É possível que um dia surja um novo modelo científico que ajuda a perceber como é que alguém estilhaça o telemóvel depois de ganhar uma medalha de ouro, mas para já, Lourenço Mestre Homem apenas pode socorrer-se de uma famosa teoria para explicar o sucedido no sábado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), quando soube que tinha ganho uma das eliminatórias da Fase Regional das Olimpíadas de Física para alunos do Ensino Secundário: “Nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma”, diz o jovem do Colégio Marista de Carcavelos. Por sua vez, Diogo Fonseca e Mariana Rodrigues, do Agrupamento de Escola de Coruche, não tiveram imprevistos ao garantirem o lugar cimeiro na competição do Ensino Básico. Mais de 230 alunos de Lisboa, Ribatejo e Alentejo passaram por Ciências ULisboa para participarem nas eliminatórias das Olimpíadas organizadas pela Sociedade Portuguesa de Física (SPF). Além dos vencedores, também os estudantes distinguidos com medalhas de prata e bronze ou menções honrosas garantiram presenças na Fase Nacional agendada para 16 de maio em Coimbra.

Olimpíadas de Física trouxeram animação, engenho e surpresa a Ciências ULisboa

Conceição Freitas, Lourenço Mestre Homem, e Jorge Sampaio durante a entrega da medalha de ouro para o Escalão do Ensino Secundário
“Tinha a convicção de que a prova teórica tinha corrido bastante bem. Na prova prática, houve coisas que no princípio pareciam estranhas, mas consegui fazer. Quando começaram a chamar os nomes (dos alunos mais bem classificados) e chegou ao segundo lugar julguei mesmo que já não tinha chance de estar entre os melhores …”, descreve Lourenço Mestre Homem sobre o anúncio do vencedor da competição das Olimpíadas de Física para alunos do Ensino Secundário.
Foi precisamente durante a indicação do vencedor que Lourenço Mestre Homem deixou o telemóvel resvalar para as dobradiças do banco que ocupava no Grande Auditório e criou as condições para o fatídico fim do respetivo ecrã, mas o percalço não tirou brilho aos olhos de quem lhe dá aulas no dia-a-dia. “Tivemos de fazer uma prova de escola para selecionar, entre 28 alunos, quem vinha aqui a esta Fase Regional das Olimpíadas de Física. Fizemos esta prova precisamente pelo facto de haver muitos alunos a quererem participar!”, descreve Fernanda Barbosa, professora de Física e Química do Colégio Marista de Carcavelos.

A professora Carla Rosa, os alunos Diogo Fonseca e Mariana Rodrigues, e a professora Guilhermina Nogueira depois da entrega da medalha de ouro para o Ensino Básico
Na competição dedicada ao Ensino Básico, que envolveu escolas representadas por equipas com um máximo de três alunos, já havia quem conhecesse o gosto especial de ganhar uma competição – e foi isso mesmo que Mariana Rodrigues tratou de lembrar: “Esta medalha não seria possível sem o Diogo Fonseca. Foi ele que teve o papel maior na prova. E foi graças a ele – e também ao trabalho do nosso professor - que chegámos aqui”.
Diogo Fonseca, que também tem no currículo um primeiro lugar numa final nacional das Olimpíadas de Astronomia, não embarca em excessos de confiança e admite que as provas deste sábado foram um “bocadinho difíceis”. Sobre o futuro, garante apenas que quer “seguir ciências” e deixa a escolha da disciplina para mais tarde.

Nuno Matela e Jorge Sampaio pouco antes de darem início a uma sessão de divulgação científica nas Olimpíadas de Física
Na variante do Ensino Básico, a Fase Regional das Olimpíadas distinguiu com a medalha de prata a equipa constituída por Inês Peixoto, Lourenço Mestre e Manuel Neves da Escola Delfim Santos, de Lisboa, e atribuiu a medalha de bronze à equipa constituída por Guilherme Leandro, Alexandre Vinagre e Guilherme Magalhães do Agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro, das Caldas da Rainha.
Na competição entre alunos do Ensino Secundário, a medalha de prata foi entregue a Gustavo Pereira Passos dos Salesianos do Estoril , enquanto a medalha de bronze foi entregue a Francisco Martins Peixe dos Salesianos de Évora. Além dos medalhados, competição do Secundário atribuiu menções honrosas a Fausto Fonte, da Escola Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa; Duarte Figueira, da Escola Secundária Jorge Peixinho, no Montijo; Eduardo Cadete, do Colégio Moderno, em Lisboa; Tomás Lopes, da Escola Emídio Navarro, em Almada; Guilherme Martins, da Escola D. Filipa de Lencastre, em Lisboa; Daniel Marques, do Colégio Valsassina, em Lisboa; e Ana Grilo, da Escola Secundária de Alcochete.
“Embora não tenham a possibilidade de ver toda a Faculdade, estes alunos tiveram a possibilidade de usar os mesmos laboratórios que nós usamos para dar as aulas em Ciências ULisboa. Estamos a tentar despertar o interesse para a ciência”
Todos os distinguidos ganharam o direito a disputar em pé de igualdade a Fase Nacional com as equipas apuradas por outras regiões do País. Quem se sagrar campeão nacional reserva lugares para as Olimpíadas Internacionais 2027 e para as Olimpíadas Ibero-americanas 2027.
Num evento que contou com a presença de mais de 80 professores de várias escolas do ensino básico e secundário e muitos outros com carreira feita na universidade, não faltava experiência na hora de identificar vocações. “Ciências ULisboa tem muito gosto de que vocês (alunos e professores) estejam aqui e de que esta fase das Olimpíadas seja feita aqui em colaboração com a SPF. É um grande trabalho que beneficia todos e permite ter uma ideia do Campus de Ciências Ulisboa e da investigação que se faz aqui na área da Física. Se quiserem vir estudar Física em Ciências ULisboa, serão muito bem-vindos!”, sublinhou Conceição Freitas, diretora de Ciências ULisboa, antes da entrega de medalhas e menções honrosas pelos alunos com melhores pontuações nos dois escalões que faziam parte desta competição.

Conceição Freitas deu as boas-vindas aos jovens participantes das Olimpíadas
As provas deste sábado tiveram lugar durante a manhã, em paralelo com palestras destinadas aos professores que acompanharam os alunos em competição. Durante as duas horas de prova, os alunos tiveram de responder a uma componente teórica e a uma componente prática. Os temas escolhidos faziam parte do currículo letivo, mas assumiram variantes que puxavam pelo fator surpresa. As provas do Secundário implicavam medidas de elasticidade na prova prática, e as do Ensino Básico já remetiam para a determinação da viscosidade num detergente da loiça.

O átrio do Grande Auditório de Ciências ULisboa recebeu centenas de participantes nas Olimpíadas da Física.
À tarde, seguiu-se o visionamento de vídeos dedicados à divulgação da Física e a cerimónia de anúncio dos vencedores. Todos os momentos do evento contaram com o empenho da comunidade de Ciências ULisboa.
“Os kits experimentais que enviámos para vários pontos do País foram feitos aqui na Faculdade. Estamos a falar de mais de 300 kits experimentais que não poderiam ter sido feitos sem o esforço de professores e técnicos de Ciências ULisboa”, responde Jorge Sampaio, professor do Departamento de Física de Ciências ULisboa e Presidente da Delegação Sul e Ilhas da Sociedade Portuguesa de Física, que coordenou as eliminatórias regionais das Olimpíadas de Física em Ciências ULisboa.
“Este evento permite estabelecer contacto com alguns dos melhores alunos de Física de quase toda a Região Sul”
Além das instalações, o contributo de Ciências ULisboa contemplou alunos e professores para correções e vigilância das provas. “Embora não tenham a possibilidade de ver toda a Faculdade, estes alunos tiveram a possibilidade de usar os mesmos laboratórios que nós usamos para dar as aulas em Ciências ULisboa. Estamos a tentar despertar o interesse para a ciência”, acrescenta o professor de Ciências ULisboa.
Como em todas as competições, os melhores acabam por se distinguir – e esse aspeto também trouxe um valor acrescido à organização da Fase Regional das Olimpíadas em Ciências ULisboa. “Este evento permite estabelecer contacto com alguns dos melhores alunos de Física de quase toda a Região Sul”, adianta Nuno Matela, professor do Departamento de Física de Ciências ULisboa e membro da organização da Final Regional das Olimpíadas de Física.
Hoje é um dos rostos conhecidos do Departamento de Física, mas nem sempre Nuno Matela teve presente no imaginário uma carreira nesta área científica. “Na minha altura, não fazia a mínima ideia do que é que gostava e, se calhar, agora era engenheiro mecânico ou engenheiro civil, se não tivesse ido um dia às Olimpíadas da Física”, sublinha. Como qualquer objeto que cumpre as leis da física, até as vocações reagem a um ligeiro empurrão.