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Ana Rita Lopes ganhou uma Medalha de Honra L’Oréal para estudar relações de simbiose e servir de inspiração a outras cientistas

Hugo Séneca
Biologia14 janeiro, 2026

A vida social de uma anémona dava bem um filme, mas no caso de Ana Rita Lopes valeu também uma Medalha de Honra L’Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência e €15 mil para um projeto de investigação sobre efeitos de poluentes e alterações de temperatura em relações simbióticas de ecossistemas marinhos. No guião desenhado pela investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), anémonas-do-mar vão repartir protagonismo com camarões-de-anémona e caranguejos-aranha capturados na costa portuguesa. E nem a participação de uma “estrela” estrangeira foi esquecida: também está prevista a aparição de peixes-palhaço nos aquários do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE). Com o prazo de inscrições fixado em 30 de janeiro, Ana Rita Lopes não esconde que o prémio promovido por L’Oréal Portugal e Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) faz a diferença.

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Ana Rita Lopes tem vindo a estudar as relações simbióticas marinhas nos laboratórios do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE)

“O valor monetário ajuda, mas o prémio é essencialmente uma motivação extra e é um reconhecimento da comunidade científica. Além disso, é um prémio que garante também uma visibilidade mediática muito grande, que permite mostrar o trabalho ao público”, refere Ana Rita Lopes.

Na preparação que lhe garantiu figurar entre as quatro premiadas das Medalhas de Honra da edição relativa a 2024, Ana Rita Lopes teve de proceder à tradicional atualização de currículo científico e profissional, e apresentar um tema de trabalho “inspirador” para um máximo de dois anos. Na candidatura também constava a apresentação de “resultados esperados” para o final do projeto científico e a descrição dos destinos a dar ao prémio monetário. O projeto passou à história com o título de “Under Pressure”.

Além de distinguir jovens investigadoras que concluíram o doutoramento nos cinco anos anteriores, as Medalhas de Honra têm ainda o propósito de destacar um grupo populacional que nem sempre está devidamente representado, lembra Ana Rita Lopes. “Faz sentido haver um prémio exclusivo para mulheres da Ciência. A análise da produtividade científica continua a privilegiar métodos quantitativos que acabam por prejudicar as mulheres durante os períodos de maternidade. Por outro lado, as mulheres são maioria na comunidade científica nacional e nem sempre têm destaque proporcional”, sublinha a investigadora.

Entre anémonas-do-mar (Anemonia sulcata), camarões-da-anémona (Periclimenes sagittifer) e caranguejos-aranha (Inachus phalangium) não faltam provas de reconhecimento mútuo. E isto porque estas espécies mantêm relações simbióticas, que permitem que o elemento fixo na rocha se alimente dos restos deixados pelos crustáceos andantes ao mesmo tempo que lhes providencia refúgio. Mas não se julgue que a “afeição” da anémona-do-mar é um exclusivo de camarões e caranguejos: o peixe-palhaço também não dispensa os préstimos do curioso animal de múltiplos tentáculos na hora de depositar ovos, procurar refúgio ou até espaço para viver.

Imagem de anémonas do mar -

As anémonas vão ter um dos papéis principais do projeto "Under Pressure" - Crédito: Pedro Coelho / Mardive

“Escolhemos as anémonas-do-mar porque são um bom indicador do estado de saúde de um ecossistema marinho”, refere Ana Rita Lopes. “Poderíamos tentar fazer estes ensaios com duas espécies de peixes que têm relações simbióticas, mas queríamos estudar espécies com fisiologias diferentes para tentar perceber como é que cada uma reage aos mesmos tipos de ameaças. E por isso queremos fazer testes com camarões, caranguejos, peixes-palhaço, além das anémonas, claro!”, acrescenta a investigadora do MARE.

Foto de evento Medalha de Honra L'Oreal

Ana Rita Lopes foi uma das quatro investigadoras galardoadas pela Medalha de Honra L'Oreal na edição de 2024 - Crédito Vera Sequeira / MARE

Nos próximos tempos, serão realizados ensaios em aquários com três cenários de interação: um primeiro entre anémonas e camarões; um segundo entre anémonas e peixes-palhaço; e um terceiro entre anémonas e caranguejos.

Durante esse período, os animais marinhos deverão ser expostos a aumentos de temperatura e elementos poluentes. E até as expectativas dos espíritos mais cinéfilos vão ser correspondidas: as interações perante as adversidades vão mesmo dar vários filmes – pois serão essas imagens que vão comprovar se o aumento da temperatura e de elementos poluentes realmente afeta as lógicas de interação entre essas espécies.

“Vamos analisar os efeitos produzidos nestas espécies para tentar saber se a temperatura e os poluentes terão produzido alterações na cadeia alimentar”

“Eventualmente, podemos vir a descobrir que espécies conhecidas por manterem relações de mutualismo passaram para uma relação de parasitismo ou simplesmente deixam de ter qualquer relação de simbiose”, refere a cientista enumerando algumas hipóteses possíveis. “Vamos analisar os efeitos produzidos nestas espécies para tentar saber se a temperatura e os poluentes terão produzido alterações na cadeia alimentar”.

Ana Rita Lopes admite que, no final, “Under Pressure” poderá abrir caminho a novos métodos de monitorização de relações de simbiose. “E também há a expectativa de publicar um artigo científico sobre este tema”, conclui a investigadora. Os resultados finais são esperados a meados de 2027.

Comunicados

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