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Como a estatística ajuda a prever secas a partir do transporte de humidade

Hugo Séneca
Matemática18 fevereiro, 2026

Portugal à beira mar plantado é bem mais que uma descrição turística. No caso da humidade, pode ser mesmo o ponto de partida para apurar a ocorrência de uma seca. E isto porque a humidade que chega ao País tem como fonte o Atlântico Norte e, tão ou mais importante, é transportada a partir do oceano até chegar a terra-firme. Esta mesma lógica é aplicável a vários locais do Globo e Luis Gimeno-Sotelo, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e do Centro de Estatística e Aplicações (CEAUL), acaba de a revelar à comunidade científica num estudo que estima as probabilidades de ocorrência de uma seca com base nos défices de transporte de humidade. O estudo de escala global e contornos inéditos garantiu, em janeiro, a principal distinção do Prémio Fátima Espírito Santo, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

“O défice de transporte de humidade é um dos fatores que mais influenciam a ocorrência de secas em várias regiões do Globo. Neste estudo, identificámos locais em que há grande dependência em concreto desse transporte de humidade. No Centro-Leste da América do Norte, a humidade é transportada a partir das Caraíbas; no Leste da Europa, a humidade vem do Mediterrâneo; e no Sudeste da Argentina a humidade é transportada a partir da Amazónia, sendo que a Amazónia também recicla a humidade que produz. Em Portugal, a humidade tem origem no Atlântico Norte”, descreve Luis Gimeno-Sotelo. “Que eu tenha conhecimento é a primeira vez que se faz a análise da probabilidade de ocorrências de seca com base nos défices de transporte para as várias regiões continentais do Planeta”, acrescenta.

Luís Gimeno-Sotelo

Luís Gimeno-Sotelo ganhou o Prémio Fátima Espírito Santo, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)

Com o estudo intitulado “Unravelling the origin of the atmospheric moisture deficit that leads to droughts”, Gimeno-Sotelo revela que a probabilidade de ocorrência de uma seca duplica em função de um défice equivalente no transporte de humidade que chega a cada região. E nalguns casos, esse défice registado no transporte de humidade pode mesmo levar a triplicar ou a quadruplicar a probabilidade de ocorrência de seca.

Se é plausível que haja humidade nas imediações da fonte que a produz, por outro lado, sabe-se que a humidade “viaja” pelo Globo – e nesse caso importa não perder de vista os meios de transportes que costumam permitir essa deslocação. “Os jatos (de vento) e os rios atmosféricos são os mecanismos mais comuns no transporte de humidade”, informa o investigador de Ciências ULisboa.

A investigação durou cerca de dois anos – e recorreu a dados de transporte de humidade que já tinham sido trabalhados no grupo EPhyslab, da Universidade de Vigo. Neste contexto, Luis Gimeno-Sotelo teve de recorrer à supercomputação para realizar as simulações estatísticas que permitiram perceber as relações de dependência entre os défices de transporte de humidade e a ocorrência de secas para todo o Globo. No trabalho realizado estudou-se ainda o potencial do transporte de humidade para prever a ocorrência de secas.

“A chuva depende mais de fatores locais, enquanto o transporte é uma variável de larga escala. Conhecendo bem este transporte, já ficamos em condições de avançar com estimativas sobre a probabilidade de seca num local"

“A chuva depende mais de fatores locais, enquanto o transporte é uma variável de larga escala. Conhecendo bem este transporte, já ficamos em condições de avançar com estimativas sobre a probabilidade de seca num local”, reitera Luis Gimeno-Sotelo, para depois referir um exemplo: “É isto que nos permite saber que, se houver um défice no transporte de humidade vindo do Atlântico Norte, há maior probabilidade de seca em Portugal”. Pelo mundo fora, o transporte da humidade faz a diferença.

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1.ª fase de candidaturas a Mestrados 2026/27: 9 de março a 10 de abril de 2026.