A fauna da Serra de Grândola voltou a surpreender os investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) com a descoberta de seis espécies de aranhas até hoje desconhecidas do mundo científico. A identificação das seis espécies surgiu no decurso de um projeto de amostragem que permitiu a recolha dos pequenos animais na estação de campo da Herdade da Ribeira Abaixo. A confirmação final da existência destas seis espécies desconhecidas acaba de ser anunciada após análises realizadas nos laboratórios que o Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C) tem a operar no Departamento de Biologia de Ciências ULisboa.

Como investigadores do CE3C descobriram seis espécies de aranhas desconhecidas na Herdade de Ribeira Abaixo

Miguel Sousa, Rui Rebelo e Pedro Cardoso num dos laboratórios usados para investigação do CE3C
"Temos a certeza de que são espécies que ainda não eram conhecidas e queremos continuar com a descrição científica de cada uma delas. É um processo que vai exigir tempo para medições pormenorizadas, desenhos científicos e comparações com outras espécies ou artigos científicos. Além disso, teremos ainda de escolher um espécime para o holótipo, que passa a atuar como principal referência para comparação com outros espécimes ou até espécies”, informa Pedro Cardoso, investigador do CE3C.
Duas das espécies pertencem ao género Dysdera; outras duas pertencem ao género Harpactea; há uma espécie classificada dentro do género Pelecopsis; e por fim, há ainda uma espécie que faz parte do género Scytodes. Os nomes científicos das “novas” espécies de aranhas deverão ser definidos durante os próximos tempos de estudo mais pormenorizado.

Imagem captada por lupa binocular que dá a conhecer detalhes das aranhas capturadas - Miguel Sousa
Os investigadores do CE3C admitem que a Serra de Grândola possa ter funcionado, ao longo do tempo, como uma ilha isolada que levou determinadas espécies a evoluírem de forma diferente de outras que têm origem comum, e que incluem espécies conhecidas no Algarve e na zona do Parque de Monsanto (em Lisboa).
"Nesta herdade encontramos todos os principais grupos de plantas e animais do Sudoeste do País. A descoberta destas seis espécies é incrível"
Esta e outras hipóteses de estudo terão ainda de ser confirmadas nos próximos tempos, admite Pedro Cardoso. “Estamos a estudar possíveis de fontes de financiamento. Acredito que, havendo recursos, é um trabalho para se fazer em dois anos”, acrescenta.
A Herdade é um laboratório!
A descoberta das seis espécies de aranhas só entrou agora na fase de divulgação, mas a captura já remonta a 2024 – e tem uma ligação direta com o projeto de Avaliação de Biodiversidade em Pequenas Escalas (BASS, na sigla em inglês), que pretende perceber como o microclima local afeta a biodiversidade e em particular pequenos organismos. Hoje, o projeto BASS conta com 16 locais de amostragem na Herdade da Ribeira Abaixo. Estes locais de amostragem estão equipados com sensores para medição de temperatura e humidade do solo, e armadilhas que permitem a captura de animais de diferentes espécies para estudo científico. E foi assim que foram recolhidas as aranhas que permitiram confirmar a existência de seis espécies que os cientistas ainda não conheciam.

Foto de trabalhos de campo na Herdade de Ribeira Abaixo - Fernando Ascensão
“Enquanto estação de campo ligada a uma faculdade, a Herdade de Ribeira Abaixo é um exemplo único no País. É um espaço que tem sido aproveitado para desenvolver investigação no âmbito de mestrados e doutoramentos”, descreve Rui Rebelo, professor de Ciências ULisboa, investigador do CE3C, e membro da Comissão de Gestão da estação de campo da Herdade de Ribeira Abaixo. “Nesta herdade encontramos todos os principais grupos de plantas e animais do Sudoeste do País. A descoberta destas seis espécies é incrível e é também um exemplo das oportunidades de investigação deste local”, acrescenta.
“Com estes pontos de amostragem ficamos em condições de recolher dados a longo prazo, que permitem que alunos e investigadores coloquem questões tirando partido da informação produzida, no passado, por outras pessoas"
O anúncio da descrição taxonómica de seis espécies de aranhas é apenas a faceta mais visível do potencial do BASS. “Com estes pontos de amostragem ficamos em condições de recolher dados a longo prazo, que permitem que alunos e investigadores coloquem questões tirando partido da informação produzida, no passado, por outras pessoas que também fizeram ali trabalhos”, descreve Fernando Ascensão, professor de Ciências ULisboa e investigador do CE3C.

A descrição detalhada das aranhas é feita com recurso a lupas binoculares
Depois de capturados pelos pontos de amostragem instalados pelo projeto BASS, os animais foram transportados diretamente da Serra de Grândola para os Laboratórios do CE3C, a fim de se proceder a uma análise pormenorizada à lupa. Tendo em conta que o maior dos espécimes estudados não terá mais de dois centímetros de comprimento tal missão exigiu acuidade visual – e constantes comparações com os registos conhecidos de outras espécies.
“Quando comecei a analisar cada uma das seis espécies de aranhas, não conseguia encontrar nada parecido na literatura taxonómica"
“Quando comecei a analisar cada uma das seis espécies de aranhas, não conseguia encontrar nada parecido na literatura taxonómica. Com o tempo fui ganhando experiência e falando com outros investigadores e comecei a perceber que estava perante espécies "novas"”, revela Miguel Sousa, aluno do Mestrado em Biologia da Conservação de Ciências ULisboa. “Há espécies parecidas com as aranhas que capturámos, mas estas revelam diferenças que podem estar relacionadas com a disposição dos olhos, as fieiras (que produzem as teias) ou as características das pernas”, acrescenta Miguel Sousa.

O trabalho de campo na Herdade da Ribeira Abaixo tirou partido dos pontos de amostragem do projeto BASS
Apesar das diferenças registadas nas outras partes do corpo, as boas práticas da aracnologia indicam que é através da comparação de órgãos reprodutores que se distingue, com maior grau de fiabilidade, as várias espécies de aranhas. Nos machos, esses órgãos são compostos por duas hastes na zona frontal que a gíria conhece como palpos. Nas fêmeas, os órgãos reprodutores encontram-se na zona ventral do abdómen e dão pelo nome de epigíneo.
Devido ao facto de a captura apenas ter garantido um conjunto de espécimes que são, na quase totalidade, machos, Miguel Sousa acabou por assumir a curiosa missão de descrever e comparar apenas a haste esquerda dos palpos, como mandam as convenções científicas aplicadas à descrição de aranhas. “Estamos a falar de detalhes ao nível das décimas de milímetro”, sublinha Pedro Cardoso.
O que se sabe das seis "novas" espécies de aranhas
Género Dysdera (10-15mm de tamanho)
Duas das "novas" espécies pertencem ao género Dysdera. Este género é conhecido por abarcar as vulgarmente conhecidas aranhas-de-tenaz que muitas vezes se alimentam apenas de bichos-de-conta. São mais robustas que as outras espécies capturadas e distinguem-se pelos tons avermelhados. Os palpos revelam algumas similaridades com espécies espanholas, sendo que a zona Mediterrânea (Sul da Europa e Norte de Africa) constitui o centro da diversidade do grupo.

Espécime do género dysdera, que foi capturado na Herdade de Ribeira Abaixo - Miguel Sousa
Género Harpactea (8-10mm)
Nas seis "novas" espécies, figuram duas pertencentes ao género Harpactea. São mais pequenas e escuras que as do género Dysdera – e são também mais elegantes, apesar de pertencerem à mesma família. Vêm juntar-se a nove outras espécies exclusivamente conhecidas no nosso País.

Imagem de espécime do género Harpactea - Miguel Sousa
Género Scytodes (4-5mm)
Entre os animais capturados, há um pertencente ao género Scytodes e que, por isso, tem como traço distintivo o facto de cuspir teia com veneno para aprisionar as presas que caça. A cabeça é especialmente robusta devido aos músculos que lhe permitem fazer uso desta sofisticada “arma”, que é o mecanismo único que inspirou o homem-aranha. De resto, é essa característica que está na origem do nome de aranha cuspideira que costuma ser usado vulgarmente. Os espécimes capturados distinguem-se por terem coloração e formato parecidos com a espécie Scytodes thoracica, mas apresentam palpos muito similares aos da espécie Scytodes velutina. Estas duas últimas espécies já eram conhecidas no País.

Espécime do género Scytodes - Miguel Sousa
Género Pelecopsis (2-3mm)
A amostragem permitiu ainda recolher espécimes que facilmente se distinguem como pertencentes ao género Pelecopsis. Conta com estruturas cefálicas que são típicas das espécies que vivem e atuam como caçadoras furtivas na manta morta. Aparentemente, as espécies mais parecidas encontram-se nas serras algarvias e na zona do parque de Monsanto, em Lisboa.

Espécime do género Pelecopsis - Miguel Sousa
Principais participações nos media
Reveja as notícias sobre o tema
- Descobertas seis novas aranhas em Grândola, Ambiente Magazine Online, 21/04/2026
- Cientistas descobrem seis novas espécies de aranhas no Alentejo, Sapo Online - 24 Notícias Online, 19/04/2026
- Seis novas espécies de aranhas descobertas no Alentejo, Tribuna Alentejo Online, 19/04/2026
- Cientistas descobrem seis novas espécies de aranhas no Alentejo, Tv Online Canal Alentejo, 19/04/2026
- Seis novas espécies de aranhas descobertas no Alentejo, Público Online, 18/04/2026
- Investigadores descobrem seis novas espécies de aranhas em Grândola, iPress Journal Online, 17/04/2026
- Aranha que inspirou Homem-Aranha entre 6 espécies encontradas no Alentejo, Notícias ao Minuto Online, 17 17/04/2026
- Alentejo revela novas espécies: aranha “prima” do Homem-Aranha descoberta na região, Rádio Pax Online, 17/04/2026
- Pedro Cardoso: “Foi uma surpresa encontrarmos seis novas espécies de aranhas em apenas quatro dias”, Wilder Online, 17/04/2026
- Investigadores de CIÊNCIAS descobrem seis novas espécies de aranhas, Agroportal Online, 16/04/2026
- Seis espécies desconhecidas de aranhas identificadas na Serra de Grândola, Alentejo Ilustrado Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha é uma de seis novas espécies descobertas no Alentejo, CNN Portugal Online, 16/04/2026
- Aranha semelhante à que inspirou o "Homem-Aranha" é descoberta no Alentejo, Conta Lá Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha é uma de seis novas espécies descobertas no Alentejo, Correio da Manhã Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha descoberta no Alentejo, Digital Online (O), 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha descoberta no Alentejo, Expresso Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha é uma de seis novas espécies descobertas no Alentejo, Green Savers Online, 16/04/2026
- Descoberta em Portugal aranha do “Homem-Aranha” (cospe veneno para caçar), Notícias de Coimbra Online, 16/04/2026
- Descobertas no Alentejo aranhas desconhecidas — uma pertence ao grupo que inspirou o Homem-Aranha, Renascença Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha é uma de seis novas espécies descobertas no Alentejo, Jornal de Notícias Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha é uma de seis novas espécies descobertas no Alentejo, Rádio Campanário Online, 16/04/2026
- Aranha do género que inspirou Homem-Aranha é uma de seis novas espécies descobertas no Alentejo, TVI Online, 16/04/2026