João P.R. Joaquim estava em pleno doutoramento sobre a história da virologia das plantas quando depara com uma nova pista nos arquivos da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. À sua frente tinha correspondência trocada entre investigadores britânicos e Maria de Lourdes d’Oliveira e Maria de Lourdes Borges. Alguns anos antes, já tinha encontrado referências às duas investigadoras que aliaram competência científica ao facto de trabalharem num mundo dominado por homens. O mote estava dado – mas o roteiro de trabalho do investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT) só ficou definido com a inclusão de Mathilde Bensaúde no objeto de estudo. A intuição de historiador compensou: no início de março, João P.R. Joaquim recebeu uma Bolsa de Pós-Doutoramento Marie Skłodowska-Curie para investigar a história das três cientistas, depois de apresentar uma candidatura com o apoio da associação FCiências.ID.

Investigador do CIUHCT ganha bolsa Marie Skłodowska-Curie para investigar três pioneiras da fitopatologia em Portugal

Maria de Lourdes Borges, Maria de Lourdes d'Oliveira e Mathilde Bensaúde foram referências na fitopatologia e pioneiras na ciência desenvolvida no feminino
“Esta investigação incide sobre o trabalho científico, mas não vamos perder de vista o contexto social e político em que viveram estas três investigadoras portuguesas”, informa João Joaquim. “Durante a primeira metade do século XX, era incomum encontrar mulheres a liderar investigação científica sobre doenças das plantas, tal como era incomum encontrar essa liderança feminina noutras áreas de estudo. No Reino Unido, havia algumas, mas muito longe de perfazerem metade das equipas. Em Portugal, estas três mulheres, além de destoarem da maioria masculina, estavam entre as principais referências científicas nesta área durante três gerações”, acrescenta o jovem historiador.
Com a atribuição da Bolsa de Pós-Doutoramento Marie Skłodowska-Curie, que é financiada pela Comissão Europeia, João Joaquim vai passar a dispor de dois anos para produzir a historiografia associada às três cientistas pioneiras. O projeto é hoje conhecido por INTERLEAVING. Ana Duarte Rodrigues, coordenadora do polo do CIUHCT em Ciências ULisboa, não esconde o contentamento de voltar a trabalhar com um antigo aluno.

João P.R. Joaquim vai dar início ao estudo das três cientistas portuguesas entre o final de 2026 e o início de 2027
“É raro termos entre nós doutorados em História da Ciência pela Universidade de Cambridge, por isso só este facto abre inúmeras possibilidades para o nosso grupo de trabalho. O João concorreu a uma bolsa Marie Skłodowska-Curie, com doutoramento feito há pouco mais de um ano, mas já reúne neste momento todas as condições e currículo para concorrer a uma bolsa ERC-Starting (do Conselho Europeu de Investigação ou ERC). É nesse percurso que o quero apoiar enquanto sua orientadora da bolsa Marie Skłodowska-Curie”, refere a coordenadora do CIUHCT.
Em conversa a partir da Universidade de Cambridge, o investigador português informa que prevê iniciar os trabalhos que valeram a prestigiada Bolsa Marie Skłodowska-Curie entre o final de 2026 e o início de 2027. “Ao acompanhar as carreiras destas três cientistas conseguimos estudar quase toda a história da investigação científica na área da patologia vegetal do século XX em Portugal”, sublinha João Joaquim.

Páginas do livro "Pioneering Women in Plant Pathology", editado por Jean Beagle Ristaino, que documentam a passagem de Mathilde Bensaúde pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos da América
Com a atribuição da bolsa, também surge a expectativa de colmatar algumas lacunas na historiografia nacional. Ana Duarte Rodrigues lembra que “o tema das mulheres na ciência em Portugal continua a ser pouco explorado”, apesar de ter “impacto na história social da ciência por abordar questões de género durante a ditadura do Estado Novo”.
“Esta investigação de João Joaquim tem potencial para ter um enorme impacto na historiografia porque vai internacionalizar a questão ao investigar estas mulheres que foram estudar ou estagiar no estrangeiro e o que aprenderam lá, com quem aprenderam, que colegas tiveram, o que trouxeram e conseguiram fazer quando voltaram para Portugal”, recorda a coordenadora do polo do CIUHCT em Ciências ULisboa.
"Esta investigação pretende avançar com uma compreensão aprofundada sobre as experiências que as três investigadoras fizeram sobre os vírus através de um contacto próximo com os colegas de biologia de Ciências ULisboa, com quem o João já estabeleceu contacto”
“Por outro lado, esta investigação pretende avançar com uma compreensão aprofundada sobre as experiências que as três investigadoras fizeram sobre os vírus através de um contacto próximo com os colegas de biologia de Ciências ULisboa, com quem o João já estabeleceu contacto”, acrescenta Ana Duarte Rodrigues.
Mathilde Bensaúde viveu entre 1890 e 1969 e teve um percurso académico com passagens por Suíça, França e Estados Unidos da América. Era filha de Alfredo Bensaúde, fundador e primeiro diretor do Instituto Superior Técnico (IST). E o seu pioneirismo obteve reconhecimento internacional.

Páginas alusivas ao trabalho de Maria de Lourdes Borges "Pioneering Women in Plant Pathology", editado por Jean Beagle Ristaino
Maria de Lourdes d’Oliveira nasceu em 1904 e faleceu em 1980. Abandonou a carreira de medicina para se dedicar à investigação fitopatológica e fazer carreira na Estação Agronómica Nacional. A investigação também haveria de a levar a passar algumas temporadas no Reino Unido.
Maria de Lourdes Borges nasceu em 1916 estudou biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde viria a lecionar em paralelo com o Instituto Superior de Agronomia. Passou pela Alemanha e pelo Reino Unido e trabalhou com Maria de Lourdes d’Oliveira na Estação Agrícola Nacional.

Maria de Lourdes d'Oliveira, numa das páginas do livro "História e Memórias da Estação Agronómica Nacional", de Margarida Teixeira Santos
João Joaquim prevê que o estudo dos percursos das três cientistas possa gerar as condições necessárias à publicação de artigos científicos, exposições, e outras iniciativas de divulgação. “Como historiador posso ter expectativas de como haverá de terminar este trabalho, mas só quando a investigação ficar concluída poderei revelar todos os detalhes do caminho que foi tomado!”, conclui o investigador do CIUCHT.