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Swell: Estudo revela como ondas de Oceano Antártico chegam às Américas

Hugo Séneca
Artigo, Oceano3 junho, 2026

As ondas do mar são geradas pelo vento, mas nem todas as ondas que chegam a uma praia têm a mesma origem. E nalguns casos, entre o início e o fim vão 10 mil quilómetros, como sucede com o swell que tem origem na Costa Sul da Austrália e termina na Costa Oeste das Américas. Com base numa nova abordagem de estudo, investigadores do Instituto de Hidráulica Ambiental da Universidade da Cantábria (IHCantabria) e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa publicaram um artigo na revista Nature Communications que revela um método que distingue a origem de grupos de ondas que desembocam na Costa Oeste das Américas. O método, que permite associar a geração de ondas a fenómenos meteorológicos a milhares de quilómetros de distância, pode ser aplicado a vários pontos do globo, referem os investigadores.

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“Já se sabia que as ondas de swell podem propagar-se livremente, mas com este estudo passámos a saber como é que certas ondas chegam à Costa Oeste da América Central. Também percebemos que estes eventos com impactos destrutivos estão a aumentar de frequência e intensidade”, explica Gil Lemos, investigador do Instituto Dom Luiz (IDL) de Ciências ULisboa. “Até agora não tinha sido ainda possível estabelecer a relação entre a origem e o destino destas ondas de forma tão consistente e robusta”, acrescenta.

Swell é um nome popularizado entre surfistas e outros fãs de atividades marítimas para ondas que podem percorrer milhares de quilómetros tendo como origem uma tempestade ou outro fenómeno meteorológico que implique a ação do vento.

O conceito pressupõe, logo à partida, diferentes cenários para quem tem de o estudar: Se em casos extremados, as ondas percorrem 10 mil quilómetros em 10 dias da Austrália até à Costa Oeste das Américas, então torna-se possível concluir que há ondas que obedecem a lógicas e forças diferentes das condições meteorológicas registadas em determinado local. O que dificulta de sobremaneira a projeção da ocorrência de ondas que têm grande impacto destrutivo, apesar de terem sido geradas por tempestades longínquas.

“Em cada local, é possível apurar partições do espectro de ondas que ajudam a descrever as gamas de frequência e direções de conjuntos específicos de ondas. Com este método, conseguimos isolar os componentes de ondas, com base na direção de propagação ou na energia que transportam”

“É por isso que quem estuda nesta área distingue ondas ‘jovens’ de ondas ‘velhas’”, sublinha Gil Lemos.

Com dez dias de existência e 10 mil quilómetros de viagem, uma onda disputa a lista da longevidade, mas já não é afetada pelos ventos e tempestades registados durante o percurso até ao desenlace em terra-firme. As “ondas jovens” estão em plena fase de geração, e só aí são afetadas pela força do vento que as desencadeia. Numa praia, podem ocorrer as duas tipologias de ondas. E esse fator pode dificultar o trabalho de quem tenta estudar a origem de cada swell, pois as “ondas velhas” podem ter origens distantes e diversas.

Até agora, os especialistas e as autoridades faziam projeções com base em dados agregados, que dificultam a localização da origem de componentes (grupos de ondas) ou sequer a identificação dos parâmetros que permitem descrevem as ondas com ocorrências ligadas ao local de origem. Com o estudo dado a conhecer na Nature Communications, os investigadores desenvolveram um método de partições espectrais que poderá ser usado para fazer projeções sobre o impacto de diferentes grupos de swells que tiveram origem a grandes distâncias.

Foto de swell

Foto de ondas geradas por um swell

“Em cada local, é possível apurar partições do espectro de ondas que, como o nome indica, ajudam a descrever as gamas de frequência e direções de conjuntos específicos de ondas. Com este método, conseguimos isolar os componentes de ondas, com base na direção de propagação ou na energia que transportam”, responde Gil Lemos.

Os investigadores acreditam que a nova metodologia garante maior detalhe e reduz conclusões erróneas. “A análise de parâmetros agregados pode indicar, genericamente, que as ondas têm dois metros de altura num determinado local, quando, na verdade, sabemos que nem todas têm dois metros de altura ou sequer têm a mesma origem ou a mesma direção. Os parâmetros agregados não permitem distinguir ondas de diferentes origens e conteúdos energéticos. Tentámos ir além da monitorização convencional com parâmetros agregados, ao mesmo tempo que tentámos revelar características que possam ter ficado escondidas em diferentes componentes de ondas (porque não são evidenciadas quando se faz a agregação dos parâmetros)”, refere Gil Lemos.

Mapa que ilustra o swell proveniente do Oceano Antártico

Mapa que ilustra um percurso possível de propagação das ondas de swell desde o "cinturão de tempestades" do Hemisfério Sul até à Costa da Califórnia

O estudo da equipa luso-espanhola recorreu a um esforço de modelação com 45 anos de dados relativos ao swell que tem origem no Oceano Antártico e desagua na Costa Oeste das Américas. Os investigadores tiveram em conta o denominado “cinturão das tempestades”, que diz respeito a uma faixa composta por parcelas de Atlântico, Índico e Pacífico aproximadamente entre os 50º e 70º de latitude no Hemisfério Sul, onde existe uma contínua geração de ondas.

“Concluímos que estes impactos destrutivos estão a tornar-se cada vez mais severos e frequentes. Tal como as tempestades que ocorrem no Oceano Antártico”

A estes dados juntaram-se relatos noticiosos de ondas que produziram estragos ou até resultaram em perda de vidas na Costa Oeste das Américas. Da combinação de todos estes dados e lógicas de tratamento da informação, surgiu a nova abordagem de estudo do swell.

“Estudámos a evolução de vários componentes de ondas do Oceano Pacífico ao longo de 45 anos e verificámos que é possível isolar componentes específicas associadas a tempestades no Oceano Antártico que geram swell”, refere Gil Lemos. “Concluímos que estes impactos destrutivos estão a tornar-se cada vez mais severos e frequentes. Tal como as tempestades que ocorrem no Oceano Antártico”, conclui o investigador.

Comunicados

Prémios Científicos ULisboa/CGD distinguem oito investigadores de Ciências ULisboa.