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Dia do Mar: as novas rotas do conhecimento passam por Ciências ULisboa

Oceano8 maio, 2026

Os sumos com Spirulina e o molho de tomate com Fucus já tinham lugar assegurado na história das receitas inovadoras que usam algas e reforçaram ainda mais a fama ao servirem de aperitivo para o potencial de negócios e carreiras em análise no Dia do Mar, que se realizou na semana passada na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa). Entre programas de mestrados e doutoramentos, o evento serviu também de escaparate a 42 trabalhos de investigação. Os representantes do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) e do Instituto Dom Luiz (IDL) não faltaram à chamada e, por mais de uma vez, houve quem recordasse que o oceano também pode ser estudado com a ajuda da biologia, da ecologia, da química, da física, da geografia, da energia, do direito e da história, entre muitas outras disciplinas. A palestra de José Soares dos Santos, presidente da Fundação Oceano Azul e membro do Conselho de Administração do Grupo Jerónimo Martins, e um debate com especialistas que têm feito carreira sem se afastarem muito da costa ajudaram a confirmar que ainda é no mar que se encontram algumas das rotas diretas para chegar a novos mundos.  

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Ana Amorim, sobre o Dia do Mar: "Houve o objetivo de estabelecer uma ligação entre a Faculdade e a sociedade”

“A área do mar envolve enormes oportunidades, mas também desafios complexos, aos quais Ciências ULisboa tem toda a capacidade para dar resposta”, sublinhou Conceição Freitas, diretora de Ciências ULisboa, na abertura do evento. “O mar está ligado ao azul – à economia azul e ao carbono azul - mas também podíamos estender esta cor aos sectores onde estão os desafios. Podemos referir a sustentabilidade azul e a governança azul. Lidamos com temas como a poluição, alterações climáticas, perda da biodiversidade, recursos naturais, biológicos ou geológicos, aquacultura, energias renováveis ou erosão costeira”, descreveu ainda a diretora de Ciências ULisboa. 

Há literalmente um mar de possibilidades a perfilar-se no horizonte – e José Soares dos Santos haveria de dar o mote, durante o evento, com um número elucidativo das vantagens de viver num País que fez fama à beira-mar plantado. “Em 2023, o valor global do Oceano, retirando o transporte de produtos petrolíferos, foi de 2,2 biliões de dólares. Se começarmos a retirar o turismo e os portos e nos focarmos no mercado que vem diretamente do oceano e no desenvolvimento da biotecnologia, estamos a falar de um mercado que vale 750 mil milhões de dólares. Estamos a falar do oceano como uma peça essencial da economia mundial”, referiu o presidente da Fundação Oceano Azul na visita à Faculdade onde se formou, para dar uma palestra durante o Dia do Mar.

Plateia do Dia do Mar

O Dia do Mar juntou investigadores, empresários e estudantes em busca de novas carreiras

É no encalço desse filão ainda submerso que seguem atualmente 31 alunos de mestrado e 11 alunos de doutoramento que apresentaram projetos de investigação em formato de póster por ocasião do Dia do Mar. Das propostas de trabalho constam temas variados como o estudo do comportamento de golfinhos ou a investigação sobre contaminantes derivados de plásticos na costa portuguesa; a gestão de stocks de sardinha e o transporte de carbono em zonas próximas de ilhas; os vórtices no sistema da corrente dos Açores ou os efeitos das ondas de calor no Mediterrâneo; o uso de sistemas hidrotermais como laboratórios naturais e também o declínio de biomassa de fitoplâncton na costa da Península Ibérica; a gestão equitativa do espaço marinho à luz do Tratado da Antártida ou efeitos de contaminantes derivados de plásticos em bivalves; e muitos outros temas que eventualmente haverão de abrir caminho a profissionais e empresários da próxima geração. 

Sendo uma conjugação de saberes e ciências, todos estes mestrados e doutoramentos lecionados em Ciências ULisboa não perdem de vista os números que prometem levar diferentes carreiras a bom porto – mesmo que sejam lecionados a alunos provenientes de licenciaturas diferentes das áreas da Biologia ou da Geologia, que costumam atuar como recrutadores mais plausíveis do sector do mar. Alguns mestrados e doutoramentos são coordenados por representantes de diferentes áreas do saber de Ciências ULisboa para garantir a interdisciplinaridade e o necessário equilíbrio entre a abrangência que permite dialogar com diferentes áreas e a especialidade que garante a possibilidade de fazer a diferença perante desafios concretos do dia-a-dia.    

Conceição Freitas

Conceição Freitas recordou a importância do mar para o desenvolvimento de novas vias de investigação

“O Dia do Mar foi preparado para dar a conhecer a oferta pedagógica de Ciências ULisboa junto da comunidade académica e também junto de representantes de empresas, organismos públicos ou organizações não governamentais. Houve o objetivo de estabelecer uma ligação entre a Faculdade e a sociedade e expor os principais desafios deste sector, sempre de acordo com o espírito da interdisciplinaridade”, responde Ana Amorim, professora de Ciências ULisboa e coordenadora do Mestrado em Ciências do Mar.  

Quem quiser passar da licenciatura para o segundo ciclo de ensino superior mantendo o mar em pano de fundo, tem pela frente quatro opções em Ciências ULisboa. Duas delas são exclusivamente dedicadas ao mar: Mestrado em Ciências do Mar inclui obrigatoriamente formação em três áreas científicas e o Mestrado em Ecologia Marinha oferece uma formação centrada na análise dos ambientes oceânicos e costeiros e das problemáticas que lhes estão associadas, privilegiando estratégias abrangentes e integradas de análise, avaliação e conservação dos ambientes marinhos. As outras duas opções - o Mestrado em Ciências Geofísicas e o Mestrado em Geologia - também incluem componentes ligados ao mar.

Seja no laboratório, numa sala em frente ao computador, ou nas saídas para o exterior do campus, há sempre uma importante componente prática. Num dos mestrados há mesmo a perspetiva de os alunos poderem participar num cruzeiro oceanográfico – mas não faltam atividades similares que prometem contrariar as rotinas nas várias disciplinas destes mestrados.

 “Há alunos que tiram um destes mestrados para seguir a via académica e prosseguir para um doutoramento, mas também há quem tire estes mestrados para seguir um caminho profissional"

“A formação em Ciências ULisboa permite que os alunos tenham conhecimento teórico e também façam trabalho em ligação com centros de investigação, investigadores e docentes. Além disso, os estudantes também podem tirar partido de parcerias estabelecidas com as instituições públicas que existem em Portugal, como o Instituto Hidrográfico ou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que interagem também com os temas de mestrado”, informa Susanne Tanner, professora do Departamento de Biologia de Ciências ULisboa e membro da Comissão de Coordenação do Mestrado em Ciências do Mar.

Romana Santos e Susanne Tanner

Romana Santos e Susanne Tanner deram a conhecer as opções que Ciências ULisboa reserva para doutoramentos e mestrados no sector do Mar

 “Há alunos que tiram um destes mestrados para seguir a via académica e prosseguir para um doutoramento, mas também há quem tire estes mestrados para seguir um caminho profissional dentro de empresas, institutos públicos ou organismos não governamentais”, sublinha a professora.  

Os temas dependem muito das questões apresentadas pelos alunos e há sempre a possibilidade de chegar ao mar através de outras áreas de estudo, mas quem quer dedicar-se à investigação em Ciências ULisboa depara-se com uma escolha em que predominam cinco temáticas de doutoramento diretamente relacionadas com o mar: Ciências do Mar; Biologia - especialidade Biologia Marinha e Aquacultura; Biologia e Ecologia das Alterações Climáticas - especialidade em Biologia e Ecologia Marinha; Ciências Geofísicas e da Geoinformação - especialidade de Oceanografia; e Geologia - especialidade em Geologia Marinha, Geologia Costeira. 

“Os doutoramentos envolvem, em muitos casos, uma forte componente de trabalho de campo, seja na recolha de organismos, seja na participação em cruzeiros oceanográficos. E também se viaja para divulgar o trabalho em conferências e trocar informação com colegas de outros países”, descreve Romana Santos, coordenadora do Doutoramento em Ciências do Mar e professora do Departamento de Biologia de Ciências ULisboa. “Claro que também há uma parte em que é necessário fazer chegar o nosso trabalho a todos, e a forma de o fazer é frente ao computador, a tratar os dados com rigor para depois os partilharmos através de artigos científicos que podem chegar a todo o mundo”, refere ainda a coordenadora dos Doutoramentos em Ciências do Mar.  

Tanto mestrados como doutoramentos podem contar com o apoio de laboratórios e investigadores sediados nos polos que MARE e IDL têm a operar em Ciências ULisboa.

“As divisões entre a parte biológica e a parte mais geológica são artificiais. Na realidade, os problemas que se encontram na Natureza não levam essas divisões em linha de conta"

“O MARE pode providenciar infraestruturas e capacidade técnica, além de professores que são investigadores e também investigadores que não são professores… e muitas vezes é através destes contactos que os alunos conhecem linhas de investigação que, por vezes, não surgem nas aulas. Estes alunos (de doutoramento e mestrado) também têm acesso a infraestruturas de outros polos do MARE que se encontram dispersos pelo País e, assim, podem fazer trabalhos em qualquer área de Portugal, incluindo as ilhas”, descreve Bernardo Duarte, coordenador do polo do MARE em Ciências ULisboa e professor do Departamento de Biologia. 

No imaginário de boa parte da população, o tema continua a ser associado a programas de TV que incidem especialmente na fauna e na flora, mas o estudo do mar não se limita às fronteiras da biologia. E é nesse ponto que um centro como o IDL dá o contributo para uma visão mais completa: “As divisões entre a parte biológica e a parte mais geológica são artificiais. Na realidade, os problemas que se encontram na Natureza não levam essas divisões em linha de conta. Ao largo do Cabo de São Vicente, há uma montanha submarina do tamanho do Monte Branco dos Alpes. Trata-se do chamado Banco Gorringe. As planícies abissais estão a cerca de cinco mil metros, mas o topo está só a cerca de 15 metros de profundidade. O facto de termos, em mar aberto, uma zona de muito pouca profundidade (no topo do Banco de Gorringe) cria condições para a ocorrência de ecossistemas muito particulares. A explicação da formação do Banco Gorringe é de natureza geológica e geofísica, mas tem implicações profundas do ponto de vista do funcionamento dos ecossistemas” exemplifica Filipe Rosas, coordenador do IDL e professor do Departamento de Ciências da Terra e Energia. 

É também pelo mar que Portugal pode voltar a afinar o posicionamento perante o mundo – e nesse ponto de vista, tanto negócios como pretensões soberanas precisam de cientistas e profissionais habilitados. José Soares do Santos aproveitou a participação no Dia do Mar para recordar que Portugal, se adicionar o território à atual Zona Económica Exclusiva, passa diretamente para o 20º lugar da tabela dos países com maior área soberana. Sendo auspiciosa, a classificação eventualmente poderá não ser melhorada com o projeto da Extensão da Plataforma Continental, devido a previsível recusa de várias nações que preferem que o mar não seja de ninguém, referiu ainda o presidente da Fundação Oceano Azul.  

Mesmo que nem tudo aconteça como desejado, José Soares dos Santos não hesitou em considerar Portugal como um dos países mais bem preparados para tirar partido do oceano. E para que esse desígnio tome o rumo certo, destacou dois desafios: um primeiro de âmbito político, que remete para necessidade de garantir “estabilidade” e alinhamento de vários fundos na mesma direção, além da “transparência” e mecanismos que permitam a partilha de conhecimento beneficiando os vários intervenientes; e um segundo desafio que está mais relacionado com a “simplificação de processos” que nalguns dos casos pode implicar “pareceres de 27 agências”.  

José Soares dos Santos

José Soares dos Santos deu a conhecer algumas das oportunidades que se encontram nos oceanos

“Apesar destes desafios, os investidores continuam a querer vir para Portugal”, referiu o empresário, sem deixar de usar os números para fazer um diagnóstico sobre as oportunidades de emprego no sector: “há pouco emprego, mas paga-se mais”, disse. “Temos uma oportunidade enorme para melhorar!”, referiu ainda.  

A mesa-redonda que fechou o dia haveria de voltar a apontar para a redescoberta do mar. Com o título “O Mar que nos sustenta: Ciência, sustentabilidade e inovação”, a sessão que reuniu vários especialistas prestou-se a elucidar os futuros profissionais sobre o que poderão, em breve, encontrar quando entrarem no sector.  

"Posso ter prazer em fazer uma coisa e sentir-me muito bem, mas… e se aquilo que estou a fazer não servir para nada?”

Miguel Miranda, rosto conhecido de Ciências ULisboa, antigo presidente do IPMA e atual diretor executivo do Centro Internacional de Investigação para o Atlântico (AIR-Centre - Atlantic International Research Centre) manteve fleumático estilo na moderação do debate que contou com a participação de Tiago Carriço, cartógrafo e Gestor de Desenvolvimento de Negócios na GeoXYZ;  Marco Alves, diretor executivo e Presidente do Conselho de Administração da WavEC; João Navalho, Presidente e fundador da NECTON; Catarina Grilo, Diretora de Conservação e Políticas da WWF Portugal; Anabela Oliveira, Investigadora de Geologia Marinha no Instituto Hidrográfico; e Ivone Figueiredo, Diretora do Departamento do Mar e Recursos Marinhos do IPMA.  

Pósteres de mestrado e doutoramento

O Dia do Mar também deu a conhecer 42 trabalhos de mestrado e doutoramento

No painel, foi possível descortinar o regresso “a casa” de antigos alunos que, por mais de uma vez, revelaram ter a lição bem estudada. A gestão de ecossistemas, o capitalismo de estado que elevou alguns países para o topo da geopolítica, o plano nacional para a produção de energia eólica, ou o desenvolvimento de gémeos digitais marcaram os momentos altos do debate – mas nenhum dos intervenientes se esqueceu de deixar uma mensagem para quem ainda está a tentar habilitar-se para poder lidar com o oceano. “É importante ter a capacidade de procurar o desconforto e ter capacidade para se adaptar, porque em qualquer organização onde trabalhemos vamos encontrar esse desconforto”, avisou Tiago Carriço.  

Fazer o que se gosta será sempre importante – mas é apenas parte do desafio, recordou Marco Alves: “Posso ter prazer em fazer uma coisa e sentir-me muito bem, mas… e se aquilo que estou a fazer não servir para nada?”.  

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O evento encerrou com uma mesa-redonda composta por vários especialistas do sector

A questão coloca-se em quase todas as profissões e ofícios e de algum modo tem implícita a recomendação deixada por Ivone Figueiredo: “Temos de ser humildes e ter vontade de trabalhar com os outros. Temos de ser bons no que fazemos, mas também saber falar com as pessoas que têm outras especialidades”.  

Por seu turno quem sai da Universidade não deve confundir o início com o fim do processo, recordou Catarina Grilo. “Temos de ter formação de base, mas temos de estar sempre disponíveis para continuar a aprender”. Uma lição que vale para todos os dias e em qualquer mar deste planeta. 

Comunicados

Prémios Científicos ULisboa/CGD distinguem oito investigadores de Ciências ULisboa.