemente eleito membro correspondente de Física da Academia de Ciências de Lisboa, realça o que sentiu ao receber esta distinção e escreve sobre a “nova área da Física” que semeou na sua cátedra interuniversitária.

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