Ao longo da História, vários foram os momentos em que diversas áreas do Saber extravasaram a relevância académica e se transformaram em pilares da civilização humana, revolucionando a forma como vivemos, pensamos e idealizamos o futuro. No segundo quartel do século XXI, a força motriz das transformações que ambicionamos radica nas Ciências da Terra e nas suas fronteiras críticas. Não há exagero na afirmação e, muito menos, retórica infundada. Trata-se da simples constatação de que, num mundo em acelerada mudança, a importância de compreender a dinâmica dos sistemas terrestres e a natureza dos recursos que a mesma providencia excede a “simples” curiosidade científica para se tornar uma condição de sobrevivência. Com efeito, vivemos tempos em que os fenómenos meteorológicos extremos já não surpreendem, em que as perigosidades físicas naturais se traduzem por elevados riscos, em que a água potável se afigura cada vez mais um recurso disputado, em que os avanços tecnológicos exigem mais energia e matérias-primas minerais do que alguma vez imaginámos produzir e extrair, e em que diferentes ocupações do território são planeadas e implementadas ao sabor de programas de investimento conjunturais sem atender às características naturais do meio; apenas referindo as de maior impacto socioeconómico. E, no entanto, continuamos a tratar as Ciências da Terra como um parente distante dos domínios “nobres” do Conhecimento, esquecendo que são elas que sustentam praticamente todas as decisões estratégicas do nosso tempo.

O risco de desvalorizar as Ciências da Terra

As Ciências da Terra são essenciais para lidar com as transformações em curso no planeta
Há muito que as alterações climáticas deixaram de ser um debate ideológico. São uma realidade física, mensurável, que traduz sobretudo modificações dos fluxos de energia estabelecidos entre vários reservatórios naturais e se manifesta, entre outros exemplos, por ondas de calor, tempestades violentas, secas prolongadas e subida do nível do mar. E é por via das Ciências da Terra que conseguimos identificar e monitorizar estes “sinais”, interpretar tendências e projetar cenários futuros. A política climática (de que tanto se fala, mas pouco se concretiza), a gestão de riscos e o ordenamento sustentável do território dependem da recolha metódica de dados e do aperfeiçoamento sistemático de modelos que só a Meteorologia pode providenciar. Ignorar isto é escolher a cegueira. Ousar pensar que estes problemas não são tão graves em Portugal como em outras regiões do Mundo é desconhecer as vulnerabilidades do território nacional e recusar pensar de forma proativa e preventiva em soluções que aumentem a resiliência e a capacidade de adaptação às inevitáveis mudanças dos padrões meteorológicos a que estávamos habituados.
"A verdade é simples de equacionar: cada euro investido em conhecimento gerado pelas Ciências da Terra poupa, no mínimo, largas dezenas em reconstrução e, mais importante, salvará seguramente muitas vidas"
Portugal conhece bem o preço da ignorância, não raras vezes atrevida, sobre a dinâmica dos sistemas terrestres e as perigosidades que se lhes associam. Sismos, erupções vulcânicas, cheias, erosão costeira, movimentos de massa, turbulências atmosféricas que potenciam incêndios de larga escala — todos estes fenómenos representam processos naturais investigados sob várias perspectivas em diferentes disciplinas das Ciências da Terra. E todos exigem monitorização, mapeamento e sistemas de alerta. A verdade é simples de equacionar: cada euro investido em conhecimento gerado pelas Ciências da Terra poupa, no mínimo, largas dezenas em reconstrução e, mais importante, salvará seguramente muitas vidas.
O acesso a recursos hídricos de qualidade marcará o segundo quartel do século XXI. A pressão sobre aquíferos, a contaminação da água potável e a variabilidade climática tornam a Hidrogeologia uma disciplina estratégica. Sem ela, não há agricultura sustentável, não há cidades resilientes, não há paz social. Num país como Portugal, onde a irregularidade dos padrões meteorológicos é cada vez mais evidente, compreender adequadamente as vicissitudes do ciclo hidrológico como resposta às alterações climáticas deveria constituir um imperativo nacional. Só assim seria possível encontrar as melhores soluções de gestão, uso e proteção de todos recursos hídricos.
As últimas décadas testemunharam assinalável desenvolvimento tecnológico, marcando de forma disruptiva as várias transições em curso, de entre as quais salientamos as transições energética e digital.
"Em muitas regiões vive-se a era dos mega/giga-projetos: túneis, barragens, linhas ferroviárias de alta velocidade, aeroportos, giga-centrais, megacentros de dados, urbes densas e infraestruturas complexas. Tudo isto exige conhecimento profundo"
Todos estes avanços envolvem inovações que alimentam notícias auspiciosas sobre o futuro, mas, exceptuando as circunstâncias geopolíticas que têm suscitado alterações substanciais da política externa e comercial dos EUA e China, pouco se fala, com a devida propriedade, do que as torna possíveis: matérias-primas críticas. Na verdade, a (r)evolução tecnológica em curso procura suportar modelos de crescimento socioeconómico com menor intensidade carbónica e maior ênfase nos paradigmas que consubstanciam o conjunto das transformações associadas ao movimento conhecido como “Indústria 4.0” e sua transição para “Indústria 5.0”. Esta (r)evolução amplia a necessidade de aceder a matéria-prima mineral, para além de energia, gerando dependência assinalável em elevado número de metais e metaloides, muitos deles considerados críticos devido à sua acrescida importância económica e risco de disrupção de abastecimento. O expectável aumento de procura por estes materiais nas próximas décadas coloca pressão acrescida nas várias componentes dos ciclos de mineração, as quais devem ainda responder aos múltiplos desafios colocados por padrões exigentes de eco-eficiência e de maior responsabilidade social e ambiental. Adicionalmente, tal aumento de procura exige que se avalie com detalhe as vulnerabilidades das cadeias de abastecimento das diferentes matérias-primas minerais e se identifique formas alternativas de suprir as necessidades de mercado. Portanto, o sucesso das transições tecnológicas em curso depende, antes de mais, das soluções providenciadas pelas Ciências da Terra para muitas das questões em aberto. Sem conhecimento do subsolo, sem prospeção mineral responsável, sem novas técnicas de extração e processamento será impossível providenciar os metais e metaloides que precisaremos a médio-longo prazo (em quantidade, qualidade e custo suportável), porquanto muitos deles ainda apresentam taxas de reciclagem bastante baixas e os caminhos bem-sucedidos e economicamente viáveis para sua substituição (parcial ou completa) afiguram-se imprevisíveis. E é aqui que as Ciências da Terra, em conjunto com outros ramos do conhecimento científico e tecnológico, deixam a esfera da academia ou de alguns sectores industriais para se tornarem instrumentos de soberania e de autonomia estratégica.

António Mateus recorda como o conhecimento das Ciências da Terra é útil da extração de matérias-primas à evolução das tecnologias e da construção civil
Em muitas regiões vive-se a era dos mega/giga-projetos: túneis, barragens, linhas ferroviárias de alta velocidade, aeroportos, giga-centrais, megacentros de dados, urbes densas e infraestruturas complexas. Tudo isto exige conhecimento profundo sobre o comportamento mecânico dos solos e seu substrato rochoso, para além de competências acrescidas na produção e utilização de materiais de construção, assim como proficiência na gestão e ordenamento do território e na administração dos seus recursos naturais. Neste âmbito, as Ciências da Terra voltam a ter papel decisivo, complementando projetos e ações a cargo de várias disciplinas da engenharia. Simplificando, embora correndo o risco de ser mal interpretado, podemos dizer que a Geologia de Engenharia (nas suas múltiplas valências) e a Geotecnia são tão importantes como o betão e o aço; depreciar os seus contributos denota, na melhor das hipóteses, ingenuidade.
Almejamos construir futuros mais sustentáveis, mas, para o efeito, precisamos de melhorar a nossa compreensão sobre os factores que regulam os ciclos biogeoquímicos e os serviços prestados pelos ecossistemas, a dinâmica dos solos e os impactos cumulativos, assim como os recursos hídricos, minerais e energéticos a que poderemos aceder. A sustentabilidade também é, em última análise, uma questão geocientífica. Sem uma base sólida em Ciências da Terra, não é possível implementar: (i) modelos de sustentabilidade económica, procurando o usufruto responsável dos recursos naturais em caminhos de desenvolvimento que considerem os processos de descarbonização, desmaterialização, eco-eficiência e circularidade da economia; (ii) modelos de sustentabilidade tecnológica, fazendo uso da tecnologia e da inovação para expandir os limites das actividades económicas e minimizar substancialmente os problemas relacionados com o provimento energético e de matérias-primas, mitigando os impactos que se lhes associam; (iii) modelos de sustentabilidade ecológica, suportada por avanços do conhecimento sobre ecossistemas e salvaguarda ambiental que requerem melhor ordenamento do território e uso parcimonioso dos recursos naturais; e (iv) modelos de sustentabilidade social, reclamando a participação activa da sociedade nos processos de desenvolvimento através de propostas ambientalmente responsáveis que visem o bem-estar e a equidade intra- e intergeracional.
Em suma, as Ciências da Terra não são apenas um conjunto de disciplinas académicas. São uma lente para interpretar o mundo; ou, como tão bem afirmou G. Seddon em 1996, configuram um sistema de pensamento, uma maneira de reflectir sobre a Terra. Atrevo-me a adicionar: uma ferramenta para antecipar riscos; um alicerce para políticas públicas; um mapa para navegar o futuro. Num século marcado por incerteza, complexidade e urgência, precisamos de geólogos, geofísicos e engenheiros geógrafos como nunca. Precisamos de investir, valorizar, ensinar e divulgar as Ciências da Terra. Porque, no fim, tudo o que fazemos — da energia que consumimos à água que bebemos, das cidades que construímos aos riscos que enfrentamos, dos recursos que extraímos às inovações tecnológicas que nos fazem sonhar e antecipar melhores futuros — depende da Terra. E compreender a Terra é, inevitavelmente, compreender o nosso destino.
Nota: este tema foi originalmente abordado pelo autor numa versão condensada que foi publicada na revista Visão.