E se o Pai Natal estiver com gripe, será que vai contagiar o resto do planeta?
Ainda não se sabe bem qual o sistema de saúde usado pelo Pai Natal, mas sabe-se que a famosa personagem terá de lidar com diferentes riscos epidemiológicos à medida que vai interagindo com o resto da população.
“Se realmente existir e se realmente estiver com gripe, então há uma probabilidade de o Pai Natal deixar o vírus nas várias casas que visita”, explica Marília Antunes, professora do Departamento de Ciências Matemáticas, e coordenadora do Centro de Estatística e Aplicações (CEAUL). “Por outro lado, também há uma questão que se levanta: se não estiver contagiado e for para um local onde alguém está doente, o próprio Pai Natal passa a estar em risco de ficar contagiado”, acrescenta a investigadora.
Clínicas, hospitais e consultórios médicos tendem a debruçar-se sobre ficheiros clínicos individualizados, mas na Estatística, o estudo tende a incidir mais sobre o coletivo. “É difícil fazer estimativas para uma só pessoa porque dependem muito do comportamento individual, mas podemos ter uma noção de risco global de um bairro, de uma cidade ou de uma região a partir de dados que vão revelando como está a evoluir um determinado contágio”, sublinha Marília Antunes.
São também os padrões comportamentais da população que permitem ter uma perspetiva dos efeitos produzidos pelas diferentes medidas de saúde pública. Marília Antunes recorre a um exemplo conhecido: quem estiver vacinado beneficia de uma menor probabilidade de infeção, mas esse cenário mais animador não deve ser confundido com inexistência de risco de contágio de um grupo inteiro que até pode ter várias pessoas que não foram vacinadas.
“O risco de contágio é diferente em grupos vacinados e em grupos que não recorrem à vacinação porque as exposições às cargas virais são diferentes. Logo, os grupos com maiores índices de vacinação terão, em princípio, menos exposição viral e, provavelmente, menos gripes”, sublinha Marília Antunes.
Ainda que possa ter limitações a prever com exatidão o comportamento de um indivíduo, a estatística revela especial utilidade na hora de revelar a cada cidadão a expansão geográfica e temporal de uma epidemia. “Com o uso de técnicas de Estatística, torna-se possível quantificar o risco de contágio de um determinado local em função do número de contágios detetados e dos dados que vão sendo fornecidos pelos serviços de saúde”, explica Marília Antunes.
Um pouco por todo o mundo, já há ferramentas disponibilizadas por entidades governamentais e científicas que apresentam estimativas de contágios para diferentes regiões com base em notificações recolhidas em tempo real. Marília Antunes destaca a importância dessas estimativas, mas também recorda que as previsões nunca podem perder de vista a qualidade e a quantidade da informação recolhida.
“Pode acontecer que nem todos os casos de infeção sejam notificados pelos doentes ou sequer sejam do conhecimento das entidades hospitalares, mas a estatística também dispõe de ferramentas que já permitem fazer previsões tendo em conta esse tipo de enviesamento”, conclui a investigadora da área da estatística.