O que faço aqui? | Maria Manuel Torres

Maria Manuel Torres, 51 anos 

Professora / Investigadora no Centro de Análise Funcional e Estruturas Lineares / Departamento de Matemática / Ciências ULisboa
Doutoramento em Matemática - Área de Álgebra, Lógica e Fundamentos, Uiversidade de Lisboa

 

Maria Manuel Torres é docente no Departamento de Matemática e investigadora do Centro de Análise Funcional e Estruturas Lineares. Nunca planeou vir para a Ciência: “digamos que foi a Ciência que veio ao meu encontro”. Começou a frequentar uma licenciatura em Química mas rapidamente se apaixonou e mudou para Matemática. Dedica especial atenção à investigação fundamental em matemática – a chamada matemática pura -, mais concretamente em Álgebra e Combinatória.
“Investigar em matemática pura é tentar desbravar um caminho às escuras, em que, de vez em quando, surge uma luz”. Essa luz é consequência de leituras e revisão bibliográfica, que por sua vez despertam novas ideias. É nesse jogo constante que se move: “fazer investigação fundamental pressupõe quase sempre um grande esforço de atualização em relação aos resultados existentes, visto que não estamos a tentar resolver um problema concreto do dia-a-dia, mas a generalizar qualquer coisa que já existe”.
Para o futuro da ciência, considera fundamental que a mesma se torne “mais próxima da população em geral, de modo a fornecer ferramentas que permitam escolhas responsáveis e informadas, com o foco na sustentabilidade”. Essa preocupação leva-a também a colaborar com associações ligadas a projectos de sustentabilidade, em particular a Eco-Bairros de Futuro.

 

Que trabalho de investigação desenvolve em Ciências ULisboa ?

Maria Manuel Torres (MMT) - Sou professora auxiliar no Departamento de Matemática e membro do Centro de Análise Funcional e Estruturas Lineares. Faço investigação fundamental em matemática (matemática pura), mais concretamente em Álgebra e Combinatória, em colaboração com outros investigadores. 
De uma forma muito geral, podemos dizer que a Álgebra consiste em estudar relações e operações entre elementos de conjuntos (que podem ser bastante abstractos) e que a Combinatória tem como função estabelecer correspondências um a um (bijecções) entre conjuntos finitos (que podem ser bastante grandes). 
Os primeiros problemas em que trabalhei situavam-se na área da Álgebra Multilinear (uma generalização da Álgebra Linear, disciplina estudada no primeiro ano de qualquer curso de ciências). Um dos objectivos era estender para o caso mais geral possível, um conjunto de teoremas que apenas tinham sido provados para certos casos particulares. 
Como acontece muito frequentemente em problemas de Álgebra Linear e Multilinear, depois de "limar todas as arestas", o problema original transformou-se num problema de Combinatória. 
Investigar em matemática pura é tentar desbravar um caminho às escuras, em que, de vez em quando, surge uma luz. Essa luz é consequência de leituras e revisão bibliográfica, que por sua vez despertam novas ideias. 
Na verdade, fazer investigação fundamental pressupõe quase sempre um grande esforço de atualização em relação aos resultados existentes, visto que não estamos a tentar resolver um problema concreto do dia-a-dia, mas a generalizar qualquer coisa que já existe.
O meu trabalho de investigação também está intimamente ligado à docência. Ao preparar um novo curso ou ao orientar um projeto ou uma tese, ocorrem frequentemente novas questões, que, por sua vez, dão origem a posteriores investigações.

 

Que respostas pretende encontrar com a sua investigação?

MMT - Na investigação fundamental, colocar questões é quase tão importante como encontrar respostas, pois uma boa pergunta leva a muitas outras e, mesmo que a questão inicial não fique completamente resolvida, os problemas em aberto que daí advêm poderão revelar-se mais interessantes do que o problema inicial. 
A maior parte do trabalho de investigação que tenho feito caracteriza-se por estabelecer pontes entre a Combinatória e a Álgebra, generalizando resultados já conhecidos.
Este ano estou a preparar uma nova disciplina para o mestrado "Álgebra Linear Computacional" e irei aproveitar esta oportunidade para aprofundar as relações entre a Álgebra, a Combinatória e a Ciência de Dados.
Também gostaria de ter disponibilidade para regressar a problemas que surgiram durante o meu trabalho de doutoramento e que ainda estão em aberto. 

Quais são para si os grandes desafios da ciência para as próximas décadas?

MMT - Não tenho dúvidas de que o grande desafio da Ciência para as próximas décadas é o de enfrentar definitivamente, em todas as suas vertentes, o problema gigante da sustentabilidade do planeta Terra, estabelecendo formas de existência que não ponham em causa o futuro das próximas gerações nem a biodiversidade. 
Também me parece fundamental que a Ciência se torne mais próxima da população em geral, de modo a fornecer ferramentas que permitam escolhas responsáveis e informadas, com o foco na sustentabilidade.
Outro desafio é o de estreitar as relações entre a Ciência e a Arte, em todas as suas formas: artes plásticas, música, teatro, cinema, literatura...

Sugestão de leitura / audição / visualização...

Livro: “Indiscrete Thoughts”, de Gian-Carlo Rota, 1996, Birkhäuser. Uma colectânea de textos cheios de boas histórias, conselhos interessantes e muita matemática, escrito por um dos matemáticos mais versáteis do século XX. Como complemento, ler a entrevista “Mathematics, Philosophy and Artificial Intelligence”,1985.
O blogue Sustainability Math​ do matemático Thomas Pfaff, que é actualizado regularmente, com conteúdos relacionados com o problema da sustentabilidade. 
O vídeo de uma palestra do matemático Safa Motesharrei, autor de um artigo em que é proposto um modelo matemático (HANDY) para descrever a dinâmica Homem/Natureza.

 

Quando não estou a fazer ciência estou a...

Conviver com os meus amigos e família, ler, ouvir música, assistir a espectáculos, viajar, cozinhar... 
Por vezes, participo em tertúlias literárias.
Colaboro também com algumas associações ligadas a projectos de sustentabilidade. Desses projectos, aquele que mais me entusiasma é o da Associação Eco-Bairros de Futuro. O objectivo principal desta associação é a implementação de um Eco Bairro em meio urbano, de acordo com princípios de sustentabilidade ambiental, social e económica. 

O que a trouxe para a Ciência?

MMT - Comecei por escolher uma licenciatura na área de Química, que era a minha disciplina preferida na escola secundária. Mas, uma vez na faculdade, percebi rapidamente que a vida de laboratório não era para mim.
Na mesma altura, também descobri que a Matemática me fascinava, pela forma como o conhecimento estava estruturado, pela segurança que me transmitia.
Mudei de curso e na mesma altura também mudei de país, devido a circunstâncias familiares. Durante a licenciatura em Itália, escolhi o ramo científico, porque me pareceu o mais desafiante. Entretanto, voltei a Portugal e inscrevi-me no mestrado em Álgebra na FCUL, por sentir necessidade de aprofundar o meu conhecimento nessa área. Passado pouco tempo, abriu concurso para a categoria (já extinta) de assistente estagiário no Departamento de Matemática, concorri e entrei.
Nunca planeei vir para a Ciência, digamos que foi a Ciência que veio ao meu encontro. E a partir daí fiquei, porque gostei do que a Ciência me oferecia.

Que conselhos dá aos mais novos que pensam seguir a carreira de investigação?

MMT - Identificar os assuntos de que gostam e ir atrás deles, escolher trabalhar com pessoas com quem tenham empatia, estudar muito, não desistir, aprofundar o que fazem porque só assim poderão evoluir.

* Na rubrica "O que faço aqui?" compilamos entrevistas a investigadores do universo Ciências ULisboa, que nos falam sobre a investigação que fazem, os grandes desafios da ciência mas também de outras paixões que alimentam. Ler todas as entrevistas.