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Gruta de Vale Telheiro: "É a primeira área protegida de fauna troglóbia em Portugal"

Hugo Séneca
Artigo, Biologia, Destaque5 fevereiro, 2026

Quando entrou, pela primeira vez, na Gruta de Vale Telheiro, Ana Sofia Reboleira ainda não conhecia ali qualquer espécie cavernícola endémica, mas algo lhe dizia que a “cavidade” do Concelho de Loulé tinha muito por revelar. “Estava a fazer o doutoramento, e das várias grutas que estudei, esta revelou-se muito interessante porque reunia condições para a existência de muitas espécies cavernícolas”, recorda a professora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa).

A primeira análise, feita em 2008, poderia bem ser comparada a um prémio de lotaria da biodiversidade. Em 18 anos de estudo, a investigadora que tem vindo a trabalhar no Centro de Ecologia Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) liderou vários trabalhos que permitiram o registo de mais 25 espécies de animais adaptados à vida nas cavernas, e Ciências ULisboa criou uma cátedra com o tema. Em janeiro, o Diário da República trouxe mais uma boa nova: a Câmara Municipal de Loulé concluiu o processo de Classificação de Monumento Natural Local da Gruta de Vale Telheiro.

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Ana Sofia Reboleira durante uma das muitas visitas à Gruta de Vale Telheiro

“Trata-se da primeira área protegida de fauna troglóbia em Portugal. Os animais troglóbios passam todo o ciclo de vida no meio subterrâneo e, por isso, têm adaptações à vida subterrânea, como a ausência de olhos ou pigmento corporal. Foi a Gruta de Vale Telheiro, situada em Loulé, que pôs Portugal no mapa mundial dos hotspots de biodiversidade subterrânea”, refere Ana Sofia Reboleira. “O conhecimento científico acumulado ao longo dos últimos 18 anos, demonstrou a importância do local e contribuiu para a tomada de decisão política que permitiu avançar com a classificação de monumento natural”, acrescenta.

Além da Gruta de Vale Telheiro, os investigadores de Ciências ULisboa haveriam de dar um contributo determinante através de um protocolo com o Município de Loulé que permitiu avançar no estudo e caracterização da cavidade e da sua área envolvente, e na recolha de informação útil para o futuro restauro ecológico e conservação a longo prazo. “Esta classificação de Monumento Natural também dá o exemplo da tipologia de instrumentos que estão ao dispor das autarquias para a valorização do território”, sublinha a Ana Sofia Reboleira.

pseudoescorpião gigante das grutas do Algarve

Foi na Gruta de Vale Telheiro que foi descoberto, pela primeira vez, o pseudoescorpião gigante das grutas do Algarve

No currículo da investigadora, constam incontáveis visitas ao local, e ainda a descrição taxonómica de várias espécies – com especial destaque para peixinho-de-prata-gigante, o maior inseto terrestre cavernícola da Europa (Squamatinia algharbica) e o pseudoescorpião gigante das grutas do Algarve (Titanobochica magna). Esta última espécie viria mesmo a ser distinguida como uma das 100 mais espetaculares do nosso planeta.

“É impressionante a biodiversidade que se encontra nesta gruta. Não tem comparação com outras grutas no nosso País”, adianta a professora de Ciências ULisboa. “Esta classificação publicada em Diário da República é uma salvaguarda deste local de excelência para a investigação, que tem ainda muito por estudar”, acrescenta.

“É impressionante a biodiversidade que se encontra nesta gruta. Não tem comparação com outras grutas no nosso País”

A Gruta de Vale Telheiro encontra-se a cerca de 20 metros de profundidade e apresenta uma extensão de mais de 240 metros. Ana Sofia Reboleira lembra que se trata de um espaço de baixa concentração de oxigénio e alta concentração de dióxido de carbono – e por isso exige o uso de "aparelhos de respiração autónoma”. Com a classificação agora anunciada pela Câmara de Loulé, a Gruta passa a ter acesso virtualmente condicionado a cientistas previamente autorizados, e ainda uma proteção que se estende à superfície, numa área total de 78,52 hectares.

Ana Sofia Reboleira

Ana Sofia Reboleira começou a estudar a Gruta de Vale Telheiros depois de 2008

Ana Sofia Reboleira lembra que os ecossistemas subterrâneos, ainda que imperscrutáveis, são afetados por tudo aquilo que se faz à superfície. “Não se consegue proteger ecossistemas subterrâneos sem se proteger a área de influência à superfície. As atividades humanas e os contaminantes têm um impacto direto em profundidade”, acrescenta a investigadora que lidera o grupo de Ecologia Subterrânea do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C).

Entrada da Gruta de Vale Telheiro

O interior da Gruta de Vale Telheiro exige o uso de aparelhos de respiração autónoma

“No interior da Gruta, requerem-se níveis de perturbação praticamente nulos para salvaguardar a integridade das condições bióticas e abióticas da mesma, de modo a garantir a preservação das espécies cavernícolas endémicas e dos habitats naturais cársicos. À superfície, caracterizada essencialmente pela ocorrência de matos densos calcários, requerem-se níveis de perturbação mínimos de modo a salvaguardar a integridade dos valores naturais existentes no interior da gruta”, descreve o regulamento na nova área protegida que foi publicado na semana passada pelo Diário da República.

“Vamos continuar a estudar o local e a acompanhar as alterações ao longo do tempo”.

Apesar do acesso restrito, os cientistas vão continuar a acompanhar o que se passa na Gruta de Vale Telheiro. Ana Sofia Reboleira recorda a criação de uma Estação Ecológica de Longo Termo (LTER) que está equipada com sensores que recolhem dados ambientais, e os transmitem em tempo real. Com este equipamento financiado pelo Prémio Belmiro de Azevedo-FCT, investigadores de todo o mundo vão poder acompanhar remotamente o que se passa na Gruta, abrindo um novo capítulo de investigação em ecossistemas subterrâneos.

Ana Sofia Reboleira não exclui a possibilidade de descoberta de mais espécies endémicas, e mantém a expectativa para o que aí vem: “Vamos continuar a estudar o local e a acompanhar as alterações ao longo do tempo”. A investigação segue agora para novos capítulos.

Comunicados

Irene Fonseca distinguida com o Prémio Universidade de Lisboa 2024.