José Maneira já perdeu a conta às interações de neutrinos que observou, mas nos anos 90, queria estudar o tema e “não havia quem o trabalhasse em Portugal”. Como sempre, da lacuna nasceu a oportunidade: com a ajuda da professora Amélia Maio, o então aluno da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) descobre em Milão um dos polos do Instituto Nacional de Física Nuclear de Itália – e é lá que realiza vários trabalhos de mestrado e doutoramento. Depois de passar pela Universidade de Queen’s, no Canadá, e trabalhar com Art McDonald antes de este ganhar o Nobel da Física, regressa em 2005 e vê aprovado um projeto de investigação pelo Laboratório de Instrumentação e Física de Partículas (LIP). Podia ter sido a estreia do Grupo de Física de Neutrinos, mas o professor do Departamento de Física dá uma razão bem plausível para este Grupo só ter celebrado o 20º aniversário esta terça-feira no LIP, mantendo 2006 como referência.

LIP comemora 20º aniversário do Grupo de Física de Neutrinos

José Maneira recordou o percurso do Grupo de Física de Neutrinos do LIP durante o evento
“O LIP aceitou e encorajou este primeiro projeto de investigação que apresentei, mas em 2005 era só eu que trabalhava nesta área dentro do LIP. E não há grupos de uma só pessoa. Só em 2006 se juntaram investigadores como a Sofia Andringa, e o Nuno Barros… Sendo que a professora Amélia Maio passou a trabalhar mais intensivamente com esse novo grupo do LIP”, informa José Maneira, pioneiro nacional na temática e coordenador do Grupo de Física de Neutrinos (GFN) dentro do LIP.
Apesar dos esforços de cientistas de vários continentes, os neutrinos continuam a figurar entre as partículas elementares mais misteriosas. Já havia investigação teórica sobre neutrinos em Portugal, mas o início de carreira de José Maneira acabou por ajudar a desbravar a vertente experimental, ao mesmo tempo que contribuiu para um novo posicionamento de Ciências ULisboa como instituição precursora. “Os três primeiros doutoramentos em Física Experimental de Neutrinos em Portugal foram feitos em Ciências ULisboa. Eu tiro o doutoramento em 2002; em 2012, segue-se Nuno Barros e em 2022 é a vez de Ana Sofia Inácio. Ciências ULisboa lidera a física experimental de neutrinos a nível nacional”, lembra o professor do Departamento de Física.
O tempo dos doutoramentos que saíam de dez em dez anos já pertence ao passado, e José Maneira estima que, ainda este ano, deverá ficar concluída mais uma tese de doutoramento na área da Física Experimental de Neutrinos, entre outras que já começaram a ganhar forma e que poderão ser anunciadas nos próximos tempos. Entretanto, Nuno Barros passou a lecionar na Universidade do Minho e “é natural que surjam também aí mais doutoramentos durante os próximos tempos”.
“Sem Ciências ULisboa e sem o LIP, a física experimental de neutrinos não seria a mesma em Portugal”
A celebração do 20º aniversário do GFN aproveitou para dar a conhecer parte do pioneirismo nacional e ainda teve o condão de contar com um nome reconhecido internacionalmente: Mark Chen, Professor da Universidade de Queen’s, veio a Lisboa dar a conhecer o projeto SNO+, que tem por objetivo a recolha de dados de interações com neutrinos, que são conhecidos por conseguirem atravessar a matéria e figurarem entre as partículas mais abundantes no Universo. Além da intervenção de Mark Chen em torno do projeto SNO+, o próprio José Maneira deu a conhecer, durante o 20º aniversário do GFN, detalhes sobre o projeto DUNE, que tem em vista a construção de uma infraestrutura que pretende apurar alterações registadas na natureza de um neutrino enquanto perfaz um percurso subterrâneo entre o laboratório Fermilab, no Illinois, e o laboratório de Sanford, no Dakota do Sul, nos Estados Unidos.
Tanto o DUNE como o SNO+ servem de exemplo para José Maneira ilustrar a forma como Ciências ULisboa e o LIP têm participado em projetos da linha da frente. No SNO+, que está a preparar uma experiência relacionada com um decaimento raro de um isótopo do telúrio, as equipas do LIP têm contribuído com o desenvolvimento de equipamentos de calibração e a análise de dados. “Alguns decaimentos do telúrio resultam na libertação de dois eletrões e dois neutrinos. Se verificarmos que nesses decaimentos não foram libertados neutrinos, podemos deduzir que os neutrinos se aniquilaram entre si, ou seja, que os neutrinos afinal não são fundamentalmente diferentes dos anti-neutrinos. E neste momento é essa a grande questão que se coloca nesta área a nível mundial”, refere José Maneira.

O LIP juntou investigadores e estudantes para dar a conhecer alguns dos principais projetos de investigação na área dos neutrinos
No projeto DUNE, a participação do LIP arrancou com o desenvolvimento de equipamentos de calibração – e também aí o pioneirismo da investigação pode fazer a diferença.
José Maneira recorda que o DUNE tem por objetivo emitir, de forma alternada, feixes de neutrinos e antineutrinos para verificar as alterações que ambos tipos partículas registam, enquanto executam um percurso subterrâneo de 1300 quilómetros.
“É um projeto importante porque pode dar pistas sobre a assimetria entre matéria e antimatéria. Hoje, temos um universo dominado pela matéria… logo a questão que se coloca é: para onde foi a antimatéria? É essa a questão que poderá ter resposta se usarmos os antineutrinos como antimatéria dos neutrinos”, adianta.
O professor do Departamento de Física não tem dúvidas de que o tema pode revelar-se especialmente interessante para quem pretende enveredar por mestrados ou doutoramentos que permitam participar em projetos internacionais que estão na linha da frente da investigação.
"É uma área entusiasmante porque mantém questões fundamentais em aberto que poderão não demorar muito a produzir respostas através de projetos como o SNO+ e o DUNE… que contam com a participação de Ciências ULisboa!”, refere o especialista em neutrinos. “Sem Ciências ULisboa e sem o LIP, a física experimental de neutrinos não seria a mesma em Portugal. Esta é uma área em que Ciências ULisboa vai continuar a liderar”, conclui o investigador.