Um simples passeio pode revelar-se uma barreira para Amélia Ávila. E um passeio rebaixado é suficiente para que a cadeira de rodas possa circular e permita chegar sem grandes delongas às aulas práticas do Mestrado em Biologia Humana e Ambiente. Depois de algum tempo a lidar com o primeiro cenário, a aluna da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) passou a tirar partido do segundo, com as intervenções levadas a cabo no piso térreo do edifício C5 e num dos acessos do edifício C2, no início de março. “Sabia que havia coisas que não eram impeditivas de vir à Faculdade, mas podiam melhorar a minha experiência”, responde a aluna. Os passeios fazem a diferença para Amélia Ávila – mas são apenas o primeiro passo de um projeto de maior alcance. Durante os próximos tempos, a Comissão para a Inclusão, Diversidade, Equidade e Acessibilidade (IDEA) deverá dar a conhecer novos objetivos para os serviços digitais e um plano de acessibilidade para todo o campus de Ciências ULisboa.

Comissão IDEA avança com planos de acessibilidade em Ciências ULisboa

Amélia Ávila na chegada à Faculdade com a ajuda da sua mãe, Maria Ávila
“Pode haver quem pense que as medidas de acessibilidade não se justificam quando há poucos alunos com necessidades específicas, mas se não criarmos conteúdos acessíveis e não tivermos condições de acessibilidade no campus, esses alunos não vão querer vir estudar para aqui”, responde Carlos Duarte, subdiretor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e membro da Comissão para a Inclusão, Diversidade, Equidade e Acessibilidade (IDEA).
Há muito que o indesejado padrão está identificado – e há muito que os estudiosos dizem que é preciso interrompê-lo para que algo mude para melhor. Depois dos primeiros sinais de mudança nos acessos dos edifícios C2 e C5, prevê-se a estreia de uma ferramenta de análise dos requisitos de acessibilidade em ficheiros disponibilizados na plataforma Moodle. A nova ferramenta tem por ponto de partida o trabalho levado a cabo por Beatriz Patatas, aluna do Mestrado em Engenharia Informática que é co-orientada por Carlos Duarte e pela professora Letícia Seixas Pereira, e vai dar especial atenção à análise de ficheiros PDF, com o objetivo de apurar se cumprem as denominadas “marcações” que permitem que um software de apoio à leitura reconheça os diferentes componentes de um texto. Além da análise que indica o que é preciso fazer para um ficheiro PDF se tornar mais acessível, também deverá ser lançada uma ferramenta que obtém estatísticas gerais de vários documentos, para apurar indicadores sobre o respeito das melhores práticas de acessibilidade.
"Pretendemos fazer o levantamento e a análise de todos os sites ligados à Faculdade, mas é algo mais moroso, porque são mesmo muitas páginas”
A estreia desta nova ferramenta já não deverá tardar – mas há mais novidades aguardadas para os canais digitais de Ciências ULisboa. “Como instituição pública, temos obrigações legais que obrigam a tornar os nossos “sites” mais acessíveis”, refere Carlos Duarte.
Carlos Duarte integra atualmente a direção de Ciências ULisboa – mas é também como membro da Comissão IDEA que dá a conhecer o objetivo de avançar, nos próximos tempos, com o processo de solicitação de uma Declaração de Acessibilidade para o endereço virtual de Ciências ULisboa e ainda a candidatura ao Selo Prata com que a Agência para a Reforma Tecnológica do Estado (ARTE) reconhece algumas das melhores práticas de acessibilidade digital. “E queremos depois avançar para o Selo Ouro da Acessibilidade em 2027”, adianta. “Além disso, pretendemos fazer o levantamento e a análise de todos os sites ligados à Faculdade, mas é algo mais moroso, porque são mesmo muitas páginas”, informa ainda o subdiretor que tem assento na Comissão IDEA.

Carlos Duarte reitera o compromisso de Ciências ULisboa com a acessibilidade
Nas ferramentas digitais, a acessibilidade tende a assumir uma dupla importância: se por um lado, é o respeito das boas práticas que garante que um canal de comunicação ou um ficheiro ficam acessíveis, também não deixa de ser verdade que, garantida essa acessibilidade, o suporte digital torna-se numa alternativa válida para que pessoas com necessidades educativas específicas possam participar em eventos que nem sempre são fáceis de acompanhar pelas vias mais tradicionais.
“Vou à Faculdade duas ou três vezes por semana, quando há aulas práticas no laboratório. Tendencialmente, acompanho as aulas teóricas à distância (por videoconferência)”, explica Amélia Ávila. Nos laboratórios, é comum os professores disponibilizarem mesas que facilitam o trabalho de Amélia; e nos trabalhos de grupo não faltam colegas que também ajudam nas tarefas que não pode fazer. Depois de um período inicial tomado pela timidez, a aluna diz que acabou por se revelar na plenitude e não tem dúvidas de que quer continuar a estudar na Faculdade, porque conhece professores e “pessoas que valem a pena”. Ainda assim, admite há coisas que poderiam melhorar: “Tenho a sorte de os meus pais me levarem à Faculdade. Se viesse sozinha poderia ser mais difícil”.
“É natural que quem não tem limitações não perceba logo as dificuldades e ganhe uma noção mais clara quando alguém que está nestas condições lhe conta como lida com essas dificuldades todos os dias”
Na Comissão IDEA, estes reparos e reivindicações já estão devidamente identificados – até porque a própria Amélia Ávila passou a integrar a Comissão. E foi já no âmbito desta participação que a aluna de mestrado e uma outra aluna de Ciências ULisboa que tem limitações severas ao nível da visão, acabaram por ser convocadas para uma visita de reconhecimento que permitiu recolher sugestões de melhoramento nos vários espaços que compõem o campus de Ciências ULisboa. “É natural que quem não tem limitações não perceba logo as dificuldades e ganhe uma noção mais clara quando alguém que está nestas condições lhe conta como lida com essas dificuldades todos os dias”, comenta Amélia Ávila.

Ciências ULisboa pretende avançar com adaptações relacionadas com a acessibilidade do campus e dos serviços digitais
A missão de reconhecimento pelo campus acabou por revelar-se “muito instrutiva porque permitiu perceber o que temos de melhorar em Ciências ULisboa”, refere Carlos Duarte. Alguns elevadores que não funcionam e a necessidade de repensar o planeamento das casas de banho adaptadas para necessidades específicas surgem logo à cabeça – mas já se sabe que há mais desafios a superar. E por isso a Comissão IDEA conta apresentar, até ao final de 2026, um plano de acessibilidade que deverá ser produzido mediante a intervenção de profissionais especializados no tema. “Só depois de esse plano ser apresentado e de se conhecerem todas as propostas, se poderá ter uma previsão quanto ao tempo de obras exigido”, responde Carlos Duarte.
Apesar de nem sempre a valorizarem, as pessoas sem necessidades específicas figuram sempre entre os beneficiários diretos da acessibilidade. E isso é notório tanto com um passeio rebaixado que também passa a ser útil para profissionais da área da logística e da manutenção que precisam de deslocar equipamentos de trabalho como no desenvolvimento dos sistemas de reconhecimento de voz que podem ser usados para a transcrição de texto, mas em tempos tiveram como prioridade garantir que pessoas com necessidades específicas conseguiam interagir com um computador.
“Devemos apostar na acessibilidade porque é a coisa certa do ponto de vista ético e moral. Se somos uma instituição de ensino então temos de chegar ao maior número de pessoas possível”, lembra Carlos Duarte, aproveitando ainda para deixar um alerta: “Há alunos que têm necessidades educativas específicas mas não as revelam à Faculdade ou aos professores, por questões de privacidade que temos de respeitar”.
Ainda que as mudanças a bem da acessibilidade possam ser morosas, Amélia Ávila já sabe que um primeiro passo foi dado: “Todas as medidas de acessibilidade que venham a ser tomadas melhoram a minha experiência e a de todas as pessoas que vierem depois de mim, além de tornarem esta Faculdade mais apelativa para os alunos que fazem questão de estudar num lugar inclusivo”, conclui a jovem estudante. Está lançado o repto.