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Jaquelino Varela conclui doutoramento com distinção máxima e destaca papel de Cabo Verde na conservação dos tubarões

Lídia Belourico
Biologia•11 agosto, 2026

Cabo Verde é um hotspot de diversidade de tubarões e uma área prioritária para a conservação destas espécies no Atlântico Oriental. A conclusão é de Jaquelino Varela, investigador cabo-verdiano que concluiu o doutoramento na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) com a classificação máxima: louvor e distinção, por unanimidade. Mais do que uma conquista académica, o investigador considera que este reconhecimento afirma a qualidade da ciência produzida por cabo-verdianos e demonstra o contributo que um pequeno Estado insular pode dar para o conhecimento científico mundial. Nesta entrevista, partilha as principais conclusões da sua investigação e a visão que tem para o futuro da conservação marinha em Cabo Verde.

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Jaquelino Varela, investigador cabo-verdiano, concluiu o doutoramento em Ciências ULisboa com a classificação máxima: louvor e distinção, por unanimidade.

A sua tese de doutoramento recebeu a classificação máxima, com louvor e distinção, atribuída por unanimidade pelo júri de Ciências ULIsboa. O que representa este reconhecimento para si e, sobretudo, para a investigação científica produzida por cabo-verdianos?
Recebi esta distinção com enorme gratidão e humildade. Esta conquista reconhece anos de trabalho, dedicação e compromisso com uma investigação focada em questões muito relevantes para Cabo Verde. Reconhece igualmente o excelente trabalho de orientação dos meus orientadores, Professor Doutor Rui Rosa e Doutor Tiago Repolho, sem os quais não teria alcançado esta distinção. Este feito tem um significado ainda mais especial, considerando o contexto de onde parti, no qual alcançar este nível parecia improvável. Acredito que os cabo-verdianos têm capacidade de produzir ciência de excelência, com rigor e reconhecimento internacional. Espero que este reconhecimento possa inspirar outros jovens investigadores do nosso país a acreditarem no seu potencial e a continuarem a investir no conhecimento como ferramenta de transformação.

"Esta conquista reconhece anos de trabalho, dedicação e compromisso com uma investigação focada em questões muito relevantes para Cabo Verde. "

Qual considera ser a principal novidade científica da sua tese e de que forma acredita que este trabalho poderá influenciar futuras políticas de conservação em Cabo Verde e na região?
Um dos contributos mais relevantes foi demonstrar, com base em evidência científica, que Cabo Verde é um hotspot de diversidade de tubarões e uma área prioritária para a sua conservação no Atlântico Oriental, onde estas espécies enfrentam pressões crescentes, nomeadamente da pesca industrial e artesanal, da degradação dos habitats costeiros e das alterações climáticas. A investigação integrou também o conhecimento ecológico local dos pescadores artesanais, demonstrando que a ciência pode e deve dialogar com o saber das comunidades. A tese reforça a importância de áreas como a baía de Sal Rei, na Boa Vista, identificada como berçário de espécies ameaçadas, e evidencia a necessidade urgente da sua proteção.
A nível nacional, os resultados sustentam a criação de um Plano de Ação para a Conservação e Gestão das espécies e fornecem informação científica para fundamentar a revisão da legislação relacionada com a conservação dos tubarões. A nível regional, identificam espécies prioritárias para ações de conservação conjuntas entre os arquipélagos do Atlântico Norte.

"Cabo Verde é um hotspot de diversidade de tubarões e uma área prioritária para a sua conservação no Atlântico Oriental"

Até que ponto o conhecimento dos pescadores artesanais foi determinante para as conclusões da sua tese?
A realização deste trabalho permitiu-me conhecer melhor o meu país, sobretudo a ilha de Santiago, colocando-me no lugar dos pescadores e compreendendo melhor as suas perspectivas e desafios. Percebi que os aspetos socioeconómicos são fundamentais para o sucesso das iniciativas de conservação. As medidas de gestão só serão verdadeiramente eficazes se tiverem em conta a realidade e as necessidades das comunidades que dependem diretamente dos recursos marinhos. O conhecimento dos pescadores artesanais foi determinante, sobretudo num contexto em que ainda existem lacunas importantes de monitorização científica. Em Cabo Verde, onde não há séries longas de dados sobre tubarões, ouvir quem passa a vida no mar permitiu aceder a informação acumulada ao longo de muitos anos de observação direta. Esse conhecimento revelou-se essencial para perceber quais as espécies mais capturadas, como evoluiu a abundância dos tubarões e para orientar futuras prioridades de investigação e conservação.

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Em Cabo Verde, onde não há séries longas de dados sobre tubarões, ouvir quem passa a vida no mar permitiu aceder a informação acumulada ao longo de muitos anos de observação direta.

O que significa para si mostrar que um pequeno arquipélago pode dar um contributo tão relevante para a ciência global?
Tem um significado muito profundo, porque demonstra que a relevância científica não depende da dimensão geográfica de um país, mas da importância das perguntas que coloca ao mundo. Cabo Verde está inserido num espaço oceânico de enorme valor ecológico e estratégico, o que lhe confere condições únicas para contribuir para o conhecimento global sobre biodiversidade marinha e conservação. Estudar Cabo Verde é também ajudar a compreender melhor o oceano global. É ainda contrariar a ideia de que o conhecimento de excelência nasce apenas nos grandes centros científicos. Países insulares, africanos e com recursos mais limitados também podem produzir ciência original, rigorosa e com impacto internacional.


Cabo Verde emocionou recentemente o mundo pelo desempenho da seleção no Mundial, mas há também cabo-verdianos que elevam o nome do país através da ciência. Acredita que estamos perante uma nova geração que está a mostrar ao mundo um Cabo Verde de talento, conhecimento e inovação?
Acredito que estamos perante uma geração que está a alargar a imagem de Cabo Verde no mundo e a mostrar que o país não se afirma apenas pelo talento desportivo ou artístico, mas também pela qualidade dos seus investigadores, empreendedores e profissionais. O que tem acontecido em diferentes áreas revela um Cabo Verde com ambição, competência e vontade de ocupar o seu lugar no mundo com mérito próprio. Esta nova geração está cada vez mais ligada ao mundo, mas sem perder a ligação às suas raízes e aos desafios do país. Na ciência, isso significa produzir conhecimento com qualidade internacional, mas simultaneamente útil para responder aos problemas reais de Cabo Verde. O talento existe. O que precisamos é de continuar a criar condições para que esse talento floresça e se transforme em desenvolvimento para o país.

"Acredito que estamos perante uma geração que está a alargar a imagem de Cabo Verde no mundo e a mostrar que o país não se afirma apenas pelo talento desportivo ou artístico"

Os tubarões continuam a ser vistos por muitos como animais perigosos. Depois de anos a estudá-los, qual é o maior mito que gostaria de desfazer?
O maior mito é a ideia de que os tubarões representam uma ameaça constante para o ser humano. Essa imagem foi alimentada sobretudo pelo cinema e pelo sensacionalismo. Na realidade, os ataques são extremamente raros e a grande maioria das espécies não representa perigo para as pessoas. Ao longo dos últimos anos promovi diversas campanhas de sensibilização ambiental junto das comunidades piscatórias e dos estudantes, mas ainda há um longo caminho a percorrer para mudar esta perceção. Os tubarões desempenham um papel essencial no equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Quando desaparecem, desencadeiam desequilíbrios que afetam toda a cadeia alimentar. Proteger os tubarões é proteger a saúde dos oceanos e, em última análise, as próprias comunidades humanas.

A sua investigação mostra que dois terços das espécies de tubarões identificadas em Cabo Verde estão ameaçadas de extinção. Que consequências poderá isso ter?
Se esta tendência persistir, as consequências podem ser muito sérias para Cabo Verde e para o equilíbrio ecológico do Atlântico. Uma das principais consequências é o desequilíbrio das cadeias alimentares, com efeitos em cascata sobre todo o ecossistema. Além disso, os ecossistemas tornam-se mais vulneráveis à sobrepesca, à degradação dos habitats e às alterações climáticas. Para Cabo Verde, isso poderá traduzir-se em impactos na biodiversidade, na produtividade da pesca, na segurança alimentar e até no turismo de natureza.

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"O maior mito é a ideia de que os tubarões representam uma ameaça constante para o ser humano. Essa imagem foi alimentada sobretudo pelo cinema e pelo sensacionalismo. Na realidade, os ataques são extremamente raros "

Um dos aspetos mais interessantes da sua tese foi integrar o conhecimento dos pescadores artesanais com a investigação científica. Que lição retira dessa experiência?
Aprendi que as comunidades piscatórias possuem um conhecimento extremamente valioso sobre o mar, construído a partir da experiência diária. A boa ciência, sobretudo quando aplicada à conservação e ao desenvolvimento, precisa de dialogar com as pessoas, com a experiência local e com a memória ecológica das comunidades.

Que responsabilidade sente em representar Cabo Verde nos fóruns científicos internacionais?
Sinto que, ao participar nesses fóruns, não represento apenas um percurso individual, mas também a capacidade de Cabo Verde produzir conhecimento científico de qualidade e contribuir para os grandes debates internacionais sobre o oceano, o clima e o desenvolvimento sustentável. É simultaneamente um orgulho e um compromisso: estar bem preparado, produzir com rigor e mostrar que o país tem contributos relevantes para oferecer ao mundo.

Cabo Verde pode tornar-se uma referência internacional na proteção dos oceanos e na economia azul?
Acredito que sim. O país reúne condições muito favoráveis: uma localização estratégica, uma vasta área marítima, elevada biodiversidade e uma forte ligação histórica ao mar. Mas isso exige instituições fortes, fiscalização eficaz, investimento em investigação científica e uma articulação efetiva entre ambiente, pescas, turismo e educação. No caso dos tubarões, é fundamental expandir áreas marinhas protegidas, proteger habitats críticos, melhorar os dados sobre capturas e criar um plano nacional de conservação. Se essas medidas forem concretizadas, Cabo Verde poderá afirmar-se como uma referência internacional na conservação marinha.

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