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Pedro Cardoso participa em artigo que revela serviços de ecossistemas subterrâneos

Hugo Séneca
Biologia, Destaque16 fevereiro, 2026

Ainda que nem sempre estejam à vista dos humanos, os ecossistemas subterrâneos já começaram a dar os primeiros sinais de alerta. É do subsolo que provém mais de 95% da água potável, e é com esta mesma água que 37% da vegetação sobrevive.  Sem este e muitos outros serviços prestados por estes ecossistemas, a vida da humanidade seguramente que será bem mais difícil. E é esse o aviso que acaba de ser lançado pelo artigo científico publicado na revista "Biological Reviews", que conta com a participação de Pedro Cardoso, investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) e do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C).

“Obviamente que já é possível observar à superfície alguns dos efeitos daquilo que acontece nos ecossistemas subterrâneos. Estes processos são lentos e as pessoas nem sempre os relacionam com os efeitos que produzem”, explica Pedro Cardoso.

Com o título “Subterranean environments contribute to three-quarters of classified ecosystem services”, o artigo científico publicado na “Biological Reviews” já contém em si um diagnóstico. Na gíria da biologia, é comum classificar como serviços os recursos, as atividades, ou os benefícios que qualquer ecossistema disponibiliza à espécie humana. “As abelhas polinizam as flores e prestam um serviço ao fazê-lo, ainda que ninguém tenha de lhes pagar", sublinha Pedro Cardoso.

Pedro Cardoso alerta para os efeitos que já sentem à superfície e que têm origem em ecossistemas subterrâneos

Nos ecossistemas subterrâneos, o exemplo mais cabal dos serviços prestados remete para o facto de 95% da água potável vir do subsolo – mas há mais benefícios a ter em conta que vão além da existência do mais valioso dos líquidos. Segundo os investigadores, 68 dos 90 serviços que e possível prestar pelo conjunto de todos os ecossistemas na Terra dependem diretamente, ou estão, pelo menos, relacionados com ecossistemas subterrâneos, incluindo aquíferos, grutas, e todo um mundo de espécies de seres vivos que os habitam.

Pedro Cardoso recorda ainda que os ecossistemas subterrâneos também prestam serviços quando servem de habitat a espécies que deles dependem e que podem, mais cedo ou mais tarde, vir a revelar-se fundamentais como, por exemplo, sistemas de alerta para poluição de aquíferos ou como fontes de compostos farmacológicos. E a mesma lógica de prestação de serviço pode ser aplicada aos locais no subsolo que aprisionam metano ou que vão sendo visitados um pouco por todos os continentes, por razões filosóficas, religiosas ou turísticas, explica ainda o investigador do CE3C.

“Há espécies em risco de extinção nos ecossistemas subterrâneos devido à poluição que vem da superfície. Além disso, temos aquíferos sobre-explorados, ou outros tipos de habitat que desaparecem, ficam alterados ou contaminados devido à mineração"

À quantificação dos serviços que dependem do que se passa no subsolo, junta-se o consumo de água. Segundo o artigo publicado na “Biological Reviews”, a humanidade está, atualmente, a extrair água a uma velocidade 3,5 vezes superior à da reposição desses aquíferos subterrâneos. As cifras agora compiladas pelos investigadores dão que pensar na atualidade no que poderá ocorrer nos próximos tempos. Cerca de 49% da água de consumo doméstico tem origem em aquíferos subterrâneos, e 43% da água para irrigação também.

“Há espécies em risco de extinção nos ecossistemas subterrâneos devido à poluição que vem da superfície. Além disso, temos aquíferos sobre-explorados, ou outros tipos de habitat que desaparecem, ficam alterados ou contaminados devido à mineração”, alerta Pedro Cardoso.

Ainda que contenha alguns dados que já andavam a circular na comunidade científica, o artigo publicado na “Biological Reviews” reveste-se de pioneirismo ao compilar várias estimativas, ocorrências e tendências à escala global. “Tudo isto parece óbvio, mas toda esta informação estava dispersa por centenas de publicações”, começa por referir Pedro Cardoso. “Ao compilarmos toda esta informação num único documento, torna-se mais fácil apresentar argumentos sobre a necessidade de preservação dos ecossistema subterrâneos a governos, autoridades, população e empresas”, acrescenta o investigador.

O artigo científico resulta do esforço conjunto de centros de investigação que têm vindo a trabalhar no projeto DarCo, que contou com financiamento comunitário para lançar diferentes iniciativas entre 2023 e fevereiro de 2026. “O DarCo tem como objetivo o estudo e o mapeamento da biodiversidade nos habitats subterrâneos europeus”, refere Pedro Cardoso. “Foram vários os estudos e artigos publicados ao longo destes três anos”, conclui.

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Irene Fonseca distinguida com o Prémio Universidade de Lisboa 2024.