Quando precisou de uma casa em Lisboa, Giulia Sent arranjou um veleiro para morar. E quando decidiu visitar Veneza, a aluna de doutoramento da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) decidiu ir de veleiro. “Vou a casa com a minha casa”, informa depois de aplicar duas metáforas à mesma palavra que tanto remete para a embarcação de 10 metros onde vive há três anos, como para o local onde vive a família em Veneza. Depois dos trabalhos de preparação do veleiro, a investigadora do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) fez-se ao mar no final de maio. Pela frente, tem uma viagem de ida e volta de quatro meses que será feita maioritariamente sozinha. Sendo praticante de vela desde os sete anos, a vertente mais agradável está assegurada. Mas a iniciativa pessoal não perdeu de vista a utilidade – e por isso garantiu também a participação, em regime de voluntariado, no projeto PlanktoSpace, com o objetivo de recolher, ao longo do trajeto, amostras que poderão ajudar a refinar o estudo do plâncton.

Investigadora do MARE zarpa rumo a Veneza com veleiro que recolhe amostras de plâncton

Giulia Sent aproveitou para fazer ciência durante a viagem de visita à família, em Veneza
“Considero fundamentalmente contraditório que um cientista navegue tantas milhas no mar sem procurar contribuir para a recolha de dados úteis à investigação científica. Num ambiente tão difícil de monitorizar, cada viagem representa uma oportunidade valiosa de aquisição de informação", responde a cientista italiana, que tem vindo a desenvolver os trabalhos de doutoramento no MARE.
Giulia Sent não esconde que a ida a Veneza nasceu da vontade de visitar a família, fazendo todo o percurso com o veleiro que comprou em Espanha. Há três anos, a familiaridade com o mar e os custos de habitação em Lisboa convenceram-na facilmente a enveredar por uma morada flutuante. E da compra do veleiro Sara até ao projeto de viagem a Veneza foi apenas um passo.
“Neste kit, há um sistema de recolha de amostras que terão de ser recolhidas em datas precisas, que coincidem com os momentos em que os satélites usados para a monitorização de plâncton estarão a recolher informação dos locais por onde passo”
Para levar a cabo o projeto pessoal sem perder de vista a utilidade científica e a captação de apoios, a investigadora que também já pertenceu à seleção de vela italiana decidiu então sondar “dezenas de investigadores” internacionais com o objetivo de garantir apoios e utilidade na viagem. A resposta haveria de chegar pelas mãos do programa PlanktoSpace, que foi lançado em parceria pela Agência Espacial Europeia (ESA) e a congénere NASA, dos Estados Unidos, com o objetivo de recolher amostras de plâncton em diferentes pontos do Globo.
“O programa tinha 20 kits para distribuição – e um deles foi-me atribuído!”, responde a cientista italiana. “Neste kit, há um sistema de recolha e filtração das amostras que terão de ser recolhidas em datas precisas, que coincidem com os momentos em que os satélites usados para a monitorização de plâncton estarão a recolher informação dos locais por onde passo”, descreve ainda Giulia Sent.

Giulia Sent teve de apetrechar o veleiro Sara para garantir a recolha de amostras de plâncton durante a travessia do Mediterrâneo
Os planos propostos pelo projeto PlanktoSpace preveem uma recolha semanal de amostras. Cada recolha deverá envolver um total de 10 litros de água do Mediterrâneo, que será filtrada com o objetivo de reter espécimes de zooplâncton e fitoplâncton. Estes filtros com plâncton animal e vegetal deverão ser depois enviados para análise em França, para que os investigadores ligados ao PlanktoSpace possam fazer comparações com os dados recolhidos à mesma hora e no mesmo local a partir de satélites. “Com as análises de ADN, vai tornar-se possível saber que espécies de plâncton predominam nos filtros de recolha de amostras”, refere Giulia Sent.
Além do aperfeiçoamento da monitorização que os satélites vão fazendo com base na coloração e outros indicadores, o PlanktoSpace poderá abrir caminho a ferramentas que ajudam a distinguir espécies ou que alertam produtores de aquacultura ou responsáveis de zonas balneares quanto à presença de variedades de plâncton conhecidas por produzirem toxinas, entre outros exemplos que eventualmente haverão de surgir nos próximos tempos.
“A participação neste programa também pode vir a ser útil para o doutoramento que estou a fazer. O tema não é só sobre plâncton, mas envolve vários parâmetros relacionados com a qualidade da água"
“A participação neste programa também pode vir a ser útil para o doutoramento que estou a fazer. O tema não é só sobre plâncton, mas envolve vários parâmetros relacionados com a qualidade da água. Além disso, vou poder participar nas reuniões de trabalho do PlanktoSpace e ter contacto com investigadores que estão entre as referências internacionais nestes temas”, prevê a investigadora que tem trabalhado no grupo de investigação em Fitoplancton e Deteção Remota do MARE, sob a coordenação de Vanda Brotas.
Para itinerário Lisboa-Veneza-Lisboa, Giulia Sent prevê uma viagem a uma velocidade média de cinco nós (menos de 10 Km hora) e idas a Terra sempre que passam “três ou quatro dias” no mar. Haverá algum tempo de viagem com o namorado, e também com a família – mas a grande maioria da travessia será feita sozinha. Giulia admite que lida bem com a ausência de companhia, mas também sabe que, desta vez, o desafio é diferente. “Nunca fiz uma viagem tão grande sozinha”, refere.

O veleiro Sara é também a "casa" de Giulia Sent em Lisboa
Bem antes de a viagem se iniciar, a investigadora andou a preparar o barco para a grande travessia, estudando quase tudo o que havia para descobrir e poder resolver avarias que, eventualmente, surjam a bordo. Os painéis solares haverão de garantir a energia; o motor haverá de entrar em funções nos portos e na proximidade da costa; o rádio e a localização AIS poderão ser igualmente úteis, e no porão deverão seguir mantimentos para 15 dias, que haverão de ser reforçados durante as paragens nos diferentes portos. Provavelmente não haverá Internet na maior parte do tempo.
“Vou ter tempo para estar na minha cabeça. Acontecem coisas maravilhosas no cérebro das pessoas quando estão aborrecidas e sem companhia para falar. É essa Giulia que não conheço e que agora quero conhecer”, adianta a própria.

Giulia Sent pratica vela desde a infância
Apesar das comunicações com limitações, a investigadora conta dar notícias sobre o decurso da aventura com publicações semanais num blogue e na página de Instagram Becoming_rv. Em paralelo, lançou uma campanha de angariação de fundos para converter o veleiro Sara numa embarcação científica, sendo que todo o trabalho científico será feito de forma voluntária. E porque o exemplo ajuda a fazer a diferença, não se esqueceu de levar o microscópio portátil para a embarcação, com o objetivo de participar em algumas ações de formação em localidades italianas que, em troca, haverão de lhe ceder local para atracar o veleiro. Para o regresso, prevê-se ainda um evento desenvolvido na agência Ciência Viva. “Espero conseguir resolver tudo sozinha”, diz. O mar e o vento darão uma ajuda.