Há uma ponte que liga todas as margens das ciências, e foi essa estrutura simultaneamente real e imaterial que o evento BRIDges: Boosting Research in Interdisciplinary Domains voltou a promover esta quarta-feira perante mais de 100 alunos, investigadores e professores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (CIÊNCIAS ULisboa). Durante o dia, desfilaram os vários projetos e experiências que só se tornaram possíveis devido à comunhão de objetivos e partilha de conhecimentos entre investigadores com carreira feita em diferentes disciplinas. As armadilhas e os desafios de quem se aventura por domínios alheios não foram esquecidos, mas no final destacou-se um incentivo para a interdisciplinaridade, com o anúncio de quatro vencedores de um concurso que contou com cerca de 30 projetos e respetivos pósteres de estudantes de vários cursos.

BRIDges: jovens investigadores mostram como atravessar a ponte que liga as ciências

Margarida Santos-Reis foi a oradora principal do evento BRIDges
“Já houve pessoas que iniciaram colaborações depois de participarem nestas sessões (do BRIDges, no passado). Sobretudo, pretendemos que os alunos fiquem com vontade de conhecer melhor as diferentes áreas científicas e que fiquem com vontade em participar em projetos que fomentam a interdisciplinaridade”, responde Carlota Rebelo Gonçalves, professora do Departamento de Ciências Matemáticas de CIÊNCIAS ULisboa e membro da organização do evento BRIDges.
“É um processo de genuína integração de métodos, perspetivas e maneiras de pensar. Pode ser desafiante. Requer confiança. Requer tempo. Mas quando funciona, gera conhecimento que nenhuma disciplina sozinha poderia alcançar"
Desde 2023 que este evento especializado na construção de pontes científicas tem vindo a realizar-se em CIÊNCIAS ULisboa. O BRIDges começou por incidir nas áreas da biologia, matemática, estatística e informática – e o entusiamo que se seguiu levou a expandir o raio de ação para “todas as áreas científicas da Faculdade”.
“As pontes não são destinos de chegada. São estruturas que permitem que nos desloquemos. Conectam diferentes paisagens”, sublinhou Conceição Freitas, diretora de CIÊNCIAS ULisboa, logo na abertura dos trabalhos. Não sendo o objetivo final, a interdisciplinaridade não pode ser dispensada, na mesma medida em que terá de ir além da mera “soma das partes”. “É um processo de genuína integração de métodos, perspetivas e maneiras de pensar. Pode ser desafiante. Requer confiança. Requer tempo. Mas quando funciona, gera conhecimento que nenhuma disciplina sozinha poderia alcançar”, avisou ainda a diretora de CIÊNCIAS ULisboa.
A avaliar pelos vários trabalhos e projetos apresentados no evento, não faltam jovens investigadores disponíveis para saltar as fronteiras disciplinares. Em apresentações rápidas de menos 90 segundos e nos pósteres que animaram o BRIDges, foi possível encontrar projetos que visam estimar a pegada carbónica das refeições servidas em CIÊNCIAS ULisboa, ferramentas de Inteligência Artificial para o desenvolvimento de medicamentos, análise do comportamento de grupos compostos por diferentes espécies de golfinhos, ou o uso de métodos estatísticos na paleontologia, entre outros temas.

Laura Balbi, vencedora do concurso BRIDges, durante a apresentação do seu projeto
Em todos os projetos, verificou-se um traço comum: a participação de especialistas, departamentos e centros de investigação que trabalham em diferentes áreas do saber. E foi também esse esforço interdisciplinar que a organização do evento tratou de premiar ao distinguir quatro projetos entre os quase 30 que se apresentaram a concurso pelas mãos de alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento.
O primeiro lugar foi atribuído a Laura Balbi, que deu a conhecer o projeto “Learning from True Negatives in Scientific Open-World Graphs”; e o segundo lugar foi entregue a Gabriela Xavier-Quintais pela apresentação do projeto “Are hypothesis tests and p-values a good fit for ecology?”. No terceiro lugar, ficou Carolina S. Marques, com o projeto “Bridging between Informatics, Statistics and Paleontology”; e o quarto lugar foi atribuído a Bruno T. S. Luz pelo projeto “A mathematical study of the death bacterial populations”. Os prémios tiveram o apoio da associação FCiências.ID, a empresa BioInsigth e a editora Springer.

Margarida Santos-Reis, Laura Balbi, Tiago A. Marques (atrás), Carlota Rebelo Gonçalves, Francisco Dionísio, Cátia Pesquita e Lisete Sousa no encerramento do evento
“Tentámos mostrar aos alunos que não queremos que os departamentos estejam fechados em si próprios. Queremos que conheçam o que vai sendo feito e o que se pode fazer melhor. Porque sabemos que a interdisciplinaridade é essencial para resolver muitos problemas importantes da atualidade”, refere Carlota Rebelo Gonçalves.
Como em todas iniciativas, há que ir além das boas intenções: Tiago A. Marques, professor do Departamento de Biologia de CIÊNCIAS ULisboa que também é investigador do Centro de Estatística e Aplicações da Universidade de Lisboa (CEAUL) e da Universidade de St. Andrews, na Escócia, tem feito carreira entre departamentos de biologia e estatística e foi com base na sua experiência que lembrou que há algumas barreiras a superar durante a escalada da interdisciplinaridade - a começar pelo facto de as entidades que avaliam e financiam projetos científicos estarem organizadas por áreas temáticas tendencialmente estanques. A este dado juntam-se os resultados do inquérito apresentado pelo próprio Tiago A. Marques que acabaram por refletir que, afinal, a maioria das respostas destaca o processo como “desafiante” ou “difícil”, bem à frente das respostas mais elogiosas.
“Misturando pessoas de diferentes campos vamos chegar a perspetivas que seriam impossíveis de alcançar sozinhos”
Na lista de barreiras a superar, destacam-se a indefinição de funções e lideranças; os incentivos que nem sempre facilitam projetos que envolvem diferentes saberes e investigadores; as diferenças na linguagem; e o facto de os avanços serem, geralmente, mais morosos que nos projetos especializados numa disciplina. Perante este cenário, Tiago A. Marques deu a conhecer um conjunto de boas práticas que promovem a clareza quantos aos papéis de cada um, a definição de linguagem e objetivos comuns, a comunicação regular entre as partes, métodos que fomentam a integração de disciplinas e investigadores, e um ambiente em que os intervenientes estão confortáveis a assumir o que sabem e o que não sabem. “Misturando pessoas de diferentes campos vamos chegar a perspetivas que seriam impossíveis de alcançar sozinhos”, frisou Tiago A. Marques.

O BRIDges contemplou pósteres e um concurso de apresentação de projetos que fomentam a interdisciplinaridade
O professor de CIÊNCIAS ULisboa aproveitou o momento para destacar os resultados obtidos por um estudo em torno de ursos polares, que recorreu a especialistas em acústica, informática, estatística, biologia e temas militares, mas não foi o único a dar conta de como o currículo científico pode evoluir com o impulso da interdisciplinaridade. Margarida Santos-Reis, professora de CIÊNCIAS ULisboa com carreira feita no Departamento de Biologia e o estudo de animais mamíferos carnívoros, recordou naquela que foi a palestra principal, como a interdisciplinaridade pode servir de ponto de partida para o estudo e conservação da vida animal.
Com o título “Carnivore conservation in the Anthropocene: Why biology is not enough”, a palestra de Margarida Santos-Reis serviu também para ilustrar a importância da transdisciplinaridade com vários exemplos de projetos de estudo ou conservação de espécies em estado selvagem. Entre os “casos” referenciados, destacaram-se os resultados promissores em projetos que envolveram pastores (e cães-pastor) e que facilitaram a tolerância às alcateias de lobo de algumas regiões do País. Mas a professora de CIÊNCIAS ULisboa também fez notar que há uma discrepância de popularidade entre o lobo e o lince, que beneficiou da vontade política e também de um programa que contemplou financiamento, questões legais, e muitos outros recursos que envolveram organismos com diferentes raios de ação. “Estamos num novo paradigma”, recordou Margarida Santos-Reis.
“Se queremos realmente estudar os animais nos vários habitats e nas interações que estabelecem com os humanos, então precisamos de várias disciplinas”, sublinhou a professora do Departamento de Biologia, sem deixar de avançar com um exemplo útil para quem faz carreira na biologia: “Precisamos de melhores métodos. E para isso temos de conseguir dizer aos físicos, químicos e matemáticos o que precisamos nos nossos projetos, para que eles nos possam ajudar a criar novos algoritmos e metodologias”. A ponte está lançada.