
Trajetórias de Descoberta: Joaquim Alves Gaspar, o navegador que fez história com as cartas náuticas do passado
Na idade em que se pode ser tudo e os anos cabem na palma da mão, Joaquim Alves Gaspar decidiu ser marinheiro, para “nunca mais pensar no assunto” – até ao dia em que ingressou na Escola Naval. Já como oficial da Marinha Portuguesa fez do Atlântico um enorme plano de operações, tal como os navegadores portugueses de outrora. Da Noruega ao Brasil não faltaram missões como navegador, oficial de guarnição, imediato ou comandante de navio durante os 40 anos em que serviu a Armada. A missão de marinheiro ficou cumprida – e na idade em que muitos se contentam com o que são, o Capitão-de-mar-e-guerra quis ser mais alguma coisa. E foi assim que avançou para um doutoramento em Gestão de Informação – Sistemas de Informação geográfica, na Universidade Nova de Lisboa, que concluiu aos 61 anos, e haveria de lhe abrir, mais tarde, as portas do Instituto de Estudos de História e Filosofia das Ciências - IEHFC (anteriormente Departamento de História e Filosofia das Ciências - DHFC) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa).

Joaquim Alves Gaspar avançou para o doutoramento depois de 40 anos dedicados à Marinha Portuguesa
“Entre 2005 e 2006, decidi avançar para o doutoramento. Os historiadores tradicionais revelavam, geralmente, algum desconhecimento dos aspetos técnicos nas áreas da navegação e da cartografia, mas eu era oficial e navegador da Marinha, e especialista em cartografia náutica, e encarei esta lacuna do saber como uma oportunidade”, responde. “A maioria das pessoas faz doutoramento para avançar na carreira, mas no meu caso foi tudo feito por gosto”.
O regresso aos estudos é hoje uma efeméride pessoal, mas a metamorfose de marinheiro para historiador já era notória antes do doutoramento. Em ambas as funções, há um elemento em comum: o arreigado interesse pelo estudo das cartas náuticas. No período de reserva que, geralmente antecede a reforma dos militares, mergulha “na atividade científica” e inicia os trabalhos que levam à publicação dos livros “Cartas e Projeções Cartográficas” (2000) e “Dicionário de Ciências Cartográficas” (2004), que têm propósitos pedagógicos assumidos e tiram partido de material usado nas aulas lecionadas na Escola Naval.

Pormenor de uma carta náutica portuguesa conhecida por Planisfério de Cantino, que revelou em 1502 o continente africano após as explorações de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Fonte: Biblioteca Estense Univesitaria
Hoje, com 77 anos de idade e num posto de vigia privilegiado para vislumbrar a rota da vida, confirma ter navegado ao longo de alguns dos itinerários referenciados nas cartas náuticas do passado, mas também esclarece que as comparações arriscam perder a sentido, pois “num navio a motor, ir do ponto A ao ponto B apenas exige uma rota a direito”, enquanto numa nau à vela “há por vezes que escolher a melhor época do ano e mudar a proa sempre que é necessário” garantir o vento de feição.
“Na Marinha, cheguei a passar por valentes temporais. Não havia tempo para ter medo… mas se num navio moderno já sofríamos, imagine o que seria numa nau muito mais pequena que se desloca com velas”, refere.
Contas feitas, a escola do mar não é coisa que se deite pela borda fora. “Pode haver pessoas com um talento específico, mas a liderança também se ensina e se aprende. As pessoas (que estão sob comando) devem ser sempre o principal foco de atenção de um líder, caso contrário não há projeto ou missão que lhe valha”, comenta.
“Talvez algumas pessoas tenham ficado surpreendidas ou tenham menorizado este percurso devido à idade e à formação anterior, mas não foi esse o caso das pessoas que atribuíram a bolsa do ERC”
Hoje a “gratidão” pela Marinha tem o tamanho de um oceano, não só devido ao cumprimento do sonho de criança e à bem-sucedida carreira militar, mas também porque ajudou a trilhar o caminho da ciência. “Ter capacidade de liderança é tão importante num navio como num projeto científico”, garante.
Nos Descobrimentos, os portugueses dão início ao uso da astronomia para fins náuticos e passam a ter a latitude do navio como elemento essencial de informação. É por essa altura que instrumentos como o quadrante e o astrolábio, usados então por astrónomos e astrólogos, se revelam elementos diferenciadores, devido às instruções simplificadas que permitiam que pilotos sem grandes habilitações técnicas, ou mesmo analfabetos, fizessem medições em alto mar. “Foi uma revolução porque permitiu tornar a navegação bem mais precisa e segura”, sublinha o historiador.

Carta náutica de Angelino Dulceti (1339) representando o Mediterrâneo e a costa Atlântica da Europa. É a mais antiga carta catalã que chegou aos nossos dias / Fonte: Biblioteca Nacional de França
Nos séculos XX e XXI, a formação de marinheiros, navegadores e comandantes de navios já é bem diferente dos tempos em que os exploradores portugueses percorriam novas rotas marítimas. E, hoje, dificilmente se encontra um navegador impreparado – até porque todas as tecnologias e conceitos da atualidade implicam conhecimentos que se aprendem em entidades como a Escola Naval… em que Joaquim Alves Gaspar se formou como oficial e, que depois, o recebeu como formador de oficiais em diferentes disciplinas.
“Especializei-me em navegação, hidrografia e oceanografia física”, resume o Capitão-de-mar-e-guerra reformado, fazendo alusão ao mestrado que o levou, nos anos 80, à Naval Postgraduate School, em Monterey, nos Estados Unidos da América. “Também estive vários anos com funções técnico-científicas nas áreas da navegação e oceanografia física no Instituto Hidrográfico da Marinha”, informa.
“Fui a Bruxelas para uma entrevista com os historiadores que faziam parte do júri de avaliação da minha proposta de projeto de investigação. Notava-se que havia curiosidade. Colocaram questões difíceis, mas no final bateram palmas!”
Os anos 90 encontram-no como comandante do Agrupamento de Navios atribuídos ao Instituto Hidrográfico, como o Andrómeda, o Almirante Gago Coutinho, o Auriga e o D. Carlos I, que desenvolveram várias missões de âmbito hidrográfico e oceanográfico para a Armada. Ainda que a ciência estivesse sempre por perto, não deixava de ser um militar – e essa característica, juntamente com os 61 anos de idade com que terminou a tese de doutoramento, não passou despercebida aos pares: “Talvez algumas pessoas tenham ficado surpreendidas ou tenham menorizado este percurso devido à idade e à formação anterior, mas não foi esse o caso das pessoas que me atribuíram a bolsa do Conselho Europeu de Investigação (ERC)”, refere.
“Fui a Bruxelas para uma entrevista com os historiadores que faziam parte do júri de avaliação da minha proposta de projeto de investigação. Notava-se que havia muita curiosidade. Colocaram várias questões difíceis, mas no final bateram palmas!”, recorda Alves Gaspar.

Planisfério impresso de Gerard Mercator (1569), que utiliza, pela primeira vez, a projeção cartográfica com o nome do seu criador / Biblioteca Nacional de França
Depois da atribuição da bolsa do ERC, em 2017, Joaquim Alves Gaspar passa diretamente para as referências cimeiras da historiografia mundial ao contribuir para melhor se entender como eram produzidas e usadas as cartas náuticas entre o século XIII e o século XVIII. Além de ter confirmado que essas cartas náuticas antigas eram produzidas com recurso à bússola magnética e a distâncias estimadas com base na experiência dos pilotos da altura, o investigador do IEHFC tem vindo a investigar de que modo essas cartas eram usadas a bordo, através da identificação de marcas deixadas por compassos de navegação e, mais tarde, por grafite e tentativas de apagamento.
Os objetivos propostos para a bolsa do ERC haveriam de levar a equipa do projeto a construir o sistema Medea-Chart, constituído por uma base de dados contendo informação e imagens de mais 6000 cartas náuticas do passado. “Este sistema de informação está hoje disponível na Internet para todo o mundo e agrega cópias digitais e informação complementar da larga maioria das cartas náuticas manuscritas de que temos conhecimento”, informa.
A bolsa do ERC levou-o a bom porto, mas o percurso pessoal também revela que a guinada no rumo surgiu anos antes, quando apresenta o trabalho de doutoramento a Henrique Leitão, que também é investigador do DHCF e também tem no currículo uma bolsa do ERC. Hoje, o antigo oficial da Marinha não hesita em considerar que tal encontro lhe mudou a vida. “O Henrique convidou-me para vir para aqui (para o IEHFC) e daqui nunca mais saí”, sublinha.
“Ao longo da minha vida tive um ou dois momentos Eureka. Um deles surgiu quando consegui deslindar como é que Gerard Mercator calculou e desenhou, em 1569, a projeção cartográfica que tem o seu nome"
Feitas as contas, no currículo feito depois da suposta reforma, constam agora uma bolsa do ERC com revelações inéditas à escala mundial; cerca de 25 artigos científicos publicados; a publicação do terceiro livro (“A Cartografia de Magalhães / The Cartography of Magellan”, em 2024, com a sua então aluna de doutoramento, Šima Krtalić) e o contributo de vários capítulos de livros em parceria que estão “espalhados por aí fora”. Seguir-se-á um quarto livro, já em preparação, com o possível título “The nautical chart (1300-1700) as an instrument for navigation”.
“Ao longo da minha vida tive um ou dois momentos Eureka. Um deles surgiu quando consegui deslindar como é que Gerard Mercator calculou e desenhou, em 1569, a projeção cartográfica que tem o seu nome. Eu e o Henrique publicámos três artigos científicos sobre o tema, onde o papel primordial de Pedro Nunes é relevado”, indica.
Como marinheiro experiente, Joaquim Gaspar Alves também sabe como se supera um Adamastor, mantendo viva a boa esperança. O apoio concedido durante a bolsa do ERC por vários especialistas de renome, como Tony Campbell, que é apontado como uma das referências mundiais nestas temáticas, não é esquecido – mas as palavras de Alves Gaspar também permitem confirmar que há vitórias que só se tornam possíveis quando ganham forma dentro do espírito de quem as procura.

Ábaco do Planisfério de Mercator (1569), que permitiu deduzir as características geométricas da projeção cartográfica / Fonte: Bibliothèque nationale de France
“Nunca é tarde para ser cientista, mas há vantagens em ter histórico e experiência. No meu caso, contou muito a experiência na área científica, como navegador e como líder”, refere. A este homem do mar, não se aplica a metáfora sobre a derradeira oportunidade que resta para apanhar um comboio em andamento. Até porque, de algum modo, aquele comboio da historiografia das cartas náuticas foi criado, “em grande medida”, pelo próprio Alves Gaspar, “com investigação que é inédita” e que tem um assinalável impacto a nível internacional.

Cópia de carta náutica portuguesa anónima construída entre 1501 e 1506. É a mais antiga carta baseada em medições de latitude de que há registo, sendo que o original perdeu-se durante a Segunda Guerra Mundial
“Estou sempre a escrever. Não distingo bem trabalho de lazer, uma vez que é das coisas que me dão mais gozo na vida”, acrescenta o investigador, sem esquecer a fotografia amadora como outra das preferências pessoais que o têm acompanhado ao longo dos anos. “As pessoas embrenham-se nas coisas por gosto e também porque querem ter reconhecimento dos pares”, comenta.
Com o nome firmado no circuito internacional do estudo da cartografia náutica, Joaquim Alves Gaspar mantém a disposição para prosseguir até onde conseguir – e lembra mesmo que “há ainda várias pontas soltas” por resolver na historiografia atual. “Não sou neurocientista, mas diria que a idade nos pode tirar perspicácia, memória ou criatividade, mas muitas dessas perdas podem ser compensadas com conhecimento e experiência”, garante. Há um oceano de novas histórias por descobrir e contar.
Trajetórias de Descoberta é uma nova rúbrica que dá a conhecer os investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa cujo trabalho foi distinguido com bolsas do Conselho Europeu para a Investigação (ERC). Para além dos projetos e dos resultados científicos, propõe-se olhar para os percursos, as ideias e as formas de pensar que moldam a investigação de excelência. Ao longo dos próximos meses, exploraremos não apenas o que investigam, mas como chegaram até aí — as escolhas, os desafios e a visão que orienta o seu trabalho.