O Dia Aberto da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) ainda ia no início, quando Sofia Moita confessou o dilema que a trouxe de visita com os colegas da Escola Secundária Daniel Sampaio, da Charneca de Caparica. “Vim cá para tirar as dúvidas, mas antes de vir estava com receio de ficar ainda com mais dúvidas. Por isso vou seguir a lógica da eliminação de hipóteses”, lembra. “Gosto de biomedicina, biologia, física, e de outras ciências. Sou capaz de ser feliz em todas essas áreas científicas, mas sei que vou ter de escolher uma em detrimento das outras”, acrescenta a jovem estudante. Ainda não se sabe se Sofia chegou ao fim do dia com uma decisão tomada – mas a avaliar pela vinda de 2800 estudantes a Ciências ULisboa nesta quarta-feira não será de estranhar que mais gente tenha tirado as dúvidas quanto ao curso que vai escolher para as candidaturas que arrancam em julho.

Dia Aberto: “Consigo ser feliz em todas estas áreas científicas, mas vou ter de escolher uma”

Investigadores, alunos e professores criaram várias atividades laboratoriais para despertar a curiosidade dos visitantes do Ensino Básico e do Ensino Secundário
“O Dia Aberto de 2026 foi programado para dar a conhecer os vários cursos, departamentos e centros de investigação de Ciências ULisboa. Desta forma conseguimos mostrar o que de melhor temos na nossa Faculdade e também conseguimos abranger diferentes perfis e preferências, ou até tirar dúvidas dos estudantes que querem ingressar no ensino superior. Estudar na área das ciências exige cérebro, mas a escolha do curso passa sempre pelo coração”, descreve Celma Padamo, responsável da Direção de Comunicação e Imagem de Ciências ULisboa.
Numa Faculdade que se distingue pela quase inexistência de muros, o Dia Aberto foi além do fator arquitetónico com um evento que traz para o dia-a-dia o espírito de livre acesso às ciências. Para a grande visita de quarta-feira, que abarcou estudantes e mais de 120 professores do 8º ao 12º anos de mais de 100 escolas, foram montadas 115 atividades dispersas pelos diferentes recantos, salas e laboratórios do campus de Ciências ULisboa. Tudo para que cada visitante pudesse escolher, à medida do gosto e da disponibilidade, aquilo que só em presença se sente melhor.

O Dia Aberto trouxe a Ciências ULisboa mais de 2800 estudantes de 100 escolas
“Surpreendeu-me muito o que vi em Biologia. As pessoas foram incríveis e a visita levou-me a considerar a escolha desse curso. O ambiente é agradável e isso também ajuda a perceber o que podemos encontrar nesta Faculdade”, responde Alexandra Carrega, da Escola Básica e Secundária Professor Reynaldo dos Santos, de Vila Franca de Xira.
No dia em que as visitas são as protagonistas, foi possível percorrer trilhos dedicados às licenciaturas, aos cientistas, aos laboratórios, à inovação e aos caloiros. Muitas das atividades que constavam nestes roteiros de visita contaram com a participação ativa dos centros de investigação que marcam presença em Ciências Ulisboa.
Um exercício de fuga que ajuda a conhecer bacteriófagos; os protótipos de diagnóstico de doenças com micro-ondas; o curioso mundo dos cérebros de peixes; as várias atrações da sala Física à Solta; os tremores do Laboratório de Sismologia; a extração de óleos a partir de plantas; as surpresas reservadas para quem observa rochas no microscópio; os cumprimentos de um robô; os desafios da química forense; ou as contas com que se faz a otimização – toda a comunidade académica respondeu à chamada com representantes e voluntários de vários departamentos quando se tratou de participar nesta nobre missão que pode mudar o rumo de algumas vidas. Mais de 300 estudantes integraram a denominada task force. Professores, cientistas, técnicos laboratoriais, e profissionais técnicos das mais variadas funções também se juntaram à causa. E foi com esse espírito de partilha que Alexandra Marçal, professora do Departamento de Biologia, aceitou integrar o grupo de cientistas da “casa” que se disponibilizaram para encontros de quatro minutos que são conhecidos por speed dating.

Conceição Freitas, diretora de Ciências ULisboa, também marcou presença no Dia Aberto
“Durante estes encontros com os estudantes tento explicar a importância dos ecossistemas para nos proporcionarem serviços que usamos no dia-a-dia, como o oxigénio que respiramos, a regulação do clima, ou a produção de alimentos. É algo que ajuda estes alunos a perceberem a importância dos ecossistemas para o bem-estar humano”, refere a professora de Ciências ULisboa. “Nestes encontros, costumo começar por perguntar os interesses de cada estudante para poder ver por onde posso seguir nos temas. Depois, apresento-me e inicio as explicações sobre o tema escolhido. É sempre uma conversa adaptada à faixa etária e aos interesses das pessoas que tenho à frente”, refere ainda.

José Afonso, subdiretor de Ciências ULisboa, com os vários voluntários da comunidade académica que ajudaram a preparar o evento de quarta-feira
Se nos speed datings tudo se passa num máximo de quatro minutos, no denominado trilho das licenciaturas as explicações estendem-se um pouco mais no tempo e contam com descrições mais detalhadas sobre planos de estudo dos diferentes cursos. Acontece que na edição de 2026, este trilho tinha uma novidade acrescida: entre as 17 licenciaturas apresentadas, encontrava-se a estreia da Licenciatura em Ciência de Dados, que arranca no próximo ano letivo de 2026/2027.
“Foi um momento muito motivador. Tivemos alunos que não sabiam da licenciatura e que, no final da sessão, passaram a considerá-la uma boa opção"
“Foi um momento muito motivador. Tivemos alunos que não sabiam da licenciatura e que, no final da sessão, passaram a considerá-la uma boa opção. Tivemos a sala cheia durante toda a sessão”, descreve Cátia Pesquita, coordenadora da nova Licenciatura em Ciência de Dados e professora do Departamento de Informática de Ciências ULisboa. “Esta geração (que está agora no Secundário) mantém muito interesse em Inteligência Artificial e Ciência de Dados e vai tentando descobrir cada vez mais, com questões sobre o trabalho e o estudo nestas áreas. Tentámos envolver estes estudantes com exemplos do potencial que estas tecnologias têm tido na Banca, na Saúde, na Física e na Astronomia ou nas redes sociais e no marketing, entre outras áreas”, acrescenta.
Claro que há sempre o necessário alinhamento de expectativas com a realidade. Um Dia Aberto também serve para isso mesmo. “Os alunos que já têm preferências bem vincadas querem vir. E os que não têm também querem”, garante Isabel Saraiva, professora de Física e Química da Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira, do Concelho de Seixal. “Para muitos destes alunos, é uma boa oportunidade para ver diferentes áreas de estudo e perceber melhor se as médias das notas lhes permitem entrar no curso que querem. Tentamos aconselhá-los a visitar e a experimentar as atividades dos vários departamentos, para perceberem como funcionam”, refere ainda a docente.

Carlos Cordeiro, professor do Departamento de Química e Bioquímica, durante uma das atividades de laboratório para alunos do ensino secundário
O momento da verdade chega ao cabo do 12º ano, mas o momento da decisão até pode começar bem antes. “Temos aqui alunos do 12º ano, e também trouxemos alunos do 11º ano. Os alunos do 11º ano ainda têm algum tempo para decidir sobre o curso e ainda não fizeram os exames. Faz sentido trazê-los também para estes eventos e ajudá-los a começar a escolher a área que querem seguir. Há uns anos não havia tanta informação e não íamos à Internet para escolher o curso, mas agora podemos trazer os alunos a estes eventos para possam fazer uma escolha mais bem informada”, explica Valter Carlos, antigo aluno de Ciências ULisboa e professor de Matemática no Instituto de Ciências Educativas, no Concelho de Odivelas.
“É muito importante que estes estudantes do Secundário possam ver estas coisas e possam ter contacto com os estudantes que já estão na Faculdade"
Num encontro em que abundam desconhecidos e diferentes proveniências, a empatia faz a diferença. E nesse ponto a idade tem um papel a desempenhar. “É muito importante que estes estudantes do Secundário possam ver estas coisas e possam ter contacto com estudantes que já estão na Faculdade, porque, por vezes, prestam mais atenção a colegas mais velhos do que ao que dizem os professores”, refere Valter Carlos, com uma ponta de bonomia.
Tanto Mário Mateus da Costa como Carolina Pimentel pertencem, por pleno direito, ao grupo dos estudantes que conhecem Ciências ULisboa quase como uma segunda casa e que por isso têm maior probabilidade de ser escutados pelos mais novos. O primeiro é presidente da Associação dos Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa (AEFCL). Carolina Pimentel está no primeiro ano de doutoramento em Biologia e está integrada no centro de investigação BioISI, mas antes disso fez licenciatura e mestrado em Ciências ULisboa. No Dia Aberto de Ciências, a estudante deu a conhecer alguns dos atrativos da microbiologia numa sessão conhecida como Eskape Room, que tinha vírus e bacteriófagos como personagens principais.

Alunos do Ensino Secundário trouxeram alegria e curiosidade para o Dia Aberto de Ciências ULisboa
“Nesta sessão, quisemos promover o interesse pelo contexto laboratorial e também a vertente prática, que ajuda a perceber o que faz um cientista no quotidiano. Desenvolvemos vários desafios que levaram os alunos a pensar em soluções para a área da microbiologia. No final tínhamos um período para questões e um testemunho sobre percursos académicos. Gosto deste tipo de atividades e penso que também é interessante levar cientistas para as escolas”, recorda Carolina Pimentel.
“Estar na Faculdade pode não ser só estudar. Quisemos mostrar as várias experiências que nos ajudam a ter uma formação mais completa nesta Faculdade”
O estudo será sempre a principal razão de ser da Faculdade – mas no meio de sebentas e exames, o desporto também pode desempenhar uma função. Mário Mateus da Costa sabe bem do que fala, até porque no histórico da AEFCL há também vários campeões do desporto universitário. Por isso o Dia Aberto contou com um campo de vólei, mas também contemplou visitas guiadas a edifícios e infraestruturas – e não foram esquecidas as atividades ligadas à cultura, ao entretenimento ou à formação complementar.
“Queremos mostrar o outro lado da Faculdade”, refere o presidente da AEFCL. Como seria de esperar, a participação da AEFCL incidiu mais na vertente académica do que na área curricular. “Estar na Faculdade pode não ser só estudar. Quisemos mostrar as várias experiências que nos ajudam a ter uma formação mais completa nesta Faculdade”, refere Mário Mateus da Costa. Em julho, chega o momento das grandes decisões.