A Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) apresentou, no dia 27 de julho, o relatório final de Ciências Bottom-up Initiative AI², um documento que reúne as recomendações da comunidade científica, empresarial e institucional para a futura Agência para a Investigação e Inovação (AI²). O relatório resulta de um processo de reflexão promovido por Ciências, que envolveu cerca de 70 representantes de universidades, unidades de investigação e desenvolvimento, Laboratórios Associados, empresas, colabs, entidades públicas, clusters, incubadoras e associações, e constitui o contributo de Ciências para o processo nacional de participação pública lançado pelo Governo.

Ciências ULisboa apresenta relatório com recomendações para a futura Agência para a Investigação e Inovação

Na abertura da sessão, a diretora de Ciências ULisboa, Conceição Freitas, recordou que a criação da AI² representa uma das mais profundas reformas do sistema científico nacional das últimas décadas e justificou a decisão de Ciências em promover uma iniciativa própria de reflexão: “As recomendações hoje apresentadas não pretendem encerrar o debate, mas enriquecê-lo, oferecendo uma reflexão informada, plural e construtiva”.
A responsável defendeu que a futura agência será determinante para o desenvolvimento científico e tecnológico do país, sublinhando, contudo, que o seu sucesso dependerá da confiança que conseguir construir junto da comunidade científica, tecnológica, empresarial e da sociedade: “A mudança não é um fim em si mesma. O seu valor mede-se pela capacidade de preservar o que funciona, corrigir o que é necessário e criar melhores condições para o futuro”.

Conceição Freitas, diretora de Ciências ULisboa.
A apresentação do relatório esteve a cargo de Cristina Máguas, subdiretora para a Investigação e Inovação, Internacionalização e Relações Externas de Ciências ULisboa e coordenadora da iniciativa, que explicou que o projeto nasceu da vontade de criar um espaço de discussão participado e interdisciplinar, capaz de reunir diferentes perspetivas em torno da futura AI². “A criação da AI² representa uma oportunidade para repensar o ecossistema nacional de investigação e inovação através de um processo participado e sustentado em evidência”, afirmou.
A metodologia adotada assentou na constituição de grupos de trabalho temáticos dedicados a áreas como clima e recursos naturais, saúde, materiais avançados, tecnologias digitais ou espaço, nos quais participaram investigadores, representantes de empresas, laboratórios associados, entidades públicas e outras organizações do sistema científico e tecnológico. O objetivo foi identificar prioridades estratégicas, discutir modelos de financiamento, critérios para a alocação de recursos e mecanismos de monitorização e avaliação, procurando construir recomendações assentes no consenso.

Cristina Máguas, subdiretora para a Investigação e Inovação, Internacionalização e Relações Externas de Ciências ULisboa e coordenadora da iniciativa.
Entre as principais conclusões do relatório destaca-se a necessidade de preservar a investigação fundamental como a base do sistema científico português, reforçando simultaneamente os mecanismos que permitem transformar conhecimento em inovação e impacto económico e social. “A excelência da investigação fundamental deve continuar a ser o principal alicerce do sistema científico nacional”, sublinhou Cristina Máguas, acrescentando que os futuros domínios estratégicos nunca deverão substituir as áreas científicas consolidadas, mas antes promover a sua articulação com desafios societais e oportunidades de inovação.
“A criação da AI² representa uma oportunidade para repensar o ecossistema nacional de investigação e inovação através de um processo participado e sustentado em evidência”
O documento identifica como áreas prioritárias a crise climática e a resiliência dos territórios, o oceano e a economia azul, a transição energética, os materiais avançados, a saúde e a biotecnologia, a inteligência artificial e soberania digital, a segurança, bem como o espaço e a instrumentação científica. As recomendações defendem ainda um modelo de financiamento mais estável, previsível e flexível, adaptado às diferentes fases da investigação e da inovação, combinando o reforço do investimento público, através do Orçamento de Estado (OE), financiamento privado e fundos europeus. O relatório propõe igualmente o reforço da ligação entre universidades, empresas e entidades públicas, através de mecanismos que promovam a transferência de conhecimento, a mobilidade de investigadores e a contratação de doutorados pelo tecido empresarial, bem como a criação de sistemas permanentes de monitorização e avaliação que permitam medir o impacto dos instrumentos de financiamento e apoiar decisões estratégicas baseadas em evidência.

Entre as principais conclusões do relatório destaca-se a necessidade de preservar a investigação fundamental como a base do sistema científico português, reforçando simultaneamente os mecanismos que permitem transformar conhecimento em inovação e impacto económico e social.
Após a apresentação do relatório decorreu um debate moderado por Nuno Araújo, presidente do Conselho Científico de Ciências, que reuniu Maria do Rosário Partidário, coordenadora científica da metodologia ST4S, Carolina Nogueira, subdiretora do PLANAPP, João Rocha, coordenador da Comissão Executiva do Conselho de Laboratórios Associados, e Filipe Santos, CEO do Smart Energy Lab.
Ao longo da discussão foi reiterada a importância de garantir que a futura AI² consiga equilibrar o apoio à investigação fundamental, à investigação aplicada e à inovação, assegurando simultaneamente um financiamento previsível e plurianual, maior simplificação administrativa e mecanismos de avaliação capazes de medir o impacto científico, económico e social das políticas públicas. Os participantes defenderam igualmente uma maior articulação entre universidades, empresas e administração pública, considerando que a criação da nova agência constitui uma oportunidade para reforçar a capacidade de inovação do país e aproximar a produção científica das necessidades da sociedade.

Debate moderado por Nuno Araújo, presidente do Conselho Científico de Ciências, que reuniu Maria do Rosário Partidário, coordenadora científica da metodologia ST4S, Carolina Nogueira, subdiretora do PLANAPP, João Rocha, coordenador da Comissão Executiva do Conselho de Laboratórios Associados, e Filipe Santos, CEO do Smart Energy Lab.
No encerramento da sessão, a Vice-reitora para a Investigação da Universidade de Lisboa, Cecília Rodrigues, agradeceu o trabalho desenvolvido por Ciências ULisboa e por todas as entidades que participaram na iniciativa, considerando que o relatório representa um importante contributo para o processo de construção da futura AI².
A responsável defendeu que o diálogo agora iniciado deve prosseguir nas próximas fases do processo e sublinhou que a Universidade de Lisboa pretende contribuir com uma visão estratégica de longo prazo para o sistema científico nacional.: “A Universidade de Lisboa não está aqui para defender interesses corporativos. Está aqui para oferecer aquilo que estruturalmente só uma universidade, com os seus investigadores, técnicos e parceiros de investigação e desenvolvimento, pode oferecer: uma visão de sistema e de longo prazo que resiste à tentação de reduzir a ciência a uma cadeia de valor linear”.
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