Uma equipa de investigadores de Portugal, Reino Unido e Espanha acaba de revelar num artigo publicado na revista Nature Communications que as grandes falhas geológicas podem ter uma dupla função que tanto pode facilitar a ascensão de magma, como pode, pelo contrário, impedir esse movimento ascendente e evitar erupções vulcânicas, através de um fenómeno de escape. Segundo o estudo, terá sido essa dupla função que levou o magma a ascender de um ponto a mais de 26 quilómetros de profundidade e a travar esse movimento a 1,6 quilómetros da superfície, resultando numa “erupção falhada” em março de 2022 na ilha de São Jorge, nos Açores. Os dados revelam que o complexo vulcânico conhecido como Zona de Falha do Pico do Carvão “sofreu uma elevação de seis centímetros” que ajuda a ilustrar o crescimento em curso na ilha açoriana. O estudo foi liderado pela University College London e contou com a participação do Instituto Dom Luiz (IDL).

Artigo científico revela detalhes de crise sismovulcânica na Ilha de São Jorge

Susana Custódio participou no estudo sobre a crise sismovulcânica da Ilha de São Jorge
“Este estudo revelou que o magma pode subir rápida e silenciosamente e dá ainda a conhecer a dupla função assumida pelas falhas geológicas que tanto podem ser facilitadoras, como podem permitir o escape de componentes voláteis que faz com que o magma perca a mobilidade”, explica Susana Custódio, investigadora do IDL e professora do Departamento de Ciências da Terra e Energia (DCTE) da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) que participou no estudo sobre a crise sísmica de 2022.
As conclusões do estudo foram publicadas na revista Nature Communications com o título “Fault-mediated magma propagation and triggered seismicity revealed by the 2022 São Jorge Azores unrest”. Os investigadores usaram como base de trabalho diferentes tipologias de dados relativos à crise sísmicovulcânica que foram registados com maior densidade a partir de 19 de março de 2022 e que se estenderam ao longo dos meses seguintes, em que se verificaram dezenas de milhar de sismos de baixa magnitude.
Os relatos dão conta do receio de populações – mas felizmente, o pior cenário não se confirmou. E o estudo agora publicado na Nature Communications ajuda a apontar potenciais razões para o sucedido na ilha açoriana. “Esta foi uma intrusão discreta”, descreveu em comunicado Stephen Hicks, investigador da University College London e principal autor do artigo científico. “O magma deslocou-se rapidamente através da crosta, mas grande parte do seu percurso foi silencioso, o que dificulta prever se ocorrerá uma erupção”, acrescentou o investigador em comunicado.
Os dados recolhidos pela equipa de cientistas permitiram apurar “uma intrusão laminar vertical de magma” que terá vindo de um ponto a 26,5 quilómetros de profundidade e, em cerca de três dias, parou no subsolo, mas já na crosta superficial. “Grande parte dessa ascensão ocorreu com reduzida atividade sísmica, sendo a maioria dos sismos registados apenas após a ascensão do magma ter parado”, sublinha o comunicado do consórcio de investigadores.

Detalhe de um dos cumes de montanhas da Ilha de São Jorge - Foto: Ricardo Ramalho
Poucos dias depois dos primeiros sinais da crise sísmicovulcânica, investigadores do IDL partiram para os Açores para, com o apoio das autoridades locais, instalarem sismómetros e recetores de localização por satélite (GNSS) para garantir a recolha de dados de toda a ilha nos meses que se seguiram. A o registo de dados contemplou ainda sismómetros (de fundo oceânico nalguns casos) do Conselho de Investigação do Ambiente Natural do Reino Unido e as redes geridas pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) e do Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA).
“Podia ter havido um sismo maior, mas felizmente isso não aconteceu e tivemos apenas dezenas de milhares de sismos de baixa magnitude”
A participação do IDL foi assegurada por investigadores dos polos de Ciências Lisboa e também da Universidade da Beira Interior (UBI) e do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL). Além de Susana Custódio, também Virgílio Mendes participou neste estudo enquanto investigador do polo do IDL em Ciências ULisboa.
“Tipicamente associamos a sismicidade à intrusão, mas neste caso a sismicidade foi diferente porque foi periférica face à intrusão”, explica Susana Custódio.

A crise sismovulcânica também envolveu uma componente marítima
Segundo o estudo agora divulgado, o magma terá sido travado devido a um eventual escape dos componentes líquidos e gasosos para um segmento adjacente da falha geológica onde estava a ocorrer a ascensão. O escape dos componentes voláteis acabou “por facilitar a sismicidade adjacente (ao local da intrusão) e impediu que houvesse uma erupção”, refere Susana Custódio.
A investigadora indica ainda que o escape dos componentes voláteis terá ocorrido num segmento ocidental do complexo vulcânico do Pico do Carvão.

Momento de instalação de um sismómetro no fundo do oceano, ao largo de São Jorge
“Podia ter havido um sismo maior, mas felizmente isso não aconteceu e tivemos apenas dezenas de milhares de sismos de baixa magnitude”.
O estudo agora divulgado contou com financiamento do Conselho Europeu de Investigação (ERC), da Fundação para a Ciência e Tecnologia, do Governo Regional dos Açores, do Conselho de Investigação do Ambiente Natural, do Reino Unido, e da Agência Estatal para a Investigação, de Espanha.

Detalhe da costa da Ilha de São Jorge - Foto: Ricardo Ramalho
O estudo, que foi liderado pelo University College London, que pertence à Universidade de Londres, do Reino Unido, foi realizado com uma forte participação de entidades portuguesas: Além do IDL, também participaram no projeto a Universidade de Lisboa, a Universidade do Algarve, Instituto Politécnico de Lisboa, Universidade da Beira Interior, Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores (CIVISA), Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), AIR Centre e C4G. Do Reino Unido participaram as Universidades de Manchester e Cardiff, além da University College London. O Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha também deu o contributo para a investigação.