banner_rodrigo-braz-teixeira-29

Recém-doutorado em Física e realizador de cinema: o percurso improvável de Rodrigo Braz Teixeira

Lídia Belourico
Artigo, Física6 julho, 2026

Acabou de defender o doutoramento em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), mas há muito que divide a vida entre a investigação científica e a realização cinematográfica. Autodidata, Rodrigo Braz Teixeira começou a fazer filmes ainda no 5.º ano e foi construindo, ao longo do tempo, uma linguagem cinematográfica própria, com obras já apresentadas em festivais, como recentemente aconteceu no IndieLisboa 2026.

Durante todo o percurso que foi trilhando, ciência e cinema caminharam em paralelo. Agora, terminado o doutoramento, quer aproximar definitivamente os dois universos. Acredita que o cinema pode ser uma ferramenta poderosa para comunicar ciência e que a ciência tem histórias que merecem ser contadas.

Rodrigo Braz Teixeira

Rodrigo Braz Teixeira, doutorado em Física e realizador de cinema

O cinema entrou na sua vida antes da ciência. Como começou esta aventura?
Sem dúvida. O cinema nasceu primeiro. Comecei a filmar ainda no 5.º ano. Tinha um amigo que queria muito ser ator e, como eu ainda não sabia o que queria fazer, comecei a filmá-lo. No início era uma brincadeira. Fazíamos muitas experiências e novos filmes. A ciência apareceu mais tarde, já no secundário, quando tive de escolher uma área de estudos.

Porquê Física?
Foi uma decisão difícil. Gostava muito de ler e pensei seguir Humanidades. Também pensei em artes. Depois senti que, para ser cientista, precisava de estudar. Já no cinema parecia-me uma área onde podia aprender fazendo. O que mais me atraía na Física eram as perguntas. Pareciam-me as questões mais fundamentais sobre o funcionamento do mundo. Ainda hoje sinto isso. Não diria que encontrei muitas respostas, mas tenho certamente melhores perguntas.

filmes-rodrigo-braz-teixeira-29

Os cartazes de Miraflores, uma curta-metragem, e de Segundo Amor, a primeira longa-metragem de Rodrigo Braz Teixeira, selecionada para a Competição Nacional no IndieLisboa 2026

Nunca frequentou uma escola de cinema. Como construiu o percurso como realizador?
Aprendi a fazer filmes fazendo filmes. Fomos evoluindo através da prática, dos erros e dos filmes que víamos. Também crescemos numa altura em que era relativamente fácil experimentar, filmar e editar em formato digital, o que ajudou muito. Hoje continuo a trabalhar bastante por intuição. Claro que fui aprendendo técnica ao longo dos anos, mas essa aprendizagem aconteceu sempre a partir da experiência. Acho que isso acabou por moldar a minha linguagem cinematográfica. Uma das primeiras observações que fizeram aos meus filmes foi precisamente que não pareciam obras saídas de uma escola de cinema. Acabei por encarar isso como um elogio.

Rodrigo Braz Teixeira e o elenco de Segundo Amor

Rodrigo Braz Teixeira e o elenco de Segundo Amor

Acabou de defender a tese de doutoramento. O que investigou nestes últimos anos?
A minha investigação centrou-se nos chamados líquidos complexos, procurando compreender melhor o comportamento dos líquidos existentes no interior das células. Utilizámos modelos inspirados nas redes neuronais para estudar a forma como estes sistemas processam informação. É, essencialmente, investigação, mas que poderá contribuir para compreender melhor fenómenos associados a doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. Mais do que encontrar respostas imediatas, trata-se de perceber melhor como funcionam estes mecanismos e criar conhecimento que possa ser útil no futuro.
Durante muito tempo, para si, a ciência e o cinema caminharam em paralelo. Hoje sente que chegou o momento de aproximar esses dois mundos?
Sim. Durante muitos anos foram duas áreas completamente separadas na minha vida, mas agora sinto necessidade de as juntar. O próximo filme que quero fazer nasce precisamente dessa vontade. Gostava de contar uma história passada no meio científico, mostrando os investigadores como eles realmente são. Tenho a sensação de que esse universo continua pouco representado no cinema e, quando aparece, nem sempre é retratado de forma fiel. A ciência está cheia de boas histórias e de pessoas muito interessantes. Acho que ainda há muito por explorar.

"Durante muitos anos foram duas áreas completamente separadas na minha vida, mas agora sinto necessidade de as juntar. "

Acredita que a ciência tem dificuldade em comunicar com a sociedade?
Acho que sim. Muitas vezes é mais fácil comunicar a nossa investigação a quem trabalha na mesma área do que a quem nunca teve contacto com estes temas. Isso faz com que o conhecimento circule sobretudo dentro da comunidade científica. Mas o conhecimento só ganha verdadeiro valor quando consegue chegar às pessoas. É um exercício difícil, porque comunicar ciência exige simplificar sem perder o rigor. Nem sempre é fácil encontrar esse equilíbrio, mas é um desafio essencial.
O cinema pode ajudar a ultrapassar esse desafio?
Acredito que sim. O cinema consegue comunicar ideias complexas através das histórias e das emoções. É uma linguagem que aproxima as pessoas de temas que, à partida, poderiam parecer distantes. Ao mesmo tempo, também acho que a arte pode beneficiar da ciência. Produz-se hoje muito conhecimento extraordinário que pode inspirar novas narrativas e novas formas de olhar para o mundo. A ciência e o cinema têm muito a aprender um com o outro.

"O cinema consegue comunicar ideias complexas através das histórias e das emoções. É uma linguagem que aproxima as pessoas de temas que, à partida, poderiam parecer distantes. Ao mesmo tempo, também acho que a arte pode beneficiar da ciência."

Na sua perspectiva, falta esse diálogo entre quem faz ciência e quem a comunica?
Penso que sim. Os cientistas são treinados para aprofundar conhecimento e para responder a questões muito específicas. Nem sempre têm oportunidade de aprender a comunicar esse conhecimento a públicos diferentes. Por outro lado, quem comunica nem sempre domina os temas científicos e isso pode levar a simplificações excessivas ou até a interpretações incorretas. Acho que é precisamente nessa ponte entre os dois mundos que gostaria de trabalhar.
O próximo filme será, então, o ponto de encontro entre a Física e o Cinema?
Espero que sim. Durante muitos anos senti que tinha duas vidas paralelas: uma ligada à investigação científica e outra ao cinema. Agora gostava que deixassem de ser caminhos separados. Terminei o doutoramento e entro numa nova fase. Quero continuar ligado à ciência, mas também gostaria de conseguir realizar um filme com financiamento público e uma equipa maior. Sobretudo, quero fazer um cinema que reflita aquilo que fui aprendendo enquanto investigador. Se conseguir aproximar estes dois universos, sinto que estarei finalmente a juntar as duas paixões que me acompanharam ao longo da vida.

Comunicados

Ciências ULisboa apresenta relatório com recomendações para a futura Agência para a Investigação e Inovação.