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Alumnights juntou diferentes gerações de Ciências ULisboa no Pavilhão de Portugal

Hugo Séneca
Universidade de Lisboa29 abril, 2026

A noite foi de festa e também de muita ciência: entre o final da tarde e o início da noite de quinta-feira da semana passada, o Pavilhão de Portugal recebeu a visita de professores, cientistas e estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa) para uma das sessões Alumnights. A comunidade não faltou à chamada para este momento inédito que é promovido pela Universidade de Lisboa e pretende fomentar a interação entre alunos de diferentes gerações de diferentes Faculdades. No início do evnto, destacaram-se as apresentações de carreiras de diferentes cientistas e diferentes momentos de interação e convívio, até à chegada do momento mais aguardado: um painel de conferência com o título “O Fim do Mundo: Ciências ULisboa na antecipação e mitigação de grandes riscos globais”.

O debate do evento Alumnights juntou Ricardo Machado Trigo, Susana Custódio, David Avelar, Cláudia Pinto, Celso Aleixo Pinto e Cátia Pesquita (atrás do moderador) com moderação de Hugo Séneca

O debate do evento Alumnights juntou Ricardo Machado Trigo, Susana Custódio, David Avelar, Cláudia Pinto, Celso Aleixo Pinto e Cátia Pesquita (atrás do moderador) com moderação de Hugo Séneca

O tema era arrojado, mas o elenco e os currículos do painel não lhe ficaram atrás – e não faltaram explicações e projeções que foram das alterações climáticas à sismologia, do ordenamento de praias e arribas até ao futuro da ciência num mundo dominado pela Inteligência Artificial (IA). Na plateia encontravam-se professores e investigadores de Ciências ULisboa e também representantes da Associação de Estudantes (AEFCL), do Núcleo de Estudantes de Biologia (NEB), da Oficina das Energias, do Núcleo EcoSocial e do Núcleo de Ilustração Científica (NICC), que também marcaram presença no evento com bancas temáticas.

No painel, predominaram os antigos alunos com currículo já consolidado: Ricardo Machado Trigo e Susana Custódio, ambos investigadores do Instituto Dom Luiz (IDL) e professores do Departamento de Ciências da Terra e Energia (DCTE); Cátia Pesquita, professora do Departamento de Informática e coordenadora da nova licenciatura em Ciência de Dados; Cláudia Pinto, diretora de Projetos da Câmara Municipal de Lisboa, coordenadora do Programa ReSist e professora do DCTE; David Avelar, co-fundador da startup 2Adapt e investigador do Centro de Ecologia Evolução e Alterações Ambientais (CE3C); e Celso Aleixo Pinto, Chefe da Divisão de Monitorização Costeira e Risco da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Cláudia Pinto e Celso Aleixo Pinto (em baixo) e Conceição Freitas (em cima)

Cláudia Pinto e Celso Aleixo Pinto (em baixo) e Conceição Freitas (em cima)

Coube a Jorge Relvas, vice-reitor da Universidade de Lisboa, fazer as honras de anfitrião – e dar o mote para o arranque dos trabalhos. “Esta escola (Ciências ULisboa) é extraordinária porque as pessoas que a constituem são extraordinárias”, lembrou o vice-reitor. Conceição Freitas, diretora de Ciências ULisboa, também se juntou ao momento de boas-vindas e destacou a importância de juntar “antigos e novos alunos a conviver e a partilhar experiências”.

Anunciados os intentos, seguiu-se a sessão de debate – com as projeções iniciais protagonizadas pelo climatologista Ricardo Machado Trigo. Na memória de muitos dos presentes na sala ainda figuravam as tempestades que assolaram e devastaram parte de Portugal no primeiro trimestre, mas o especialista do IDL apontou as projeções para um período mais longínquo que poderá mesmo registar grandes alterações no clima durante a próxima década.

“Temos uma tendência para uma maior aridez e secas bastante intensas”, referiu Ricardo Machado Trigo em relação à próxima década. “Chamo a atenção para o simples facto de a temperatura estar a aumentar – e não são os 1,2 ou 1,3 graus de que se fala, porque na verdade, na Europa, a temperatura já subiu cerca de dois graus – e isso significa, pela regra da termodinâmica, que existe maior capacidade da atmosfera para reter vapor de água. Significa que, ao mesmo tempo que temos aridez e secas e estes problemas relacionados com a combinação de eventos extremos”, descreveu o investigador do IDL, lembrando que o aumento da capacidade de transporte de água vai ter como resultado maiores taxas de precipitação, ainda que possam passar a ocorrer em momentos mais espaçados no tempo.

participação musical da Vicentuna no encerramento do evento Alumnights

O evento Alumnights contou com a participação musical da Vicentuna no encerramento

Das nuvens às profundezas do planeta foi apenas um passo – e a entrada em cena de uma nova interlocutora. Susana Custódio tem carreira feita em sismologia e não escondeu que “os sismólogos odeiam” a recorrente questão sobre a viabilidade de um sistema que, eventualmente, possa vir a prever a data e o local de sismos com precisão, mas não deixou de lembrar que a sismologia lida com a Terra que, ao contrário do céu, é “opaca”. O que não impede o uso de “meios eletromagnéticos, a resistividade elétrica, e toda a física que pode ser aplicada ao estudo do interior da Terra”.

“Neste momento começamos a começar a ter formas de caracterizar a variabilidade da Terra sólida no tempo”, informou ainda Susana Custódio.

A velha máxima de que não são os sismos, mas sim as construções que matam pessoas também foi abordada pela investigadora do IDL que alertou para a necessidade de levar para o terreno as melhores práticas para evitar males maiores. E nesse ponto, só autoridades e sector da construção civil terão uma palavra a dizer.

“A mensagem é: nós não temos de morrer em sismos. Se estivermos bem preparados como está, por exemplo, o Japão conseguimos escapar a  sismos de magnitude elevada”, alertou. “Do meu ponto de vista não construir bem em zonas perigosas (que são conhecidas pelo elevado risco sísmico) é criminoso”, acrescentou Susana Custódio.

plateia do evento Alumnights

A sessão Alumnights juntou vários rostos conhecidos de Ciências ULisboa no Pavilhão de Portugal

Lisboa ainda mantém o grande terramoto de 1755 bem fresco na memória, mas nem por isso deixou de ir crescendo ao longo dos anos. “Claro que não podemos mandar a população para fora da cidade de Lisboa”, referiu a especialista que trabalha para o município alfacinha, sublinhando a importância de adaptar os códigos de construção para que tenham em conta a variedade de épocas e tipologias do edificado das diferentes cidades.

O tema já havia sido abordado por Susana Custódio, e Cláudia Pinto retomou-o, para lembrar que as políticas que mitigam os riscos podem não garantir forçosamente habitabilidade dos edifícios depois de um sismo. O que levanta a questão dos custos.

“Quando depois se diz que para fazer um reforço sísmico a um edifício de quatro andares são necessários €100 mil, os proprietários podem dizer que não há capacidade para assumir este tipo de encargos. Portanto, temos de caminhar no sentido de permitir – e a legislação atualmente não permite - que alguém possa fazer, a longo prazo, reforços incrementais”, recomendou a responsável pelo programa ReSist.

Nas novas construções, a legislação também poderia beneficiar de melhorias, recordou Cláudia Pinto. “Continua a ser possível construir hospitais em zonas de elevada vulnerabilidade e elevada perigosidade”, alertou a investigadora, numa alusão às denominadas “cartas de condicionantes” que acabam por não condicionar a construção, pois apenas exigem a descrição de “singularidades” que eventualmente aumentam os riscos de construção em determinados locais – e implicam a tomada de medidas para cada caso.

“Mas se o ordenamento do território considerasse uma restrição à ocupação por determinado tipo de valência construtiva, ou determinado tipo de equipamento, para ser non aedificandi, isto mudava completamente o paradigma", sublinhou Cláudia Pinto.

Cátia Pesquita e Hugo Séneca durante a conferência

Cátia Pesquita e Hugo Séneca durante a conferência

David Avelar teve de aprender a projetar os riscos de catástrofe para lançar a 2Adapt – e chegou à sessão dos Alumnights de Ciências ULisboa com um currículo onde se destaca uma intervenção providencial que ajudou o Governo Regional da Madeira a evitar a repetição dos estragos registados nas enxurradas de 2010, que provocaram 47 mortos.

Foi com as projeções desta startup que resulta diretamente do conhecimento produzido em Ciências ULisboa que o Governo Regional garantiu um roteiro de intervenções que já lograram evitar males maiores, mesmo quando ocorrem concentrações de chuva mais extremadas.

O responsável da 2Adapt confirmou que há mercado para empresas especializadas nas avaliações de risco e identificação de medidas de prevenção porque os eventos extremos já estão a produzir impacto. Se de 1980 a 1999 Portugal gastava cerca de €70 milhões na prevenção de eventos extremos, em 2023 esse valor cresceu para €623 milhões.

David Avelar revela ainda que várias empresas já recorrem aos modelos da 2Adapt para se preparem para a ocorrência de eventos extremos – ou no caso das seguradoras, simplesmente, apurarem quais os custos dos seguros que são suportados pelos clientes.

“Um dos requisitos passa pela granularidade espacial e temporal. É a questão de poder chegar ao nível (das projeções) do bairro, mas sabemos que há um compromisso entre incerteza e essa granularidade. Na questão das alterações climáticas, que envolvem trabalho mais estratégico, um dos trabalhos que fazemos já remete para a regionalização (dos modelos). Há os grandes modelos (climáticos) globais, que têm uma malha muito grande, de muitos quilómetros, e nós tentamos ir até ao nível do município”, respondeu David Avelar, sem deixar de lembrar que os modelos da 2Adapt lidam não só com projeções do clima, mas têm ainda em conta as vulnerabilidades registadas em cada ponto do território.

“Nós temos que nos preparar para uma nova realidade física do território”

São também as projeções que apontam para a crescente erosão da orla costeira, que tem levado o território português a "emagrecer" ano após ano, devido à força do mar. E é nesse ponto que a intervenção de Celso Aleixo Pinto ajudou a revelar o trabalho que pode ser levado a cabo por uma entidade como a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

O antigo aluno de Ciências ULisboa recordou a mudança de paradigma registada nos anos 1990, que passou a privilegiar a “gestão sedimentar” em detrimento das “obras pesadas” das épocas anteriores, mas também admitiu que a “alimentação artificial de praias” é uma das medidas de “mitigação e de adaptação às alterações climáticas”.

A mitigação pode reduzir riscos – mas pode não ser suficiente. E por isso o especialista da APA admite que as autoridades tenham um dia de avançar para “um recuo planeado de determinados locais da nossa faixa costeira”.

“Nós temos que nos preparar para uma nova realidade física do território”, avisou Celso Aleixo Pinto. “Quando começarmos a caminhar para o fim do século de facto haverá uma altura em que não vamos conseguir proteger toda a gente. E aí vão ter de ser tomadas decisões muito difíceis”, frisou.

Apesar dos erros cometidos no passado (“quando ainda não se sabia o que se sabe hoje”), já se consegue restringir a construção em zonas de risco, através da atual legislação em vigor para o ordenamento do território. O que não invalida outras questões perniciosas. “Há, depois, aqui, uma outra dimensão que tem a ver com a parte jurídica, a parte administrativa e a parte das decisões, por vezes, inexplicáveis, que são tomadas em tribunal relativamente a determinadas construções”, referiu ainda Celso Aleixo Pinto.

Cristina Catita e Ana Atouguia a conversar

Cristina Catita e Ana Atouguia durante os períodos de convívio na sala de exposições das iniciativas de Ciências ULisboa

Se Portugal está a minguar, então o que dizer do conhecimento humano? A questão começou por ser levantada por Daron Acemoglu, laureado com o prémio Nobel da Economia, que previu, recentemente, que a Inteligência Artificial poderá pôr fim à geração do conhecimento, mas não chegou para convencer Cátia Pesquita, investigadora que tem vindo a fazer carreira nessa área temática.

A investigadora de Ciências ULisboa recordou que todos os humanos contribuem para o conhecimento global à medida que desenvolvem conhecimento individual com a resolução dos problemas do dia-a-dia. A tese do fim da geração do conhecimento pressupõe que só é possível gerar conhecimento novo se houver "um benefício imediato” ou “um retorno imediato”.

“Temos de pensar na inteligência artificial, não apenas como uma ferramenta de eficiência, mas como uma ferramenta que nos vai desafiar a ser mais criativos, e espicaçar a nossa curiosidade"

Em tese, o uso da inteligência artificial não só retira o esforço como pode fazer perigar a lógica do benefício e levar a humanidade a deixar de procurar o conhecimento, mas Cátia Pesquita tem uma previsão diferente: “esta sala está cheia de pessoas que provam que isto não é verdade. Está cheia de cientistas!”, recordou apontando para a plateia de Alumnights.

A especialista em Inteligência Artificial recordou que os viés e os preconceitos que transparecem nos algoritmos resultam diretamente da ação dos humanos que os produzem, mas também vincou a convicção de que esses algoritmos não estão em condições de substituir as pessoas.

Cátia Pesquita admite mesmo que Acemoglu "perde de vista o potencial da Inteligência Artificial para ser um verdadeiro colaborador com a humanidade na geração do conhecimento”.

“Temos de pensar na inteligência artificial, não apenas como uma ferramenta de eficiência, mas como uma ferramenta que nos vai desafiar a ser mais criativos, e espicaçar a nossa curiosidade e o nosso raciocínio, para levar-nos a ter um pensamento crítico”, concluiu. Decididamente, o futuro também passa pelos eventos Alumnights de Ciências ULisboa.

Comunicados

Prémios Científicos ULisboa/CGD distinguem oito investigadores de Ciências ULisboa.