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Joana Canana, aluna de Ciências: encontrar o caminho entre a Faculdade e a alta competição

Lídia Belourico
Ciências •13 agosto, 2026

Correr, pensar, decidir. Tudo em simultâneo. Na orientação, chegar primeiro não depende apenas da velocidade: é preciso interpretar um mapa, ler o terreno, escolher o melhor caminho e manter a cabeça fria quando a decisão não corre como esperado. Para uma estudante de Ciências ULisboa que concilia seis dias de treino por semana com aulas, trabalhos e exames, esta capacidade de decidir sob pressão é também uma aprendizagem para a vida académica.

Depois de representar Portugal no Campeonato Mundial Universitário de Orientação, onde alcançou o 14.º lugar na prova de sprint relay, fala-nos sobre a exigência de competir ao mais alto nível enquanto estudante, a disciplina necessária para conciliar desporto e Faculdade e aquilo que a orientação lhe ensinou sobre foco, resiliência e superação. Uma conversa sobre mapas e escolhas, mas também sobre saber encontrar o caminho certo quando os desafios aparecem.

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créditos: Tomass Krysiak

Para quem nunca ouviu falar de orientação, como explicarias esta modalidade?
A orientação consiste em fazer um percurso no menor tempo possível, mas sem uma linha definida a seguir, temos apenas um mapa com alguns pontos de controlo e uma bússola. Somos nós que temos de analisar o terreno e decidir, em tempo real, qual a melhor opção para chegar ao ponto seguinte o mais rápido possível. É isso que torna a modalidade tão desafiante: não é só correr, é também pensar constantemente.

Como organizas o teu dia a dia para conciliar a Faculdade e a competição de alto nível?
Tento planear a semana de forma a conseguir sempre conciliar aulas, trabalhos de grupo, treinos e vida social. Nem sempre é fácil, mas quando definimos prioridades, tudo se ajusta. Acabo por ser eu a criar o meu horário de treino. Tenho um plano semanal que tenho que respeitar e, como é um treino que posso fazer sozinha, muitas das vezes acabo por treinar sozinha e às horas que me dá mais jeito. Muitas vezes treino de manhã para "despachar" logo o treino e à tarde vou às aulas e ainda tenho tempo para estar com amigos. Outras vezes levo o equipamento para a Faculdade e, logo depois das aulas, vou para a pista treinar porque tenho sempre companhia a essa hora (é quando o meu clube treina). Mesmo aos fins de semana, quando tenho provas fora, arranjo sempre um tempinho para tratar de trabalhos ou estudar.

"Tento planear a semana de forma a conseguir sempre conciliar aulas, trabalhos de grupo, treinos e vida social. Nem sempre é fácil, mas quando definimos prioridades, tudo se ajusta."

Como é a tua preparação para uma prova? Quantas horas treinas e que tipo de treino fazes?
Treino 6 dias por semana. O foco principal é a corrida, mas também faço treinos de reforço muscular e, aos fins de semana, dedico-me à parte técnica (os treinos de mapa).

Que competências, além da condição física, consideras fundamentais?
A capacidade de traduzir os símbolos bidimensionais do mapa para a realidade tridimensional do terreno num piscar de olhos. Manter a calma: se cometermos um erro e entrarmos em pânico, perdemo-nos ainda mais, é preciso ter a frieza de parar, relocalizar e continuar. E escolher um caminho e confiar na escolha até ao fim, sem hesitações.

O que significa representar a Universidade de Lisboa e o país numa competição internacional?
É um orgulho e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade.

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"Treino 6 dias por semana. O foco principal é a corrida, mas também faço treinos de reforço muscular e, aos fins de semana, dedico-me à parte técnica"

Alguma competência da Faculdade que ajude na orientação? E o inverso, o desporto tornou-te melhor estudante?
No sentido inverso, a orientação transformou-me numa estudante muito mais focada e resiliente. Este desporto ensina-nos, prova após prova, a lidar com a frustração — porque nem sempre as coisas correm como planeamos, e é preciso saber recuperar rapidamente de um erro em vez de nos deixarmos abater por ele. Essa capacidade de manter o foco sob pressão, mesmo quando algo corre mal, transporta-se diretamente para a época de exames: aprendi a não entrar em pânico perante um obstáculo, a reorganizar-me e a continuar a trabalhar com a mesma determinação com que procuro o próximo ponto de controlo num mapa.

Que objetivos levas para um Campeonato Mundial Universitário?
Prefiro ir sem grandes expectativas quanto a resultados, porque assim tudo corre sempre melhor. Sei que treinei imenso e que estou preparada. O meu objetivo é tentar fazer provas limpas, sem erros e com o máximo de garra possível e, claro, desfrutar ao máximo da experiência, rodeada de excelentes atletas internacionais.

Como correu?
Em geral, as provas correram bem. O nível de competição foi muito elevado, com atletas de topo dos países mais desenvolvidos na orientação, e as provas estavam muito bem organizadas, com mapas de qualidade e percursos bem desenhados, o que tornou tudo ainda mais desafiante. O melhor resultado que consegui foi na sprint relay, em que, a competir pela equipa de Portugal, alcançámos o 14.º lugar. Nas restantes provas, fiz percursos consistentes, ainda com alguns erros e hesitações, a este nível, quando erramos dificilmente conseguimos um bom lugar, mesmo estando bem fisicamente, a margem para falhas é mínima e qualquer hesitação custa muitas posições. 

"O meu objetivo é tentar fazer provas limpas, sem erros e com o máximo de garra possível e, claro, desfrutar ao máximo da experiência"

Que mensagem deixarias aos estudantes que gostariam de praticar desporto universitário, mas receiam não conseguir conciliar os estudos com a competição?
Arrisquem e experimentem! O desporto não vos vai tirar tempo de estudo — pelo contrário, vai dar-vos a estrutura e a energia mental de que precisam para render muito mais quando agarrarem nos livros. A Faculdade de Ciências apoia os seus atletas e a comunidade do desporto universitário é incrível. O desporto ajuda-nos a descomprimir do stress académico e faz com que a nossa experiência na universidade seja muito mais rica e completa. Para mim, é muito gratificante sentir que consigo ser atleta e, ao mesmo tempo, aproveitar a faculdade como qualquer um dos meus colegas: ir às aulas, sair com amigos, viver a experiência universitária ao máximo. Vale mesmo a pena! Eu consigo arranjar tempo para tudo, por isso vocês também conseguem.

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