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Trajetórias de Descoberta: como Sara Magalhães fez da Biologia Evolutiva uma carreira

Artigo, Biologia, Trajetórias de Descoberta1 julho, 2026

Sara Magalhães é professora catedrática na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigadora de referência na área da ecologia evolutiva. É coordenadora científica do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), onde também lidera o grupo de investigação em Evolução das Interações Parasita-Hospedeiro.

Sara Magalhães chegou à área da Biologia Evolutiva pela mão de Margarida Matos que até nem era sua professora na licenciatura que estava a tirar na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), mas haveria de influenciar a carreira que se seguiu. Ainda hoje, os olhos da atual coordenadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) revelam um carinho especial ao lembrar o momento da revelação da então estudante nos anos 90.

“A professora Margarida Matos fazia investigação laboratorial e achei tudo aquilo fascinante. E achei também fascinante o entusiasmo da própria Margarida Matos sobre o tema”, refere a coordenadora do CE3C. “Grande parte da minha investigação está relacionada com interações entre organismos. O estudo destas interações situa-se na interface entre ecologia e evolução, porque o comportamento dos indivíduos assim como a sua abundância são afetados por essas interações, o que cria pressões de seleção novas que alteram as trajetórias evolutivas das espécies”, acrescenta ainda a professora do Departamento de Biologia de Ciências ULisboa.

“Ao longo das gerações há diferentes alelos (variantes de um ou mais genes) que aumentam ou diminuem de frequência e esses alelos podem estar associados a uma característica. Vamos imaginar que essa característica é benéfica, ou seja, que leva a que os organismos tenham maior descendência. Se essa característica for hereditária, a descendência desses organismos vai também ter essa característica e, portanto, essa característica vai aumentar de frequência ao longo do tempo”, refere a investigadora sobre alterações de comportamentais que ocorrem pela via evolutiva.

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Sara Magalhães coordena atualmente o centro CE3C

Ainda na licenciatura, Sara Magalhães inicia uma temporada ao abrigo do programa Erasmus na Universidade de Toulouse, em França. Depois desse primeiro contacto no estrangeiro, tem conhecimento, através de uma amiga, do trabalho levado a cabo na Universidade de Amesterdão, nos Países Baixos, e é aí que conclui o doutoramento, em 2004, com a tese intitulada “To eat and not to be eaten: do plant-inhabiting arthropods tune their behaviour to predation risk?”.

“No doutoramento, estudei várias espécies. Estudei ácaros predadores, mas também tripes que são pragas de cultura, entre outras espécies. No fundo, estudava toda uma comunidade. Depois veio o pós-doutoramento na Universidade de Montpellier e foquei o estudo em (ácaros) Tetranychus urticae. Mais tarde, houve um período em que trabalhei com bactérias e com (o verme) C.elegans, e depois voltei a trabalhar com ácaros e, em paralelo, com moscas como a Drosophila melanogaster, e parasitas de moscas, entre outas coisas”, resume a investigadora.

Sara Magalhães

Sara Magalhães nos primeiros tempos da carreira de investigadora

Foi no ano de 2006 que Sara Magalhães decidiu deixar Montpellier para regressar a Portugal – mas não queria abandonar o estudo da evolução experimental… sendo que “em Portugal, não havia ninguém a trabalhar em experimentação laboratorial com ácaros”.

Perante o cenário, manteve-se o tema, mas com espécies diferentes. E assim passou dois anos de investigação no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC). “Era C. elegans ou bactérias; era o que havia”, recorda com bonomia a investigadora que é também a atual coordenadora do CE3C. “Nesses dois casos estudei a resistência tanto a nematicidas como a antibióticos”, acrescenta a investigadora.

A vinda para o IGC cumpriu um primeiro objetivo - mas Sara Magalhães teria ainda mais dois “regressos” a cumprir: em 2008, ingressa em Ciências ULisboa e inicia a carreira de investigadora no CE3C. E os ácaros logo tomaram, de novo, o papel principal do roteiro de investigação.

“Nessa altura, comecei a estabelecer um sistema com ácaros. Ao mesmo tempo colaborava, no estudo de moscas, com o Élio Sucena, que neste momento é o meu colega de gabinete. Estudámos a evolução da resistência aos vírus e às bactérias", refere a investigadora.

“A supressão de defesas da planta é benéfica para os ácaros da espécie Tetranychus evansi, mas também é benéfica para os ácaros da espécie competidora (a Tetranychus urticae)"

No estudo dos ácaros, pontificavam as espécies Tetranychus urticae, T. Ludeni e T. evansi que haveriam de ser alvo de estudo até à atualidade. Em 2011 surgiu um primeiro momento mediático, com a publicação de um artigo científico na prestigiada revista Science. Nesse estudo, a Sara Magalhães e os seus colaboradores revelam como evoluem as comunidades de ácaros consoante o número de fêmeas disponíveis para reprodução. O estudo demonstrou que populações de ácaros que evoluíram em ambientes subdividos produziam mais filhas que filhos, o que permitia a colonização de novos locais, enquanto que populações não divididas produziam igual número de filhos e filhas.

“Depois, comecei a estudar a competição entre espécies de ácaros. Esse é que foi o tema da bolsa que ganhei no Conselho Europeu de Investigação (ERC) em 2017”, sublinha a coordenadora do CE3C.

Com o título de “COMPCON - Competição e construção do nicho”, o projeto apoiado pelo ERC voltou a ter por personagens principais membros das espécies Tetranychus urticae e Tetranychus evansi, mas contemplou ainda um tomateiro como terceiro elemento, perfazendo um triângulo de interações. Tetranychus urticae e Tetranychus evansi são conhecidas por se alimentarem das folhas dos tomates, mas a primeira espécie de ácaros leva os tomateiros a aumentarem as suas defesas, enquanto a segunda induz uma redução dessas defesas. 

“A supressão de defesas da planta é benéfica para os ácaros da espécie Tetranychus evansi, mas também é benéfica para os ácaros da espécie competidora (a Tetranychus urticae). Estudámos a evolução deste triângulo e a forma como afetava as interações entre espécies. E descobrimos que, quando as duas espécies evoluem em conjunto, Tetranychus evansi suprime menos as defesas de tomate”, descreve Sara Magalhães.

Tetranychus urticae

Imagem da espécie de ácaros Tetranychus urticae

Das interações entre espécies às interações com outras áreas do saber foi apenas um pequeno passo. Já com o projeto apoiado pelo ERC concluído, Sara Magalhães ruma ao Instituto de Estudos Avançados de Berlim, na Alemanha, para integrar um grupo de reflexão com especialistas de várias áreas do saber.

Durante a estada na capital alemã, escreveu um artigo em parceria com uma investigadora da área da Filosofia e uma investigadora da área da Matemática. Sara Magalhães admite que o estudo ali iniciado deixou em aberto alguns capítulos que terão ainda de ser concluídos, mas não deu o tempo por perdido.

“Tentei desenvolver também um bocadinho o meu projeto que consistia em tentar perceber o que diferentes interações no mundo animal (competição, predação, interação entre machos e fêmeas) têm em comum, em termos de causas e consequências, para podermos estudar melhor cada uma dessas interações”, descreve. “As pessoas que vão para o Instituto de Estudos Avançados de Berlim têm interesse no diálogo. Se for tipicamente aquela pessoa que só faz a sua ciência, nunca vai candidatar-se a este instituto. Portanto, quando ali estive encontrei pessoas especiais com vontade de diálogo. Nesse sentido foi superinteressante”, acrescenta.

“O meu objetivo passa pelo reforço da coesão interna do CE3C. Somos um centro espetacular; as coordenadoras que me antecederam fizeram um trabalho maravilhoso e não tenho problemas de maior. Quero continuar a obra delas e reforçar a visibilidade internacional"

O movimento de regresso já faz parte do currículo de Sara Magalhães – e já não surpreende que, em 2025, tenha voltado ao CE3C. Só que, desta vez, a investigadora passou também a encarnar o papel de coordenadora do CE3C. Sara Magalhães não esconde que sempre se sentiu mais inclinada para a investigação científica e laboratorial do que para a aplicação do conhecimento científico no desenvolvimento de produtos ou serviços, mas também sabe que o desafio é valorizar o que cada investigador tem de melhor.

“O meu objetivo passa pelo reforço da coesão interna do CE3C. Somos um centro espetacular; as coordenadoras que me antecederam fizeram um trabalho maravilhoso e não tenho problemas de maior. Quero continuar a obra delas e reforçar a visibilidade internacional. Temos várias pessoas conhecidas internacionalmente, mas o Centro em si ainda precisa de ganhar ´nome. Também gostava que o CE3C fosse mais requerido quando se trata de questões e políticas públicas, para podermos ter uma intervenção maior nas nossas áreas de conhecimento”, refere. A evolução é o caminho.


Trajetórias de Descoberta é uma nova rúbrica que dá a conhecer os investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa cujo trabalho foi distinguido com bolsas do Conselho Europeu para a Investigação (ERC). Para além dos projetos e dos resultados científicos, propõe-se olhar para os percursos, as ideias e as formas de pensar que moldam a investigação de excelência. Ao longo dos próximos meses, exploraremos não apenas o que investigam, mas como chegaram até aí — as escolhas, os desafios e a visão que orienta o seu trabalho.

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