
Tive o privilégio de ser aluno de dois grandes professores da FCUL: José Sebastião e Silva e José Pinto Peixoto.
O primeiro criava o prazer absoluto de pensar a matemática nas aulas de Análise Superior e o segundo revelava de forma simples os segredos da física da atmosfera.
Terminei a Licenciatura em Ciências Geofísicas em 1963 e ao querer saber mais sobre mecânica quântica doutorei-me em física nuclear teórica na Universidade de Londres. Mais tarde, depois de um ano sabático nos EUA em 1980/81, apaixonei-me pela astrofísica e introduzi o seu ensino na FCUL.
Pouco tempo depois convenci-me que o clima global estava a mudar. Desde 1987 tenho perseguido nessa via. Não imaginei que a mudança fosse tão rápida e ameaçadora.
Em 1998, ano da Expo sobre “O Futuro dos Oceanos”, reuni um grupo multidisciplinar de cientistas e obtivemos financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar os impactos das alterações climáticas em Portugal com base em cenários climáticos. Daí surgiram os dois livros do Projeto SIAM (Scenarios, Impacts and Adaptation Measures). Testemunho aqui o meu agradecimento à FCUL por ter acolhido o Projeto SIAM. Os gabinetes e as reuniões eram no Observatório Astronómico de Lisboa na Tapada da Ajuda, que nessa altura estava integrado na FCUL. Um local magnífico com caminhos, vistas, plantas e árvores inspiradoras, tal como os seus célebres dragoeiros. Depois foram cerca de 25 anos dedicados às alterações climáticas num grupo de jovens cientistas empenhados e excelentes, suportado por uma grande variedade de projetos nacionais e estrangeiros.
Entre estes recordo o ClimADAPT.Local: Estratégias Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas, iniciado em 2015, que consistiu na, elaboração de 26 Estratégias Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas e na formação de 52 técnicos municipais em Adaptação às Alterações Climáticas. Agradeço de novo à FCUL o acolhimento que deu a este projeto onde foi criada a Rede de Municípios para a Adaptação Local às Alterações Climáticas, que continua muito ativa.
Atualmente a minha investigação tem-se centrado nas questões da sustentabilidade. De acordo com a 9.ª edição do Relatório da Sustainable Development Solutions Network (SDSN), apenas 16 % das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda das Nações Unidas para 2030 estão a progredir. Relativamente às restantes 84% metas os progressos são limitados ou não existem. A concentração de CO2 na atmosfera tem subido continuamente desde a Revolução industrial e atingiu 424 ppmv em 2024.
Por que razão é tão difícil atingir a sustentabilidade? Juntamente com outros colegas temos refletido sobre este tema e identificamos determinantes críticos para a sustentabilidade que podem agir como barreiras humanas para a sustentabilidade (The six critical determinants that may act as human sustainability boundaries on climate change action e Unveiling global sustainability boundaries: exploring inner dimensions of human critical determinants for sustainability).
De entre os problemas mundiais de hoje, um dos mais graves é a desacreditação e a desvalorização da ciência quando contraria determinadas narrativas políticas e sociais, como acontece no país que liderava a aplicação dos princípios e valores do Ocidente e que continua a ser o mais poderoso do ponto de vista económico e militar.
É cada vez mais importante que a Europa continue a ter Universidades excelentes em todos os domínios do conhecimento e da ciência e adquira a competitividade económica necessária para se poder afirmar perante as outras grandes potências.
Lisboa, 2 de março de 2025
Filipe Duarte Santos
Professor jubilado de CIÊNCIAS e Presidente do CNADS - Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável