Se todos os dias são bons para a matemática, então o CEMS Day 2026, que se realizou esta terça-feira, foi também um bom dia para os matemáticos. O evento do Centro de Estudos Matemáticos da Universidade de Lisboa (CEMS.UL) juntou, na Faculdade de Ciências (Ciências ULisboa), vários especialistas em torno de projetos de investigação e deu ainda a conhecer os sete membros mais recentes da equipa. No final, não ficaram quaisquer dúvidas: A matemática continua a ser das melhores ferramentas para resolver os problemas da vida real.

CEMS Day 2026: quando a matemática vai dos atacadores de sapatos até aos buracos negros

O CEMS DAY deu a conhecer uma nova leva de projetos de investigação mais recentes
“Foram apresentados modelos matemáticos que descrevem a forma como se desenvolvem as infeções pulmonares, e também investigação sobre formas de otimização que permitem ordenar contentores e navios num porto marítimo. Mostrou-se como a matemática e a geometria descrevem a entropia de modelos idealizados de buracos negros, e também pudemos conhecer um projeto relacionado com a geometria e a topologia dos nós que tanto podem ser usados por marinheiros como por qualquer pessoa que ata os sapatos no dia-a-dia”, responde Carlos Florentino, coordenador do CEMS.UL e professor do Departamento de Ciências Matemáticas de Ciências ULisboa.
Mesmo nos projetos que versavam sobre aplicações práticas, por mais de uma vez, as apresentações implicavam explanar, no quadro, diferentes problemas e soluções através de fórmulas matemáticas. E nesse ponto, o Dia do CEMS bem poderia cumprir a missão de mostrar aos leigos como é que funciona a matemática ao vivo. “Neste dia também tivemos apresentações mais conceptuais, que lidam com resultados teóricos que vão até à fronteira do conhecimento em áreas tão diversas como a teoria dos números, geometria e topologia, sistemas dinâmicos, equações diferenciais ou lógica matemática”, acrescenta Carlos Florentino.

Carlos Florentino lembra que o CEMS Day abordou diferentes aplicações da matemática no dia-a-dia e também explorou os limites do conhecimento
Com a entrada de sete investigadores durante os últimos meses, o CEMS.UL passou a contar com um total de 52 membros – mas no Centro prevê-se que a equipa possa continuar a crescer, nos próximos tempos, com a integração de mais pessoas. Carlos Florentino recorda que todos os projetos apresentados são recentes – e alguns deles já abriram caminho à publicação de artigos científicos. “Privilegiámos apresentações de projetos dos membros que estão há menos de um ano no CEMS.UL e que se integraram os nossos grupos para reforçar a nossa investigação”, responde o coordenador do CEMS.UL.
Fernando Pestana da Costa, investigador do CEMS.UL, é um dos investigadores recém-chegados que apresentaram o trabalho feito nos últimos tempos em parceria com investigadores de diferentes escolas e países – e não descarta a possibilidade de prosseguir com essa mesma linha de investigação que o levou a desenvolver modelos matemáticos para a doença da silicose, que ocorre quando o sistema imunitário humano deixa de conseguir expelir a sílica que entra nos pulmões, muitas vezes, devido ao pó gerado na construção civil ou na mineração.
“Este é um problema de saúde pública, que poderá ajudar a perceber quais os níveis em que a exposição de partículas de sílica deixa de significar um perigo"
Pestana da Costa admite que os modelos matemáticos que ajudou a desenvolver ainda possam ser melhorados com contributos de outros matemáticos e investigadores da área da biologia e da medicina, mas não perde de vista um objetivo maior: “Este é um problema de saúde pública, que poderá ajudar a perceber quais os níveis em que a exposição de partículas de sílica deixa de significar um perigo, tendo em conta a fisiologia de um indivíduo”, explica.
Giulio Ruzza, professor do Departamento de Ciências Matemáticas de Ciências ULisboa, também serve de exemplo quanto aos trabalhos desenvolvidos por investigadores recém-chegados ao CEMS.UL e, por isso, acabou por concentrar atenção acrescida, com a apresentação de uma linha de investigação sobre modelos de matrizes aleatórias que ajudam a prever ocorrências menos frequentes – ou mesmo indesejadas.

No CEMS Day 2026 houve ainda espaço para a apresentação de posters de projetos científicos
“Estamos a usar técnicas sofisticadas de sistemas integráveis em aplicações específicas, que podem ser muito importantes em termos práticos”, adianta o investigador de origem italiana, admitindo que esta linha de investigação tanto poderá ser útil nas Finanças para prever uma falência como, eventualmente, poderá ajudar a estimar uma progressão fora de normal num incêndio.
Carlos Florentino não esconde que o CEMS Day é organizado por matemáticos, mas mostra abertura para a participação de investigadores de outras ciências que precisem de usar modelos matemáticos. E mantém a expectativa quanto ao papel do CEMS nos próximos tempos: “O número de candidatos a pós-doutoramento aumentou nos últimos tempos. São candidaturas que vêm de vários pontos do Mundo. Temos a expectativa de que essa procura se reflita em novos projetos que possam garantir financiamento nacional e internacional”, conclui.