Rochas com cerca de 340 milhões de anos foram reconhecidas como Geossítio de Interesse Nacional. O reconhecimento resulta de mais de duas décadas de investigação de Ciências ULisboa e da Universidade de Évora.

Ícaro Silva, de Ciências ULisboa: “Os Migmatitos do Rio Almansor são uma janela de informação muito importante”

Ícaro Silva, docente do Departamento de Ciências da Terra e Energia de Ciências ULisboa
Há cerca de 340 milhões de anos, muito antes da configuração atual dos continentes, a região onde hoje se encontra Montemor-o-Novo era palco de profundas transformações geológicas. No Rio Almansor, ficaram preservadas algumas das marcas desse passado. Os Migmatitos do Rio Almansor foram reconhecidos como Geossítio de Interesse Nacional e integrados no Inventário Nacional de Património Geológico, num reconhecimento que destaca a importância científica, educativa e patrimonial deste afloramento.
Para Ícaro Silva, docente do Departamento de Ciências da Terra e Energia de Ciências ULisboa, estes afloramentos são “uma janela de informação muito importante” para compreender os fenómenos de formação da crosta continental em ambiente orogénico.
"Os Migmatitos do Rio Almansor foram reconhecidos como Geossítio de Interesse Nacional e integrados no Inventário Nacional de Património Geológico, num reconhecimento que destaca a importância científica, educativa e patrimonial deste afloramento."
Uma “sopa da pedra” com 340 milhões de anos
Mas o que são, afinal, migmatitos? “Os migmatitos são aquelas rochas que se encontram na fronteira entre as rochas metamórficas […] e as rochas magmáticas”, explica Ícaro Silva. A sua formação está associada ao aumento drástico da temperatura na crosta, o que provocou alterações profundas nas rochas originais e, posteriormente, processos de fusão seletiva ou parcial. O resultado é uma rocha com uma aparência muito particular. Para a explicar de forma simples, o investigador compara os migmatitos a uma “sopa da pedra”, em que o material fundido, de aspeto granítico, envolve fragmentos de rocha que resistiram à fusão.
“Os migmatitos são aquelas rochas que se encontram na fronteira entre as rochas metamórficas […] e as rochas magmáticas”,
No tramo do Rio Almansor conhecido por Vale Paraíso, estas estruturas encontram-se excecionalmente preservadas, permitindo observar características dos migmatitos no seu local de formação. O afloramento apresenta também valor paisagístico e patrimonial, reforçando a sua importância científica e didática. É precisamente esta preservação que permite estudar uma parte importante da história geológica da Terra. Segundo Ícaro Silva, “há cerca de 340 milhões de anos, no período Carbónico, estas rochas foram formadas por processos de fusão parcial a temperaturas na ordem dos 800 ºC e em relativa baixa profundidade (11-14 Km)”. A formação destas rochas ocorreu num período marcado pela colisão entre os continentes Gondwana e Laurussia, que viria a contribuir para a formação do supercontinente Pangeia e da cadeia montanhosa Varisca.
As condições registadas nos migmatitos são particularmente relevantes para compreender como se forma a crosta continental. A existência de temperaturas muito elevadas a uma profundidade relativamente reduzida durante um período prolongado constitui, nas palavras do investigador, “um caso de estudo que altera a nossa perceção de como se forma a crosta num regime de colisão continental”.

As condições registadas nos migmatitos são particularmente relevantes para compreender como se forma a crosta continental.
Da investigação à valorização do território
A classificação agora atribuída é o resultado de mais de duas décadas de investigação desenvolvida por equipas de Ciências ULisboa e da Universidade de Évora, mas também de um trabalho continuado de formação e divulgação científica. Ao longo dos últimos 20 anos, os Migmatitos do Rio Almansor e outras zonas do rio têm sido palco de atividades dirigidas a estudantes, professores e comunidade. Entre as iniciativas desenvolvidas esteve o projeto “A Escola e o Rio”, que envolveu alunos do 2.º ciclo do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Novo em atividades que cruzavam Ciências e Arte. Para Ícaro Silva, a investigação científica não deve ficar limitada à comunidade académica. “Todos os cientistas em algum momento da sua vida, deveriam sentir a chamada para divulgar a ciência na comunidade”, afirma. “É a melhor maneira de valorizar e dar a conhecer o nosso trabalho, atraindo assim novos talentos para as ciências”.
A classificação resulta do Protocolo de Colaboração celebrado em 2024 entre a Ciências ULisboa, a Universidade de Évora e o Município de Montemor-o-Novo, que tem promovido a inventariação, valorização e divulgação do património geológico do concelho. Para o investigador, esta aproximação entre ciência, território e comunidade é também uma forma de “contribuir para a literacia científica”.

A classificação agora atribuída é o resultado de mais de duas décadas de investigação desenvolvida por equipas de Ciências ULisboa e da Universidade de Évora, mas também de um trabalho continuado de formação e divulgação científica.
O reconhecimento dos Migmatitos do Rio Almansor representa, assim, um novo passo na valorização e preservação deste património natural, aproximando-o das escolas, dos estudantes e da comunidade. Para Ícaro Silva, é também “o início de um processo mais abrangente e mais ambicioso”, abrindo caminho a novas iniciativas de valorização deste património geológico.