O descanso já se perfilava no horizonte, quando Luís Carriço recebe uma missão de última hora para levantar um computador no local de trabalho antes do jantar de sexta-feira. Na cabeça do professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), nada havia que enganar. Até que deu de frente com a realidade: Num momento inédito em oito anos, mais de 100 de pessoas fizeram questão de trocar as voltas ao professor do Departamento de Informática. Todos os presentes no átrio do edifício C6 sabiam que tal gesto se devia ao facto de, ao cabo de dois mandatos, Luís Carriço ter deixado de ser diretor de Ciências ULisboa. Decididamente, aquela emboscada era apenas o início de um belo jantar de homenagem. Da suposta recolha do computador não reza a história. Pelo contrário, as palavras de Luís Carriço, o diretor que antes de o ser teve de ser convencido, revelam um ensinamento para todas as horas.

Luís Carriço: a homenagem ao diretor que nunca fecha a porta

Margarida Santos-Reis, Luís Carriço, Conceição Freitas e Guida Carvalheiro no jantar de homenagem do diretor cessante
“O que fiz foi graças a todos vós. Uma faculdade não se constrói sem a ajuda de todos”, reiterou Luís Carriço, numa das intervenções que pautaram o jantar de homenagem.
No momento em que estas palavras foram proferidas, já era sabido que tamanho imprevisto teria “consequências familiares”, pois até as duas filhas ludibriaram o antigo-diretor e alinharam nas congeminações de sexta-feira à noite, não faltando ao evento-surpresa. Se Luís Carriço fica conhecido pelo apego à “transparência”, como vincou Margarida Santos-Reis, professora de Ciências ULisboa que também integrou o elenco diretivo que terminou funções em janeiro, então o jantar cabe bem na categoria das missões que só podem ser executadas se as ordens do líder não forem cumpridas até às últimas consequências. E nessa imbricada missão de dissimulação, que envolveu representantes de todas as categorias profissionais e habilitações académicas, será justo destacar Margarida Santos-Reis, e Cristina Máguas, professora de Ciências ULisboa que transitou da anterior direção para a atual, entre as principais suspeitas pela responsabilidade material deste último ato à revelia do antigo diretor de Ciências ULisboa.
“Também perde a paciência”, admitiu a Margarida Santos-Reis, mas "é alguém que verdadeiramente se preocupa com as pessoas”.
“O que fiz foi graças a todos vós. Uma faculdade não se constrói sem a ajuda de todos”
Pode ser que o piano ou a guitarra voltem mais vezes ao ativo nas horas vagas, mas também não será de estranhar que o apelo do mar ressoe mais forte, depois de dois mandatos à frente da Direção. Por isso, houve quem se lembrasse de o presentear com uma réplica de “A Grande Onda de Kanagawa”, de Katsushika Hokusai, que se monta na lógica dos conhecidos brinquedos compostos por blocos.
Pelas palavras de Nuno Guimarães, antecessor de Carriço na liderança da Direção de Ciências ULisboa, ficará a ideia de que “o rigor” vai continuar como traço pessoal distintivo, e nem sequer faltou uma pitada de ironia aos elogios na hora de perfazer o retrato inteiro: “Ele não tem mau feitio; ele só não percebe porque é que as outras pessoas não o percebem”, referiu o ainda mais antigo diretor de Ciências ULisboa.

A homenagem a Luís Carriço juntou mais de uma centena de pessoas na sexta-feira
E de diretor em diretor, rapidamente, chegou a vez de Conceição Freitas, diretora atual de Ciências ULisboa, que aproveitou o momento para um agradecimento público: “O Luís foi um grande apoio e fez uma grande transição (entre direções). Só tenho a agradecer essa transição”, exclamou a diretora de Ciências ULisboa.
Nem todos podem dizer o mesmo. Jorge Maia Alves, professor de Ciências ULisboa e membro de elencos diretivos passados, e Tiago Guerreiro, professor de Ciências ULisboa e atual líder do centro de investigação LASIGE, dão dois exemplos – e curiosamente estavam em tom elogioso. “Não foi fácil convencê-lo de que era a pessoa certa (para se candidatar à direção)”, referiu Jorge Maia Alves sobre o esforço de persuasão que levou Luís Carriço até um processo de desfecho que, eventualmente, nem o próprio conseguia prever. “Aquilo que me orgulha e que também deve deixar o Luís orgulhoso é que a Faculdade está completamente diferente”, sublinhou Jorge Maia Alves.
Já Tiago Guerreiro não teve qualquer prurido em confirmar que a relação de proximidade que hoje mantém com Luís Carriço teve início como alegado “oponente”. Na memória paira ainda o dia em que uma familiar, menos conhecedora dos contornos académicos, lhe perguntou sobre “aquele que estava sempre a tentar entalá-lo”. A frontalidade ajuda a explicar críticas mais incisivas que se confundem com “brutalidade científica”, mas Tiago Guerreiro, que conhece Luís Carriço dos tempos de mestrado e doutoramento, também lembrou a outra faceta do mestre: “É frontal, mas sabe manter a amizade com as pessoas”.
“Aquilo que me orgulha e que também deve deixar o Luís orgulhoso é que a Faculdade está completamente diferente”
Por oito anos, todo o piso 4 do edifício C5 pôde confirmar estas duas realidades num só homem. Contas feitas, Luís Carriço, o diretor que, em janeiro, fechou o último ato público como diretor cessante para agradecer a quem manifestou discordância durante os dois mandatos à frente de Ciências ULisboa, é a mesma pessoa que sempre achou que não deveria fechar a porta do gabinete de onde são emanados os despachos. Uma decisão que teve sempre um propósito simultaneamente prático e simbólico.
“Fechar aquela porta, do ponto de vista físico, era um absurdo”, disse do professor do Departamento de Informática numa das últimas intervenções do jantar de homenagem. “Um diretor nada faz sozinho”, reiterou. Ciências ULisboa agradece.