
Trajetórias de Descoberta: Henrique Leitão, o historiador que zarpou em busca da ciência dos Descobrimentos
Henrique Leitão até pode dizer que não sabe mudar uma lâmpada, mas acabou a iluminar muito daquilo que não se sabia sobre o matemático Pedro Nunes (1502-1578). O investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) também diz que prefere trocar de tema científico quando acha que nada tem a acrescentar, mas não foi essa a razão que o levou a deixar, no ano 2000, a Física Teórica que permitia cogitar hipóteses “sem entrar em laboratórios” e por isso se tornou responsável pela metafórica inépcia para mudar lâmpadas. “Fui sugado pelo estudo da História”, recorda. Não sendo planeada, a mudança foi premonitória: em 2019, o investigador do Departamento de História e Filosofia da Ciência (DHFC) ganhou uma Bolsa Avançada do Conselho Europeu de Investigação (ERC) que permitiu colocar os descobridores portugueses entre os primeiros fautores de uma ciência de escala global.
“As Bolsas Avançadas do ERC destinam-se a investigadores que já têm nome no circuito científico internacional. Achei que poderia ganhar e por isso concorri. Acabei por ganhar a bolsa. Sinto que foi uma barreira psicológica ultrapassada em Ciências ULisboa”, descreve Henrique Leitão.

Henrique Leitão ganhou a bolsa do ERC em 2019
Foi devidamente impulsionado pelo embalo científico-emocional que o historiador que veio das ciências levou a cabo o projeto “Making the Earth Global: Early Modern Nautical Rutters and the Construction of a Global Concept of the Earth” (Projeto RUTTER). Durante os cinco anos da denominada advanced grant do ERC, Henrique Leitão revelou como as descrições das viagens dos navegadores portugueses também estavam ao serviço de uma ciência de escala planetária, que tinha em conta preceitos, teorias ou lógicas globais que atestavam ou explicavam os fenómenos verificados localmente. E essa tendência globalizante tanto poderia surgir através dos registos de ocorrência de tempestades como através do avistamento de tartarugas que constam nos diários de bordo. “Saber que, no século XVI, havia golfinhos ou tartarugas num determinado local pode ser relevante para perceber como a biodiversidade mudou nestes anos”, exemplifica o historiador relativamente ao atual potencial dos documentos deixados pelos marinheiros portugueses.

Diário de bordo de um navio em viagem oceânica no século XVI. Estes roteiros e diários de bordos são os primeiros documentos da Humanidade que testemunham a recolha de dados sobre o mundo natural (correntes, ventos, magnetismo, etc), à escala planetária
Por altura da atribuição da bolsa do ERC, já Henrique Leitão tinha recebido um Prémio Pessoa, uma Comenda da Ordem Militar de Sant'iago da Espada e uma nomeação para a Academia Internacional da História das Ciências. Não era propriamente um desconhecido. E as bolsas ERC também não lhe eram estranhas. Dois anos antes tinha seguido bem de perto a atribuição da Bolsa de Iniciação do ERC a Joaquim Alves Gaspar. E hoje é essa mesma proximidade que mantém os dois laureados com uma ERC em gabinetes que se encontram apenas a meia dúzia de passos de distância dentro do Departamento de História de Filosofia e da Ciência. O que dá bastante jeito para os afazeres do dia-a-dia. “Continuamos a fazer trabalhos em parceria. O Joaquim Alves Gaspar é um grande investigador. Tem a cabeça de um jovem de 35 anos”, garante.
Se a idade não é um posto, também não deixa de ser um indicador importante na ciência. Henrique Leitão lembra o velho dito que recomenda as ciências exatas e naturais “para jovens” e indica a História para “gente madura e de cabelos brancos”. Se assim é, então Henrique Leitão pode bem dizer que chegou aos 61 anos de idade como avô, tendo cumprido os dois perfis etários na plenitude. “Ainda leio muito sobre física, mas quando se deixa a investigação perde-se a mão”, admite, enquanto descreve a migração para a área da história “como um processo gradual que durou 10 anos”. “Só em 2000 me tornei historiador a 100%”, acrescenta.
“Há 200 anos já havia quem escrevesse que era inacreditável que as obras do maior cientista português não estivessem editadas”
Talvez porque viveu à volta do Renascimento, também Pedro Nunes teve de se desdobrar entre várias áreas do saber como a matemática, a medicina, a astronomia ou a filosofia, até se alcandorar ao estatuto de “maior cientista português de sempre”. Hoje nem com o nónio que o tornou conhecido, o histórico cientista poderia vir alguma vez medir o impacto que teve, quase cinco séculos mais tarde, na carreira de um tal investigador de Física Teórica, doutorado em Ciências ULisboa, que costumava exercitar a poliglotia com aulas de latim e grego antigo ao domingo, ao mesmo tempo que começava a tomar o gosto pela interpretação de textos científicos do passado.
Por essa altura, o historiador já estava a tomar forma sem que o físico que habitava a mesma pessoa conseguisse sequer formular tese ou modelo preditivo sobre a metamorfose em curso. Até que o telefone tocou. Pedro Nunes não era certamente – mas sabe-se que há projetos que costumam tocar assim. Do outro lado da linha, estava um administrador da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe disse que queria que liderasse a edição das obras científicas do matemático quinhentista. Pouco depois, a Academia das Ciências de Lisboa juntou-se ao processo. “Disseram-me que a única condição é que fosse eu a liderar o projeto”, recorda. Até Mariano Gago, antigo ministro da Ciência, se interessou pela iniciativa, refere ainda Henrique Leitão no momento de evocar os apoios recebidos.

Foto de parte dos investigadores que participaram no projeto RUTTER, nos anos iniciais: Carmo Lacerda, Juan Acevedo , Inês Bénard da Costa e José Maria Moreno Madrid
Sendo “daquelas coisas que só acontecem uma vez na vida”, a proposta logo se revelou, manifestamente, “irrecusável”. “Há 200 anos já havia quem escrevesse que era inacreditável que as obras do maior cientista português não estivessem editadas”, refere Henrique Leitão. O desafio justificou bem o misto de orgulho e entusiasmo – mas também comportou penosidade. “Era uma proposta que implicava trabalho de 12 horas por dia, durante 10 anos. Era simplesmente insano”, diz como quem depara com um programa de travessia do Cabo das Tormentas que, neste caso, teria de ser sempre imaginária, pois, ao que consta, Pedro Nunes não fez viagem de barco que merecesse registo e até ficou com a fama de ter andado às avessas da Universidade de Coimbra, que teve de o receber “sem concurso e por imposição do Rei”.
“Temos de ir buscar o melhor talento onde ele se encontra. Não podemos ficar à espera que esse talento entre pela porta do gabinete”
Hoje, o produto do “trabalho insano” desenvolvido entre 2001 e 2012 transcorre seis tomos e mais de 3000 páginas. Sendo suficiente para compor qualquer estante de historiador, a coleção das obras de Pedro Nunes por si só não revela tudo o que implicou antes do prelo: Depois de andar nas bibliotecas de meio mundo em busca das obras de Pedro Nunes ou de autores que o estudaram, o investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT) teve de se embrenhar na catalogação de manuscritos antigos e de impressos científicos do século XVI que se encontram na Biblioteca Nacional, e avançou no estudo sobre o papel que o Colégio de Santo Antão teve na divulgação das obras de Pedro Nunes. Não houve muita margem para ilusões: a dimensão do projeto exigia mais mão de obra para investigar.
Entre jovens e menos jovens, humanidades e ciências exatas e naturais, Henrique Leitão revela uma lista com os nomes dos investigadores que gostaria de destacar não só como companheiros no encalço de Pedro Nunes, mas também em muitos trabalhos subsequentes sobre cartografia náutica; a projeção de Mercator; os primeiros telescópios em Portugal; a circulação de livros científicos em mais de 500 bibliotecas antigas nacionais; a publicação da obra do matemático Francisco de Melo; ou até o mais recente livro sobre a longitude, que já esgotou nas livrarias.

Mapa do "Livro de Marinharia de João de Lisboa". No início do séc. XVI, em Portugal, a convicção do conhecimento e controlo intelectual de toda a Terra tinha já uma expressão visual
Bernardo Mota, Samuel Gessner, Pedro Raposo, Teresa Nobre de Carvalho, Francisco Romeiras, Luís Ribeiro, Luana Giurgevich, Joaquim Alves Gaspar, Bruno Almeida, Luís Tirapicos, José Malhão Pereira, e Helena Avelar figuram na lista que contém ainda mais dois nomes que são aqui destacados à parte apenas porque ajudam a ilustrar a estratégia usada na captação de talentos que ajudou a formar com o objetivo de expandir a História das Ciências em Portugal.
“Contratei o Antonio Sánchez em cinco minutos, à saída de uma conferência em Londres”, adianta. “E fui buscar o Thomas Horst à Bélgica”, acrescenta, para depois garantir que os investigadores deslocados não deram o tempo por perdido.
“Se o projeto for inovador e o investigador principal demonstrar que tem capacidade para o executar, não importa o cargo ou a hierarquia. O sistema do ERC está muito bem montado"
“Temos de ir buscar o melhor talento onde ele se encontra. Não podemos ficar à espera que esse talento entre pela porta do gabinete”, reitera. “Houve vários investigadores que não se doutoravam aqui, mas faziam questão de passar períodos de estudo no DHFC, preparando a admissão a doutoramentos no estrangeiro", salienta.
Muitos desses estudantes encontram-se hoje nas Universidades de Cambridge, Oxford, Johns Hopkins, Princeton ou Stanford, entre outras referências do mundo académico.

Página que ilustra a investigação em torno da curva loxodrómica que Pedro Nunes deu a conhecer em 1537 e a que regressaria em 1566 com mais estudos sobre o comportamento matemático dessa tipologia de curvas
Se Pedro Nunes lhe mudou a carreira, a Bolsa do ERC que o levou de volta ao período dos Descobrimentos catapultou-o para a liga internacional dos historiadores das ciências. Henrique Leitão não regateia elogios à metodologia de seleção do ERC: “Se o projeto for inovador e o investigador principal demonstrar que tem capacidade para o executar, não importa o cargo ou a hierarquia. É um sistema que está muito bem montado para encontrar talento onde quer que se encontre dentro de uma instituição”.
Sendo uma referência na atribuição de bolsas, a “metodologia ERC” depressa ganhou novo significado no mundo académico, conclui ainda o historiador: “Tornou-se uma das métricas (de qualidade científica) mais reconhecidas da Europa”. Decididamente, não consta que a capacidade de atarraxar lâmpadas faça parte dos critérios de análise.