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“É importante falar de forma descontraída e tirar a carga emocional negativa sobre a matemática”

Hugo Séneca
Matemática28 abril, 2026

Com o estatuto de ilustre desconhecido remetido ao passado e devidamente embalado pelo sucesso nas redes sociais, Gabriel Guimarães visitou, na semana passada, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) para mais uma ação de divulgação. Na sessão organizada pelo projeto Ciências em Harmonia, predominavam estudantes já conhecedores do jovem nortenho que, em tenra idade, foi confrontado por um professor que lhe disse que não percebia nada de matemática e o levou a estudar “obsessivamente” até tirar licenciatura e mestrado na disciplina – e passar, já em adulto, a fazer carreira como comunicador de matemática com livros publicados e mais de 250 mil seguidores nas redes sociais.

Na sessão "Comunicação em Ciência na Era da Desinformação", Gabriel Guimarães enfrentou de frente um certo descrédito que parece acossar a ciência e demonstrou como algumas técnicas que jogam com tensão, resposta a questões práticas e adaptação ao destinatário fazem a diferença na hora de passar a mensagem.

Para que não restassem dúvidas, fez ver que em cada matemático há também um coração.  E ilustrou o poder do sentimento ao lembrar Ignaz Semmelweis (1818-1865), médico húngaro que acabou no opróbrio e morreu espancado num manicómio, depois de afrontar a classe médica por não lavar as mãos e contribuir para um significativo número de mortes de mulheres durante trabalhos de parto.

Apesar de ter revelado resultados auspiciosos com as mais elementares práticas de higiene, Semmelweis não logrou uma explicação científica – mas essa não foi a única falha, recorda Gabriel Guimarães: “Ignaz Semmelweis não soube comunicar da forma mais empática, além de não ter uma explicação científica”. E foi com a lição da empatia devidamente consolidada que o jovem comunicador deu a conhecer técnicas que facilitam a vida a quem trabalha no dia-a-dia com a complexidade - e deu a entrevista que se segue.

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Gabriel Guimarães lembrou a importância de gerar empatia e adaptar o discurso aos destinatários na hora de divulgar temas científicos

As suas palestras e vídeos nas redes sociais falam de matemática, mas não será correto dizer que está também a lidar com emoções?

Sim, claro. Esse é um dos principais objetivos. Estamos a comunicar, estamos a falar com pessoas e as pessoas são seres multidimensionais. Portanto, se queremos comunicar de forma eficaz, temos de ter em conta as emoções que estamos a provocar nas pessoas, usar o tom de voz apropriado, e é superimportante falar de uma forma descontraída para tirar este peso e esta carga emocional muito negativa que as pessoas ainda têm sobre a matemática.

Há técnicas conhecidas para alcançar esses objetivos?

Sim. Portanto, dei a conhecer técnicas (na passagem por Ciências ULisboa) que partem de uma pergunta provocadora, por exemplo, e depois desenrolam a história com alguma tensão para prender a curiosidade das pessoas e, no final, terminam, então, com um desfecho em que as pessoas ficam com a curiosidade satisfeita.

"O meu papel é cativar a atenção das pessoas e fazer com que queiram aprender mais. O meu objetivo não é ensiná-las, não é prepará-las para um exame, não é formá-las – é mesmo despertar a curiosidade".

Concorda que não há nada que seja demasiado complexo para ser comunicado?

Acredito que sim, mas claro que se for um assunto extremamente complexo e com muitas camadas, e se nós não tivermos muito tempo, vamos ter de fazer alguma simplificação. Mas tudo parte do mesmo princípio: se queremos que as pessoas prestem atenção e fiquem a perceber, temos de usar determinadas estratégias para realmente prender a atenção das pessoas, sobretudo numa era em que é cada vez mais difícil porque há muita concorrência, mas acredito que tudo pode ser comunicado. Trabalho muito com redes sociais e nós temos de ter noção de que, se calhar, há milhares de vídeos a serem colocados na plataforma a cada segundo. As pessoas fazem aquele scroll (as corrediças que permitem deslizar a página da Internet para baixo ou para cima) muito rapidamente. Portanto se não conseguir chamar a atenção para verem o meu vídeo logo nos primeiros segundos, as pessoas vão passá-lo à frente e ver outro. Há concorrência nesse sentido, de haver muitos conteúdos.

 

Consegue dar um exemplo de uma matéria de matemática mais complicada de explicar ao grande público?

É muito subjetivo, mas no meu caso,talvez tenha sido, por exemplo, geometria diferencial ou algo desse género. Se quisesse falar sobre o tema, teria de começar por captar a atenção das pessoas e tentar relacionar a geometria diferencial com algo do dia-a-dia, com um objeto geométrico com que estejam familiarizadas para tentar materializar, no fundo, a matemática.

Presume-se que não chega para substituir as aulas…?

Não, não tem nada a ver. O meu papel enquanto comunicador é cativar a atenção das pessoas e fazer com que queiram aprender mais. O meu objetivo não é ensiná-las, não é prepará-las para um exame, não é formá-las – é mesmo despertar a curiosidade. Claro que num vídeo de poucos segundos, não vou conseguir transmitir nenhum ensinamento profundo. Portanto, comunicação e educação estão, obviamente, interligadas, mas uma não substitui a outra.

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Gabriel Guimarães (à direita) em conversa com uma das alunas que marcaram presença na sessão sobre "Comunicação em Ciência na Era da Desinformação"

E os professores como reagem? Não há críticas nem desconfiança sobre o seu trabalho?

Realmente, cheguei a ter esse receio de que houvesse pessoas que achassem que pudesse estar, de alguma forma, a ridicularizar ou a simplificar demasiado a matemática, mas a experiência mostra-me que não é assim. Quando estava a estudar, já fazia esses vídeos, e tinha imenso receio de que os meus professores descobrissem o meu canal, e achassem que estava a tratar a matemática de uma forma menos correta… mas, na verdade, as reações foram sempre opostas às que julgava que ia ter, foram sempre reações superpositivas. Muitas vezes temos essa ideia de que os professores catedráticos são uns monstros que só estudam, mas são pessoas como nós que também gostam de se divertir e de entretenimento… acho que é um estereótipo um bocadinho injusto.

Portanto nunca teve reações negativas…

Desses professores, não… tive reações negativas por outros motivos, mas a nível da ciência, não.

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Apresentação de exercícios práticos de comunicação de ciência durante a sessão protagonizada por Gabriel Guimarães

É um comunicador de ciência… não tem de pretensões de ser um matemático?

Sim, descrevo-me como comunicador de ciência. Passei muitos anos a estudar matemática; matemática pura é uma área que adoro, mas gosto muito mais de comunicar e de pegar em matemática que já existe e torná-la mais acessível para as pessoas do que propriamente estar a investigar e a descobrir coisas novas. Quando estava na licenciatura e no mestrado, estava muito indeciso sobre o que fazer, porque gostava muito das duas áreas, mas optei por uma área de comunicação, porque acho que é algo que gosto mais. Gosto muito de estudar e de saber coisas novas, mas gosto ainda mais de pegar naquilo que já existe e comunicá-lo, em vez de estar à procura de coisas novas.

"É preciso terem atenção o que é que os alunos gostam, o que é que os alunos consomem, e a forma como vivem para conseguirmos comunicar e ensinar da melhor maneira"

Como é que perspetiva a evolução da carreira de comunicador? Tendo em conta a pressão para gerar atenção nos primeiros segundo, será que é possível adicionar novas camadas de complexidade nos conteúdos que produz?

Há várias plataformas e eu faço várias comunicações diferentes; tanto posso fazer workshops de uma hora e meia como faço vídeos de um minuto e meio… e também faço vídeos um bocadinho mais longos para o YouTube. A nível de carreira, e do futuro… sinceramente, não penso muito no futuro, porque acho que o mundo muda a uma velocidade demasiado rápida para fazer esse tipo de planos. Mesmo a nível das redes sociais, estão sempre a surgir redes sociais e tendências novas, e as pessoas, a uma determinada altura, gostam de uma coisa e depois já gostam de outra. Não faço realmente planos. Vejo o que é que funciona na altura e logo se vê.

Está a divulgar o poder da matemática, mas essa mesma matemática é também um papão que assusta muitas crianças e adolescentes. Estes conteúdos e experiências nas redes sociais não poderiam também ser úteis para repensar a forma como as aulas de matemática são lecionadas?

Sim, certas estratégias de comunicação seriam benéficas usadas em sala de aula… claro que é um ambiente mais sério, e há objetivos de aprendizagem concreta… portanto, não é possível transformar simplesmente a aula numa brincadeira. Ainda assim, há certas estratégias que as pessoas podem usar para comunicar de uma forma mais apelativa e mais eficiente, e assim os alunos acabam por aprender melhor, porque vão estar mais interessados, e a curiosidade vai ser despertada. E as pessoas não se podem esquecer que já existe isto cá fora, nas redes sociais. É preciso terem atenção o que é que os alunos gostam, o que é que os alunos consomem, e a forma como vivem para conseguirmos comunicar e ensinar da melhor maneira.

Comunicados

Prémios Científicos ULisboa/CGD distinguem oito investigadores de Ciências ULisboa.