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Erasmus: manual de sobrevivência para quem já foi ou pensa ir

Hugo Séneca
estudantes12 fevereiro, 2026

Qualquer que seja o destino, é em dezembro que a aventura do programa Erasmus começa a tomar forma. É no último mês de cada ano que os estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) que pretendem estudar noutros países ao abrigo do programa europeu têm de se inscrever na plataforma Fénix para garantir a colocação nas vagas disponibilizadas para cada um dos dois semestres letivos. Estejam ou não inscritos, todos os alunos podem preparar-se para os principais desafios logísticos e pessoais em sessões de esclarecimento que costumam ocorrer em novembro, março e abril. Além de terem como objetivo mitigar taxas de desistência e receios de última hora, estas sessões servem ainda para que os alunos que ainda não se inscreveram possam tomar uma decisão mais ponderada.

Os períodos de estudo no estrangeiro variam consoante os calendários definidos por cada faculdade de acolhimento: o arranque do primeiro semestre varia entre o final de agosto e outubro, enquanto o segundo semestre letivo tem início em janeiro, mas também pode ocorrer nos meses seguintes consoante a instituição. Sendo uma decisão capaz de mudar uma vida, o embarque no Erasmus, pode prestar-se a hesitações, dificuldades logísticas e financeiras ou apenas expectativas erróneas – e por isso aconselha-se a preparação prévia. E é esse processo que decisão que este “manual de sobrevivência” pretende facilitar com as seguintes 14 questões.


1- Será que me posso candidatar ao programa Erasmus?

2- Que apoios financeiros são disponibilizados a quem vai de Erasmus?

3- Estágios, semestres de estudo ou programas intensivos… afinal qual a oferta do Erasmus?

4- Posso escolher qualquer faculdade da UE para fazer o Erasmus?

5- Faz sentido escolher a Universidade de destino devido à cidade em que se encontra?

6- E se não conseguir arranjar um quarto ou uma casa para ficar durante o Erasmus?

7- Não sei búlgaro ou grego… o Erasmus é só para quem quer aulas em inglês?

8- Será que o Erasmus vai prejudicar o meu percurso académico?

9- É normal sentir medo?

10- Como é que Ciências ULisboa acompanha os alunos de Erasmus?

11- E se algo corre mal ou for mal recebido?

12- Como garanto que as notas do Erasmus passam para a faculdade portuguesa?

13- Dá para ter mais que um semestre no Erasmus?

14- Que cidade escolho para fazer o Erasmus?

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1- Será que me posso candidatar ao programa Erasmus?

Qualquer estudante da UE pode candidatar-se às diferentes vertentes do programa Erasmus, mas na realidade há uns quantos desafios a superar. Especialmente, quando se fazem contas a custos e orçamento disponível. “Apesar do crescente custo de vida, têm surgido novos apoios para quem quer fazer o Erasmus. Grande parte das desistências deve-se a questões financeiras, ainda que também haja situações relacionadas com incompatibilidades académicas”, refere Rita Fortunato, técnica do Gabinete de Mobilidade e Acolhimento Ciências ULisboa.

2- Que apoios financeiros são disponibilizados a quem vai de Erasmus?

Atualmente, os alunos que pretendem estudar em faculdades da UE ao abrigo do Erasmus podem beneficiar de três escalões de apoio que variam consoante os países de destino. Para países com menor custo de vida, o apoio mensal está fixado em €350 acrescidos de custo de viagem; para países com custos de vida médio serão €400 mensais acrescidos da viagem; e para países com elevado custo de vida o valor ascende a €450 mensais acrescidos de viagem. Quem envereda pela modalidade de estágio pode tirar partido dos três escalões, mas com valores diferentes: €500 e custo de viagem para o escalão mais baixo; €550 mais viagem no intermédio; e 600€ mais viagem para o escalão mais elevado. Além do complemento de mobilidade, os bolseiros dos serviços de ação social da Universidade de Lisboa (ULisboa) têm direito a complemento (Top-Up) de €250 mensais.

“Há alunos que se autoexcluem por razões financeiras, mas há também casos de desistência relacionados com o facto de os candidatos virem de famílias que poderão não estar cientes da importância de aproveitar um programa como o Erasmus”, sublinha Cláudio Pina Fernandes, coordenador do Gabinete de Apoio Psicológico (GAPsi) de Ciências ULisboa.

O responsável do GAPSI refere ainda que programas como o Erasmus tendem a registar igualmente uma sub-representação de estudantes que têm necessidades específicas ou que estão duplamente deslocados (exemplo: alunos de outros locais do País que solicitam a ida para Erasmus enquanto estudam em Lisboa). O mesmo sucede em grupos com orientações religiosas, culturais ou até sexuais que são diferentes das predominantes.

3- Estágios, semestres de estudo ou programas intensivos… afinal qual a oferta do Erasmus?

Além de um semestre de estudo, o Erasmus também contempla estágios de dois a 12 meses e Programas Intensivos Mistos que, geralmente, duram apenas cinco dias úteis, mas podem valer créditos académicos. A modalidade que dura um semestre é a mais conhecida e aplica-se a alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Em contrapartida, os estágios já se prestam mais à realização da componente prática de uma dissertação e ao início da atividade profissional. “Os estágios podem ser feitos em universidades, organizações não-governamentais, laboratórios, empresas ou institutos de investigação científica”, acrescenta Rita Fortunato. Estas são apenas as três modalidades mais conhecidas. O programa Erasmus conta ainda com muitas outras opções para quem pretende ter experiências no estrangeiro.

4- Posso escolher qualquer faculdade da UE para fazer o Erasmus?

Não. O estudante apenas poderá escolher faculdades ou universidades que têm acordos com a faculdade ou a universidade em que estuda em Portugal. “Cada um desses acordos entre faculdades define, para cada área de estudo, um número de vagas que pode ser preenchido por alunos de Erasmus. Geralmente, estas vagas são limitadas e exigem seriação”, explica Rita Fortunato. No formulário de inscrição, cada estudante tem direito a escolher quatro opções, mas “geralmente, os alunos não desistem quando são colocados na segunda, terceira ou quarta opções”, acrescenta Rita Fortunato.

5- Faz sentido escolher a Universidade de destino devido à cidade em que se encontra?

São várias as razões que podem determinar o destino escolhido para "fazer Erasmus". Os cursos que a universidade dessa cidade leciona deverão ser tidos em conta se a escolha der prioridade ao percurso académico. No caso de o objetivo primordial passar pela experiência pessoal, já fará sentido escolher a cidade devido ao estilo de vida, às diferenças culturais, ao entretenimento e às atrações monumentais, à presença de uma determinada indústria, ou a uma relação pessoal ou familiar que vem do passado. “Por vezes, a escolha da cidade também é influenciada por alunos que já frequentaram o programa e contam as suas experiências aos novos candidatos do Erasmus”, refere Rita Fortunato.

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6- E se não conseguir arranjar um quarto ou uma casa para ficar durante o Erasmus?

O alojamento é crucial – e pode acrescentar doses de drama pouco recomendáveis até ser resolvido. São conhecidos casos de desistência, mas também há registo de estudantes defraudados com os alojamentos que alugaram à distância e, nos casos mais graves, situações de burla. “A procura de alojamento pode começar pelas páginas disponibilizadas pelas Universidades e pelas residências universitárias. Caso não haja esse tipo de oferta, então, há que seguir para fora do âmbito universitário”, refere Rita Fortunato. Há estratagemas que podem ajudar a encontrar um teto em cidades com escassez de alojamento: o arrendamento de apartamentos ou casas por um grupo de alunos são opções a ter em conta; a troca de informação com antigos alunos também pode ajudar. “A procura de alojamento deve ser feita com tempo. Caso contrário, o estudante arrisca-se a passar por uma grande ansiedade”, acrescenta Cláudio Pina Fernandes.

7- Não sei búlgaro ou grego… o Erasmus é só para quem quer aulas em inglês?

O Erasmus não está limitado às aulas em inglês – até porque, ao nível da licenciatura, há várias universidades que fazem questão de lecionar quase todas as aulas nas línguas maternas. “Há alunos que querem aprender idiomas e outros para quem esse objetivo é secundário, e, por isso, preferem um ensino em inglês”, responde Rita Fortunato. Perante a variedade linguística dos 27 estados-membros, o candidato a Erasmus deverá tentar saber que idiomas estão disponíveis nas aulas da faculdade de destino e verificar se é necessário certificado de habilitações linguísticas. A familiaridade ou a experiência com um idioma são fatores importantes para decidir entre aulas em inglês ou nas línguas maternas dos diferentes países. Mais uma vez, é o bom-senso que ajuda a decidir, recorda Cláudio Pina Fernandes: “Se uma pessoa nada sabe de grego, possivelmente, vai ter dificuldade em aprender, num só semestre, o idioma e perceber aulas... em grego”.

8- Será que o Erasmus vai prejudicar o meu percurso académico?

É natural que a adaptação a um país estrangeiro possa ter algum reflexo nas notas, mas não tem de ser forçosamente assim. Como sempre, há que evitar os extremos: “Os alunos devem ter a consciência daquilo que querem valorizar durante uma certa fase da vida. Pode ser legítimo estar mais focado na parte académica, mas também poderá fazer sentido ter determinadas experiências culturais e aceitar que as notas podem ressentir-se um pouco. A minha perceção diz que a maioria dos alunos procura um equilíbrio entre experiência académica e experiência cultural e pessoal”, refere Cláudio Pina Fernandes.

9- É normal sentir medo?

Além de uma possível oscilação nas notas, também a timidez, a dificuldade em dominar outros idiomas (em especial o inglês), ou o medo de ficar isolado e não fazer amigos figuram na lista de receios que, por vezes, assolam quem se prepara para estudar noutro país da UE. “Mas a maioria dos relatos de antigos alunos de Erasmus revela experiências positivas e enriquecedoras. Os alunos percebem que há algo de relevante para o crescimento e a autonomia individual quando conseguem resolver as diferentes situações com que deparam (no estrangeiro)”, explica Cláudio Pina Fernandes. “A ideia é que algo realmente mude nas vidas dos estudantes”, acrescenta o psicólogo. Estabelecer ligações com estudantes locais facilita na integração, mas é também comum os próprios alunos de Erasmus estabelecerem ligações enquanto estão no estrangeiro. Em alguns casos, as universidades disponibilizam ferramentas que facilitam a integração e as relações com outros alunos. Outra das opções passa, mais uma vez, por grupos ou associações de antigos alunos. Cláudio Pina Fernandes recorda ainda que Ciências ULisboa tem vindo a participar na iniciativa IDEM (sigla relativa a Inclusão, a Diversidade, e a Equidade em Mobilidade) que pretende fomentar a capacidade de tomada de decisão e a preparação psicológica; estratégias de vivência nos locais de destino; e retorno e fecho do processo.

10- Como é que Ciências ULisboa acompanha os alunos de Erasmus?

Ciências ULisboa disponibiliza apoios constantes tanto para alunos que vão estudar para fora como no acolhimento de alunos que vêm de fora para estudar na Faculdade. Tendo em conta que o período de inscrições decorre em dezembro, é realizado no final de novembro um “workshop” Sobre Tomada de Decisão e Gestão de Risco, que já contempla a preparação para as questões académicas, pessoais e logísticas e ajuda a evitar minimizar riscos associados a candidaturas menos bem ponderadas ou dificuldades de adaptação. Além deste primeiro momento de preparação, também há lugar a uma sessão de apoio e esclarecimento sobre Segurança Psicológica na Mobilidade que é desenhada pelos psicólogos do GAPsi. Esta sessão costuma ocorrer em março. Em abril, segue-se a sessão de Preparação da Mobilidade, que conta com o contributo de antigos estudantes de Ciências ULisboa que têm experiência em programas de mobilidade. Entre os serviços de apoio, constam o acompanhamento mais personalizado para alunos com Necessidades Educativas Especiais.

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11- E se algo corre mal ou for mal recebido?

Se um aluno de Erasmus for mal recebido dentro da universidade de acolhimento, então esse estabelecimento de ensino terá de providenciar os meios necessários para apresentação e averiguação de queixa. Fora da universidade, as leis comunitárias servem de principal referência: “Sendo cidadãos europeus, estes alunos têm os mesmos direitos civis e, por isso, têm de ser tratados da mesma forma que os estudantes que nasceram nos países de destino”, sublinha Rita Fortunato. Em caso de extravio ou roubo de documentos, equipamentos ou valores, todas as medidas a tomar são conhecidas: apresentação de queixa às autoridades locais, e consulados ou embaixadas portuguesas, pois o programa Erasmus e as instituições universitárias envolvidas serão alheias a esses casos. Nos serviços académicos, é também comum encontrar pequenos guias que ajudam alunos estrangeiros a conhecer situações menos recomendáveis de cada geografia.

12- Como garanto que as notas do Erasmus passam para a faculdade portuguesa?

Sem este detalhe, o Erasmus não seria um programa de sucesso. “Há um processo montado que permite integrar as notas obtidas no final do período Erasmus sem grandes burocracias ou procedimentos”, adianta Rita Fortunato.

13- Dá para ter mais que um semestre no Erasmus?

Sim. Cada aluno pode candidatar-se a dois semestres – consecutivos ou intercalados – por cada ciclo de estudos (licenciatura, mestrado e doutoramento) em universidades estrangeiras. “O Erasmus começa com uma duração de um semestre, mas o estudante pode sempre solicitar um segundo semestre. Esse cenário só se torna possível mediante a autorização da faculdade de origem e da faculdade de destino”, explica Rita Fortunato.

14- Que cidade escolho para fazer o Erasmus?

São várias as razões que podem determinar a escolha de uma cidade dentro da lista de universidades e faculdades que têm acordo com a instituição de origem. Os cursos que a universidade dessa cidade leciona deverão ser tidos em conta se a escolha der prioridade ao percurso académico. No caso de o objetivo primordial passar pela experiência pessoal, já fará sentido escolher a cidade devido ao estilo de vida, às diferenças culturais, ao entretenimento e às atrações monumentais, à presença de uma determinada indústria, ou a uma relação pessoal ou familiar que vem do passado. “Por vezes, a escolha da cidade também é influenciada por alunos que já frequentaram o programa e contam as suas experiências aos novos candidatos do Erasmus”, refere Rita Fortunato.

Cláudio Pina Fernandes e Rita Fortunato

Cláudio Pina Fernandes e Rita Fortunato dão as sugestões e recomendações neste "manual de sobrevivência"

Comunicados

Irene Fonseca distinguida com o Prémio Universidade de Lisboa 2024.