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Protocolo de conservação de espécies endémicas arranca com 36 escalos-do-Sado

Biodiversidade13 abril, 2026

Ilustres desconhecidos até ao ano de 2024, os escalos-do-Sado passaram, recentemente, para o topo das notícias com o início de um protocolo assinado entre a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e o Zoomarine  que tem por objetivo fomentar a conservação de espécies endémicas portuguesas que vivem em habitats de água de doce. O novo protocolo começou a produzir efeito com a conservação de 36 destes pequenos peixes nas infraestruturas do Zoomarine. O grupo de peixes, que pertence a uma espécie que apenas foi revelada pelos estudos científicos há dois anos, vai agora ser abrangido por um programa de estudo e reprodução que tem em vista a posterior recuperação de populações de escalos-do-Sado em habitat natural.

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Os escalos-do-Sado medem, na maioria dos casos, cerca de 10 centímetros

“Morfologicamente, e apenas olhando para os indivíduos na natureza, é difícil distinguir o escalo-do-Sado (Squalius caetobrigus) de outras espécies de escalos presentes noutros rios da Península Ibérica, como o escalo do Sul (Squalius pyrenaicus) ou o escalo-do-Mira (Squalius torgalensis). No entanto, uma análise mais detalhada e a aplicação de técnicas como a tomografia computorizada permitem perceber que há características morfológicas que distinguem o escalo-do-Sado das outras espécies, por exemplo ao nível do número de escamas da linha lateral ou características dos ossos do crânio e da mandíbula”, explica Sofia Mendes, colaboradora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) e investigadora do Instituto Federal de Ciências Aquáticas e Tecnologia da Suíça (EAWAG), que assume funções de coordenação do protocolo entre Ciências ULisboa e Zoomarine.

A espécie que motivou o protocolo entre Ciências ULisboa e Zoomarine habita nos rios e ribeiras da bacia hidrográfica do Sado. Os 36 espécimes que agora habitam no Zoomarine foram recolhidos na Ribeira de Grândola. As populações são diminutas e estão vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas.

“Há várias questões em aberto, mas, tal como outras espécies do mesmo género, será possivelmente omnívora, e reproduz-se anualmente entre março e junho”

A coloração dos escalos-do-Sado varia entre cinzento e prateado. No habitat natural têm, na maioria dos casos, cerca de 10 centímetros de dimensão, sendo raros os espécimes que superam os 20 centímetros de dimensão. “Há várias questões em aberto, mas, tal como outras espécies do mesmo género, será possivelmente omnívora, e reproduz-se anualmente entre março e junho”, acrescenta Sofia Mendes.

O protocolo agora assinado pretende aliar a investigação na área da biodiversidade que tem vindo a ser levada a cabo por Ciências ULisboa com as infraestruturas e as equipas especializadas na conservação de espécies aquáticas do Zoomarine. A participação de Ciências ULisboa é feita através do CE3C, que é responsável pela coordenação científica deste protocolo e assegura a identificação e a captura de reprodutores, além de assumir a missão de monitorizar habitats e preparar o repovoamento em habitas naturais.

João Neves, diretor de Ciência e Conservação do Zoomarine, recorda que este protocolo pretende dar seguimento às várias iniciativas que têm sido levadas a cabo com o propósito de preservar a biodiversidade fluvial. Além de ter sido responsável pelo primeiro Centro de Reabilitação de Espécies Marinhas em Portugal, que foi lançado em parceria com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), o Zoomarine tem no histórico a participação em iniciativas de resposta a emergências relacionadas com mamíferos marinhos e programas de reprodução de espécies ameaçadas, como a Rola-de-Socorro ou o escalo-do-Arade, entre outras.

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Os escalos-do-Sado vão beneficiar de um projeto de recuperação da população em habitat natural

“Do ponto de vista institucional, reforça o posicionamento do Zoomarine como infraestrutura científica e técnica ao serviço da biodiversidade portuguesa. Estamos a falar de uma entidade com capacidade instalada, equipas especializadas e sistemas de suporte de vida complexos, apta a articular investigação académica, reprodução assistida, monitorização genética e educação ambiental num modelo integrado”, refere João Neves.

O responsável do Zoomarine recorda ainda experiência acumulada na reabilitação de espécies em consonância com “os mais altos padrões de bem-estar”. O acolhimento dos 36 escalos-do-Sado terá por objetivo a “conservação aplicada” e “não uma iniciativa expositiva”.

“Naturalmente, cada espécie apresenta requisitos específicos. No caso do escalo-do-Sado, foram realizados ajustes técnicos ao nível de parâmetros ambientais, controlo hídrico e acompanhamento científico, sempre em articulação com Ciências ULisboa e sob enquadramento legal do ICNF”, sublinha João Neves, sem deixar de destacar o objetivo prioritário da conservação dos 36 peixes: "criar bases sólidas para reforço populacional nos ecossistemas naturais, contribuindo para a recuperação de uma espécie endémica particularmente vulnerável às alterações climáticas e à pressão sobre os recursos hídricos”. A biodiversidade bem merece o esforço.

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