É dos enganos que vem parte do encanto da Capital: cidade insuflada pelo forte sotaque que nenhum nativo admite ter, Lisboa é conhecida pelos nomes de lugares que não vêm no mapa. E é na zona histórica e mais central que as toponímias enganosas são mais costumeiras: A Praça de Comércio que continua a ser apelidada de Terreiro Paço; o Rossio que ninguém conhece como Praça do Pedro IV; o Areeiro que é a Praça Francisco Sá Carneiro; o Largo Trindade Coelho que é conhecido por “Largo do Cauteleiro”; o Chiado, que designa uma área bem maior que o Largo que o homenageia, e em alguns imaginários se estende até ao elegante Príncipe Real, onde se encontra a antiga Escola Politécnica que outrora albergou CIÊNCIAS e hoje tem o Museu de História Natural; ou até o Parque das Nações que alguns teimam em chamar de Expo; já para não falar do Convento do Carmo que já não se imagina sem ser em ruína.
O Chiado dita as modas
Mantendo ainda a aura modernista e a veia artística de outros tempos, o Chiado cede, a poucos metros de distância, o protagonismo “ao Camões”, que é dito assim sem chatear ninguém do mesmo modo que, mais abaixo, Cais do Sodré costuma ser proferido por toda a gente como “Cachodré” e só costuma ser designado corretamente por quem não é de Lisboa. É perto da Praça que tem a estátua do poeta maior da lusofonia que começa a fronteira e o despique entre o boémio Bairro Alto, onde o Fado ainda faz lei para turistas e aficionados, e a Bica, onde toda a gente parece lutar contra a gravidade, devido ao declive em que o casario assenta ao longo da colina. Por outro lado, quem não quiser perder tempo com bairrismos enquanto está por aquelas bandas, não deve esquecer o seguinte: ópera é no São Carlos, enquanto na rua ao lado, o São Luiz providencia teatro e concertos de outras índoles.
Deixando o Chiado enquanto se sobe a ladeira, surge o Jardim de São Pedro de Alcântara e a vista imperdível para a Graça, o Rossio, a Mouraria, o Castelo de São Jorge, Alfama - e outros espaços, onde a cidade realmente começou há mais de 3000 anos, possivelmente, por iniciativa de Fenícios.
Da Baixa a São Bento
Se o objetivo for descer do Chiado rumo à história política do País, então já fará sentido tomar a Calçada do Combro e seguir depois até à Assembleia da República ou à residência Oficial do Primeiro-ministro, em São Bento, e eventualmente deparar, pelo meio, com alguma da alegria que resta da comunidade cabo-verdiana que ali morou muitos anos.
Mais abaixo, junto ao rio, há a zona de diversão noturna, que é conhecida por 24 de Julho e está a poucos minutos de caminho da estação ferroviária do Cais do Sodré. É por esse caminho não muito longe do Rio que se chega também à Praça do Município e, depois, à Praça do Comércio, com o icónico Cais das Colunas e a estátua de D. José I ao centro, e ainda uns quantos gabinetes e departamentos ministeriais a funcionarem no local.
Da Praça Comércio ao vizinho Campo das Cebolas vai o instante necessário que permite conhecer a Casa dos Bicos / Fundação José Saramago – e entrando pelo emaranhado de ruas e vielas que sobe a colina haverá de se encontrar caminho até à Sé de Lisboa.
Em alternativa, se a intenção é conhecer reconstrução de Lisboa após Terramoto de 1955, já fará mais sentido seguir pela quadricular Baixa, onde pontifica a Rua Augusta e, mais à frente, entrar no Rossio que é dominado pelo Teatro Nacional D. Maria II e dá serventia até à Avenida da Liberdade, que é conhecida pelas lojas e marcas mais seletas.
Avenida da Liberdade e Avenidas Novas
Já o Coliseu e o Teatro Politeama, numa paralela à Avenida da Liberdade, são conhecidos pela abrangência dos espetáculos que dão a conhecer. E no lado oposto, também numa paralela à Avenida da Liberdade, revela-se o reabilitado Parque Mayer, que abrange o Teatro Variedades e a sala de espetáculos Capitólio. A meio da Avenida destacam-se Teatro São Jorge e Teatro Tivoli, e no topo, irrompe a Praça Marquês de Pombal, logo seguida do Parque Eduardo VII, que serve de morada anual à Feira do Livro, e alberga a Estufa Fria.
Do Marquês de Pombal às Avenidas Novas, quase nada tem que saber – mas não é o único itinerário para chegar aos bairros mais recentes da cidade. Quem começar o percurso na Praça da Figueira, e passar pelo Martim Moniz a fim de seguir pela Avenida Almirante Reis também haverá de chegar às Avenidas Novas. Talvez o percurso seja maior, mas é seguramente mais cosmopolita, sem deixar de contemplar derivações para a Avenida da República, e depois para o bairro de Alvalade, e o Campo Grande, onde se encontram Aula Magna e Reitoria da Universidade de Lisboa e também o campus de CIÊNCIAS.
É do nosso Campus que se avista o Estádio de Alvalade, que é a casa do Sporting Clube de Portugal, mas para que a maior rivalidade nacional fique contada na plenitude há que seguir a Segunda Circular para chegar ao Estádio da Luz, que é a o estádio do Sport Lisboa e Benfica.
Quem gosta mais de praticar do que ver desporto não precisa de se afastar muito do Campus de CIÊNCIAS e poderá dar um pulo ao Estádio Universitário e respetiva piscina olímpica e variados recintos de jogos para escolher a modalidade a contento. Se o objetivo é não sair das Avenidas Novas, então fará sentido procurar a Fundação Calouste Gulbenkian, que atualmente abrange o Centro de Arte Moderna e tem concertos de música clássica e contemporânea, além do célebre Festival Jazz em Agosto.
Da segunda circular para todo o lado
Se a ideia é sair de Lisboa, então a Segunda Circular poderá ser usada como uma das vias mais rápidas para chegar ao Aeroporto Internacional Humberto Delgado ou, já no final, decidir se envereda pela Autoestrada Nº1 (ou A1), que segue para o Porto, ou a Ponte Vasco de Gama que faz a ligação com a Península de Setúbal e, à semelhança da Ponte 25 de Abril, também dá passagem para quem segue para o Alentejo e o Algarve.
Alfama, Graça e Feira da Ladra
Mas voltemos atrás para acabar no princípio: do bairro de Alfama que serviu de núcleo à cidade ainda ecoam muitos fados – e quando as portas de restaurantes e tascos estão fechadas, é o Museu do Fado que faz as honras à saudade. É subindo Alfama que se chega ao bairro do Castelo e é aí que convém não confundir os dois bairros junto dos autóctones, tal como entre Bica e Bairro Alto, mas com fronteira bem mais difícil de detetar. É no Castelo de São Jorge que surge a mais emblemática vista da cidade e se segue para outra vista auspiciosa no Miradouro do Monte Agudo, já perto da Graça.
A Feira da Ladra e o Panteão Nacional já não estão longe, e os espíritos mais noctívagos não desdenharão uma perninha na discoteca Lux, nas imediações da Estação de Santa Apolónia, que dá ligação para o resto do País. Aí chegado o visitante já sabe que está a entrar na parte oriental da cidade.
O oriente renascido
Na parte oriental, há uma cidade renascida a partir dos anos 90 – com destaque para o Hub Criativo do Beato e as muitas startups que por lá passam. Foi na sequência dessa reabilitação de bairros outrora industriais que nasceu o Lisboa Ao Vivo (LAV), que hoje é uma das principais salas de espetáculos da cidade. Mais próximo do Tejo, é o Parque das Nações que se destaca, com o Pavilhão do Conhecimento e o imperdível Oceanário entre as maiores atrações, e sem esquecer o Pavilhão de Portugal, hoje usado pela Universidade de Lisboa.
No que toca a desporto ou concertos, o antigo Pavilhão Atlântico, agora chamado Meo Arena, é um dos nomes maiores em qualquer cartaz alfacinha. Junto ao Rio, segue um caminho ciclopedonal que leva até ao Parque Papa Francisco, com palco e cobertura para espetáculos, que deve o nome a uma visita do antigo Sumo Pontífice por ocasião das Jornadas da Juventude – e já se encontra fora da cidade.