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Como Paula Marques Figueiredo pretende criar uma nova metodologia para avaliação de falhas tectónicas

Hugo Séneca
Investigação12 janeiro, 2026

Qualquer semelhança entre o trabalho de detetive e os objetivos que Paula Marques Figueiredo definiu para o projeto Seismo-React vai além da mera coincidência. “Bem vistas as coisas, podemos dizer que este projeto pretende descobrir uns determinados vilões da sismicidade. Uso esta metáfora, porque se sabe que há falhas tectónicas antigas com tamanho suficiente para gerar grandes sismos, mas faltam-lhes os indicadores, normalmente, usados para saber se estão ativas e se ainda podem gerar esse tipo de sismos”, explica a investigadora do Instituto Dom Luiz (IDL).

Porque há sempre uma probabilidade de o mistério se transformar em ameaça, Paula Marques Figueiredo garantiu, em 2025, financiamento junto do programa Marie Skłodowska-Curie, Comissão Europeia, num valor de €207 mil, para desenvolver uma nova abordagem na investigação da sismicidade gerada em regiões que se encontram afastadas dos limites das placas tectónicas.

O projeto, que conta com a participação do Instituto de Geofísica Aplicada de Hanover, tem evoluído através da análise de LIDAR e recolha de amostras no sudoeste de Portugal. O término está fixado em Julho de 2027 – e se concretizar os objetivos propostos, é possível que a investigadora do IDL e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) venha mesmo a inscrever o nome nas metodologias de análise geológica da sismicidade.

Paula Marques Figueiredo

Paula Marques Figueiredo recebeu financiamento do programa Marie Skłodowska-Curie, da Comissão Europeia - DCI Ciências

“Este projeto pretende compreender melhor os perigos sísmicos de cada região ao mesmo tempo que procura encontrar formas de perceber se as diferentes falhas tectónicas estão ativas”, refere Paula Marques Figueiredo. “Nalguns casos, pode mesmo haver uma reapreciação de configurações que nos vai permitir concluir que, afinal, em determinado local existem duas ou três falhas ativas, em vez de apenas uma”, exemplifica a investigadora do IDL.

No imaginário dos leigos, há a ideia de que os grandes sismos surgem sempre nos locais em que placas contíguas geram pressões entre si. Essa ideia não estará forçosamente errada, mas pode não ser suficiente para explicar os sismos que ocorrem longe das zonas limítrofes. A boa notícia é que esta tipologia de sismos é rara – e a menos boa é que a raridade dificulta o estudo desses sismos. Sendo raros, os sismos que ocorrem longe das zonas limítrofes das placas revelam-se difíceis de detetar ou até de estudar, devido à passagem do tempo e à erosão dos indicadores que normalmente são precisos nestes estudos geológicos.

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Recolha de amostras para estudo geológico com tubos que evitam a exposição solar - Paula Marques Figueiredo

No caso do Seismo React, a escolha da geografia nada tem que ver com os encantos das costas alentejanas e algarvias: “No Sudoeste de Portugal, as falhas tectónicas são todas “intraplaca”, ou melhor, estão todas dentro da placa tectónica da Península Ibérica”, sublinha Paula Marques Figueiredo.

Para a investigadora, é um regresso a uma região onde já foi feliz no doutoramento e que, agora, volta ao roteiro de investigação com uma nova componente de recolha de amostras de material rochoso triturado, junto de falhas tectónicas, mediante o uso de tubos que evitam a exposição à luz solar. Em causa está a recolha da denominada “farinha de caixa de falha, que pode ser tão fina como a farinha e tão grosseira como a areia”.

“No Sudoeste de Portugal, as falhas tectónicas são todas “intraplaca”, ou melhor, estão todas dentro da placa tectónica da Península Ibérica”

Para colmatar a escassez de dados, o projeto Seismo React conta avançar rumo à identificação e datação de sismos ocorridos há milénios, combinando geologia, geofísica, geodesia, tecnologias de LIDAR, Espectroscopia de Ressonância Paramagnética Eletrónica (ESR) e Luminescência Opticamente Estimulada (OSL).

Paula Marques Figueiredo recorda que já houve, no passado, registo de sismos em falhas intraplacas que não se sabia estarem ativas. Caso o projeto Seismo React tenha sucesso na identificação de sismos e datação das amostras, ficam criadas as condições para o desenvolvimento de novas metodologias que permitirão avaliar, em diferentes regiões do Globo, se determinadas falhas tectónicas estão ativas. Até lá, todas questões vão dar ao sudoeste.

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