O que faço aqui? | Elisabete Malafaia

Elisabete Malafaia, 40 anos

Investigadora no IDL - Instituto Dom Luiz / Ciências ULisboa
Doutoramento em Geologia (com especialização em Paleontologia, Estratigrafia e Sedimentologia), Ciências ULisboa

Elisabete Malafaia no meio da natureza.

Elisabete Malafaia é paleontóloga no IDL e trabalha na análise da história evolutiva de dinossáurios terópodes (do gigante Tyrannosaurus ao minúsculo Microraptor), em particular do registo fóssil da Península Ibérica. Foca o seu estudo na composição das faunas e das relações de parentesco entre as diferentes formas representadas. Através delas é possível conhecer a sua evolução e compreender os factores que determinaram a sua história evolutiva.
Para a evolução da ciência aponta como essencial que a mesma desenvolva “cada vez mais investigação multidisciplinar, de contexto global e cujos resultados sejam transferidos de forma mais eficiente aos vários sectores da sociedade”. Para os cientistas do futuro recomenda que encarem as dificuldades como desafios: “Os cientistas gostam de desafios, se encararem as dificuldades nessa perspectiva torna-se mais fácil”.

Que trabalho de investigação desenvolve em Ciências ULisboa?

Elisabete Malafaia (EM) - Desenvolvo, desde 2014, trabalho de investigação em Paleontologia, ligada ao Departamento de Geologia e ao IDL - Instituto Dom Luiz de Ciências ULisboa. A minha investigação centra-se na análise da história evolutiva de dinossáurios terópodes, em particular do registo fóssil da Península Ibérica. Os terópodes são um grupo de dinossáurios bípedes e maioritariamente carnívoros, muito diversificado, que inclui desde formas de grande porte, incluindo o famoso Tyrannosaurus, que podia atingir cerca de 14 metros de comprimento e pesar mais de 9 toneladas, até formas de dimensões reduzidas, como por exemplo o Microraptor com apenas 70 centímetros de comprimento. Este grupo de dinossáurios inclui também a linhagem de pequenos terópodes especializados que deu origem às aves. O registo fóssil de dinossáurios da Península Ibérica é bastante abundante, sobretudo em níveis sedimentares datados do Jurássico Superior e do Cretácico Inferior (entre aproximadamente 150 e 120 milhões de anos). Desde o doutoramento tenho desenvolvido estudos sobre o registo fóssil de terópodes da Península Ibérica centrados, em particular, na análise da composição das faunas e das relações de parentesco entre as diferentes formas representadas.   

Que respostas pretende encontrar com a sua investigação?

EM - Os principais objectivos do trabalho de investigação que desenvolvo são caracterizar as faunas de dinossáurios terópodes, em particular na Península Ibérica, conhecer a sua evolução e compreender os factores que determinaram a sua história evolutiva. Uma das questões centrais da minha investigação relaciona-se com a análise das relações de parentesco entre as faunas de dinossáurios do Jurássico Superior da Península Ibérica e da América do Norte. O registo fóssil indica uma certa semelhança na composição das faunas de dinossáurios e de outros vertebrados continentais do Jurássico Superior, em ambos lados do Atlântico Norte. O conhecimento da composição e relações de parentesco destas faunas é essencial para compreender a evolução dos ecossistemas continentais nas regiões do hemisfério Norte durante as primeiras fases de fragmentação do supercontinente Pangeia e em particular relacionada com a abertura do sector norte do Oceano Atlântico. A semelhança identificada nas últimas décadas no registo fóssil de vertebrados continentais do Jurássico Superior da Bacia Lusitânica (Oeste de Portugal) e de níveis correlativos da Formação de Morrison (Oeste dos Estados Unidos da América) foi inicialmente interpretada como evidência da existência de transferência de faunas entre estas regiões. Contudo, a identificação de formas exclusivas do registo português e de exemplares aparentemente relacionados com taxa típicos de regiões do hemisfério Sul, realizada mais recentemente, indica um contexto paleogeográfico mais complexo e ainda mal compreendido. A interpretação da história paleobiogeográfica das faunas de dinossáurios terópodes da Península Ibérica é uma das questões centrais que procuro compreender através do trabalho de investigação que desenvolvo.  

Sugestão de leitura / audição / visualização...

Como leitura sugiro o livro “ Uma Breve História do Tempo”, de Stephen Hawking. É um livro que explica diversos temas complexos de Cosmologia, incluindo a Teoria do Big Bang, os buracos negros, os cones de luz e a Teoria das Supercordas, através de uma linguagem acessível e marcada por um excelente sentido de humor. O livro explora a percepção que a humanidade tem sobre o universo, e como ela foi mudando ao longo da história, passando por Aristóteles, Copérnico, Galileu, Newton e Einstein.
Também relacionado com a minha sugestão de leitura, sugiro o filme “A teoria de Tudo”. É um filme inspirador sobre a vida de Stephen Hawking, a quem a doença motora degenerativa de que sofria não impediu de se tornar um dos maiores cientistas do nosso tempo.

Quando não estou a fazer ciência estou a...

Um dos meus hobbies preferidos mas que não tenho conseguido manter com a regularidade que gostaria é a prática de Tai Chi. Também gosto muito de viajar, embora ultimamente o faça quase exclusivamente em trabalho, passear ao ar livre, ouvir música e ler. 

Quais são para si os grandes desafios da ciência para as próximas décadas?

EM - Um dos maiores desafios que a humanidade enfrenta actualmente e para o qual a ciência poderá dar um contributo importante é a sustentabilidade da sociedade, com a máxima optimização dos recursos disponíveis, o máximo benefício social e o mínimo impacte ambiental. Para responder a estes desafios, é essencial que a ciência desenvolva cada vez mais investigação multidisciplinar, de contexto global e cujos resultados sejam transferidos de forma mais eficiente aos vários sectores da sociedade.

O que a trouxe para a Ciência?

EM - O que me trouxe para a Ciência foi a curiosidade e fascínio pelo mundo natural. Sempre gostei de estar na natureza e observar os animais, as plantas e as rochas. Quando era criança fazia muitas perguntas sobre as diferentes formas de vida, porque é que existem formas tão distintas de seres vivos, o que é que significam essas diferenças e se há algo em comum entre elas apesar das diferenças. Quando comecei a estudar as disciplinas de Ciências Naturais, no ensino secundário, fiquei fascinada pela História da Terra, pela dimensão de tempo geológico, e em particular pela História da Vida. Foi este fascínio que me levou a estudar Geologia e mais tarde a fazer o doutoramento em Paleontologia.

Que conselhos dá aos mais novos que pensam seguir a carreira de investigação?

EM - O concelho que eu dou, em primeiro lugar, é que procurem experimentar diferentes vertentes do trabalho o mais cedo possível, procurem colaborar com professores e investigadores em diferentes áreas (e sempre que possível em diferentes países), porque isso vai ajuda-los a descobrir o que realmente gostam e o trabalho que mais os motiva. Em segundo lugar, que sejam persistentes porque vão encontrar muitos obstáculos e dificuldades. A carreira de investigação não é fácil, geralmente associada a grande instabilidade profissional e extremamente competitiva. O meu conselho é que, se realmente é o que querem fazer, não desistam e encarem as dificuldades como desafios. Os cientistas gostam de desafios, se encararem as dificuldades nessa perspectiva torna-se mais fácil. :)

 

* Na rubrica "O que faço aqui?" compilamos entrevistas a investigadores do universo Ciências ULisboa, que nos falam sobre a investigação que fazem, os grandes desafios da ciência mas também de outras paixões que alimentam. Ler todas as entrevistas.