ciencia-no-copo-4-banner-novo

Ciência no Copo: o mundo precisa do engenho das mulheres

Hugo Séneca
Destaque, Eventos6 março, 2026

O tema remetia para as Mulheres da Ciência, e por isso Conceição Freitas, diretora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), teve de recorrer à metáfora do funil na hora de descrever desigualdades face aos homens que seguem carreira académica. À sua frente tinha os alunos que responderam à chamada da 5ª sessão do ciclo de conversas Ciência no Copo, na quinta-feira, com a organização dos da Oficina das Energias e do Núcleo de Estudantes de Geologia (NEG FCUL). Com base nos mais recentes números, o funil metafórico serviu de mote a um profícuo diálogo com Ágata Dias, professora do Departamento de Ciências da Terra e Energia (DCTE), que haveria de passar por Rosalind Franklin, a carreira e a maternidade, um curioso caso de escassez de mulheres na Austrália e as nem sempre consensuais quotas.

Mário Vilas, Conceição Freitas e Ágata Dias

Mário Vilas, dirigente da Oficina de energias, e as professoras Conceição Freitas e Ágata Dias

“Houve uma evolução gigantesca, mas a realidade varia muito consoante a região do mundo”, referiu Conceição Freitas. Hoje, o metafórico funil ainda cresce em significado na proporção inversa às percentagens de mulheres que alcançam níveis hierárquicos de topo. Em Portugal, as mulheres totalizam entre 55% e 60% dos estudantes universitários, mas só 30% dos professores catedráticos são mulheres. E só 26% dos cargos de liderança são atribuídos por mulheres.

Com base nestes números, Conceição Freitas considerou que faz todo o sentido “enfatizar a questão” da igualdade de oportunidades. A conciliação entre vida familiar e profissional logo se revelou incontornável, sem deixar de lembrar casos paradigmáticos do passado.

E foi nesse ponto que surgiu a menção a Rosalind Franklin e Marie Skłodowska-Curie. A primeira foi manifestamente prejudicada aquando do reconhecimento como referência maior do estudo das estruturas do ADN. A segunda só foi reconhecida pelo facto de o marido, Pierre Curie, ter exigido que também fosse abrangida pelo Nobel da Física (em 1903; além do casal, também Henri Becquerel foi laureado), pelo trabalho feito em torno da radioatividade. Aos casos históricos, Conceição Freitas juntou a curiosa situação de início de carreira, que lhe abria as portas da Austrália ao abrigo de uma política de captação de migrantes femininas, “porque lá havia falta de mulheres”.

“Percebo o princípio das quotas, mas não gostaria de ir para um cargo só pelo facto de ser mulher. Sentir-me-ia rebaixada. Gosto de sentir que tenho um cargo porque tenho valor”

Apesar de ter vivido também numa época em que as mulheres tinham manifestamente menos direitos que os homens à luz da lei e dos costumes nacionais, Conceição Freitas acabou por singrar na carreira académica sem sair do País. “Nunca me senti prejudicada (por ser mulher), mas ouvi queixas de outras pessoas”, recorda.

Do início da carreira à atualidade, seguiram-se as barreiras e estereótipos superados. E foi assim que, antes de se tornar a primeira mulher a liderar Ciências ULisboa, Conceição Freitas já tinha sido a primeira presidente do antigo Departamento de Geologias (de Ciências ULisboa), a primeira diretora do Centro de Geologia, e a primeira presidente do Conselho Científico (de Ciências ULisboa).

Apesar deste pioneirismo na primeira pessoa, Conceição Freitas admite que, nos casos em que homens e mulheres estão em igualdade de requisitos e habilitações, poderão justificar-se as quotas que salvaguardam a mulher, como forma de contrariar a predominância masculina.

“Por vezes o problema surge quando uma mulher tem dois filhos seguidos e depois tem dificuldade em voltar a apanhar “o barco”"

Por seu turno Ágata Dias não escondeu os sentimentos contraditórios. “Percebo o princípio das quotas, mas não gostaria de ir para um cargo só pelo facto de ser mulher. Sentir-me-ia rebaixada. Gosto de sentir que tenho um cargo porque tenho valor”, sublinhou.

As duas posições confirmam que as quotas continuam longe do consenso – mas também ajudam a revelar um desafio que é tão antigo quanto a humanidade: “Estamos a falar de igualdade de oportunidades, mas homens e mulheres não são iguais”, acrescentou Ágata Dias.

Ciência no Copo

Os eventos Ciência no Copo têm vindo a ser organizados regularmente pela Oficina das Energias

Em paralelo com reivindicações e avanços, a professora do DCTE não deixou de alertar para certos retrocessos que já se pressentem na mentalidade de alguns homens que persistem em não tratar as mulheres em plano de igualdade. E por isso recordou a antiga e justificada divisão de tarefas domésticas ou os casos de adiamento da gravidez para evitar que a carreira saia prejudicada. “Tem de haver maior apoio à natalidade”, defendeu Ágata Dias.

Como mãe e líder, Conceição Freitas conhece sobejamente o tema. “Por vezes o problema surge quando uma mulher tem dois filhos seguidos e depois tem dificuldade em voltar a apanhar “o barco” (da evolução da carreira)”.

Sem negar a desigualdade de oportunidades que ainda prevalece, Ágata Dias admitiu que, no caso pessoal, sentiu mais dificuldades em afirmar-se por ser “pequenina” do que por ser mulher. Mas com a evolução da conversa rebuscou a memória e deparou com um caso que a indignou quando informou o pai que pretendia ser padre: “O meu pai respondeu-me que não podia ser porque sou mulher. Foi a primeira revolta que tive sobre este tema”. Infelizmente, ainda há demasiados casos comparáveis.

Comunicados

Dia de CIÊNCIAS 2026 | Junte-se a nós, a 22 de abril no Grande Auditório de CIÊNCIAS, para assinalar o 115.º aniversário de CIÊNCIAS.