img_1787

Investigador de CIÊNCIAS participa em estimativa da população de ursos polares de região remota da Gronelândia

João Carlos Silva
Artigo, Biologia, Estatísticas13 abril, 2026

Tiago André Marques, professor da Faculdade de Ciências (CIÊNCIAS ULisboa) e investigador do Centro de Estatística e Aplicações (CEAUL) da Universidade de Lisboa, participa em estudo publicado em março que recorre a levantamentos aéreos para apresentar a primeira estimativa da população de ursos polares do leste da Gronelândia, uma das regiões mais remotas e menos estudadas do Ártico.

Os resultados apontam para uma população estimada de 2.275 ursos polares, revelando um número significativo de indivíduos para uma espécie classificada como vulnerável e altamente dependente do gelo marinho.

Grupo de três ursos polares a saírem da água.

Os ursos polares (Ursus maritimus) estão atualmente distribuídos por cerca de 20 subpopulações reconhecidas a nível internacional, espalhadas pelo Ártico. O isolamento extremo do leste da Gronelândia tinha impedido até agora a realização de campanhas de monitorização da população de ursos da região. Fonte: Tiago A. Marques

O trabalho, liderado por investigadores da Universidade de Washington e publicado o mês passado na revista científica Endangered Species Research, constitui a primeira amostragem detalhada desta subpopulação, até agora nunca quantificada.

Esta população de ursos polares é a última para a qual não se sabia a estimativa da sua abundância e o objetivo deste projeto era precisamente realizar uma amostragem que permitisse responder a essa questão”, destaca Tiago Marques, que é também investigador na Universidade de St Andrews, na Escócia.

A realização de campanhas de monitorização no leste da Gronelândia tem até aqui sido limitada pelo isolamento extremo da região – composta por 1,5 milhões de Km² de gelo marinho, por condições meteorológicas adversas e pela complexidade logística de levar a cabo operações no terreno.

img_1933-foto-2

Entre março e maio de 2023, os investigadores realizaram 106 horas de voo que permitiram avistar um total de 108 indivíduos, recolhendo os dados necessários para a análise estatística. Fonte: Tiago A. Marques

Para obter dados robustos e representativos, a equipa realizou mais de 15.000 Km de transectos em esforço – percursos ao longo dos quais se contam e registam ocorrências do objeto em estudo, totalizando 106 horas de voo ao longo de 26 dias, entre março e maio de 2023. Durante estes voos foram avistados 84 grupos de ursos, num total de 108 indivíduos, permitindo recolher dados essenciais para a análise.

De seguida, para calcular a abundância total da população a partir destes dados, foi aplicado um método de ecologia de campo chamado amostragem por distâncias, que na prática consistiu em estimar os ursos na área, com base no conjunto de percursos de voo predeterminados e nas distâncias registadas aos animais avistados.

img_1905

Tiago André Marques é professor do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS ULisboa) e investigador do Centro de Estatística e Aplicações (CEAUL) e da Universidade de St Andrews, na Escócia. Fonte: Tiago A. Marques

Os ursos polares estão atualmente distribuídos por cerca de 20 subpopulações reconhecidas a nível internacional, espalhadas pelo Ártico. No entanto, nem todas estão igualmente estudadas, existindo ainda lacunas significativas no conhecimento científico sobre várias destas subpopulações.

Esta nova estimativa contribui para melhorar a compreensão global do estado da espécie, sendo que trabalhos futuros irão articular esta informação com dados sobre movimentos, sobrevivência e reprodução, permitindo uma visão mais completa da dinâmica populacional e da resiliência face às alterações climáticas.

Dependentes do gelo para caçar focas – a sua principal fonte de alimento – estes animais enfrentam um futuro incerto à medida que o seu habitat diminui, levantando preocupações sobre a sua capacidade de adaptação.

Não se sabe o que vai ocorrer na ausência de gelo”, alerta Tiago Marques, sublinhando a necessidade de aprofundar o conhecimento científico sobre os impactos das alterações climáticas nos ursos desta região remota.

Comunicados

Dia Aberto: “Consigo ser feliz em todas estas áreas científicas, mas vou ter de escolher uma”.