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O contributo de José Manuel Rebordão no ensino, investigação e gestão académica de CIÊNCIAS

Física28 maio, 2026

José Manuel Rebordão fechou esta quarta-feira um percurso de 48 anos dedicados à investigação, ensino, inovação e gestão académica. Na sua Última Lição, traçou a evolução do sistema científico português desde os anos 80. Na plateia do Grande Auditório da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), não faltaram os familiares e muitos dos colegas que o acompanharam na docência, na investigação ou em cargos de direção – e quase todos depararam com uma questão que a ciência poderá ter dificuldade em responder: afinal, qual é o segredo especial que permite que o conhecido professor do Departamento de Física que se especializou na área da ótica, trabalhou no primeiro satélite português e liderou a associação FCiências.ID mantenha uma produtividade acima da média dos restantes humanos?

José Rebordão durante a Última Lição no Grande Auditório

José Rebordão durante a Última Lição no Grande Auditório

Por mais de uma vez, houve quem fosse ao palco tentar encontrar uma resposta para tamanho mistério que ainda hoje ecoa na comunidade de Ciências ULisboa. Nuno Araújo, presidente do Departamento de Física que conduziu os trabalhos, destacou o professor José Manuel Rebordão entre as pessoas que assumem a missão de dar o melhor de si para a comunidade académica, Conceição Freitas, diretora de Ciências ULisboa, logo recordou que se trata de “uma pessoa muito inteligente e organizada” que tem “uma enorme capacidade de trabalho” e “dedicação extrema”. Nuno Garcia dos Santos, presidente da Associação FCiências.ID e professor de Ciências ULisboa, também abordou as características da “transparência” e da “abnegação”, mas acabou por constatar que ninguém substitui José Manuel Rebordão, “quando muito segue o trabalho de José Manuel Rebordão”.

Conceição Freitas

Conceição Freitas agradeceu a José Manuel Rebordão todo o trabalho feito em Ciências ULisboa

Fernando Carvalho Rodrigues, mentor do satélite PoSAT, que estreou Portugal no Espaço durante os anos 90, garantiu que sem José Manuel Rebordão possivelmente o pequeno dispositivo alado não teria sido lançado. Luís Carriço, antigo diretor de Ciências ULisboa, apontou como possível resposta “a quantidade de trabalho por segundo” demonstrada, e Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, lembrou o lançamento de um curso dedicado às tecnologias espaciais e o trabalho efetuado com a Agência Espacial Europeia (ESA). Manuel Abreu, coordenador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), recorreu à ironia para descrever a produtividade de José Manuel Rebordão: “Diga, professor, qual o seu segredo, o que é que toma, qual a marca de iogurte que costuma comprar (e que garante tamanha capacidade de trabalho)?”.

Nuno Garcia dos Santos a cumprimentar José Manuel Rebordão

Nuno Garcia dos Santos recordou a sucessão de José Manuel Rebordão em FCiências.ID

Por momentos, toda a assistência do Grande Auditório foi tomada por um sorriso coletivo – e José Manuel Rebordão não desperdiçou a oportunidade de ir referenciando metafóricos “iogurtes” a cada capítulo da Última Lição em que descreveu a evolução do sistema científico nacional em paralelo com a evolução da carreira profissional, entre a conclusão do doutoramento em 1983 e a atualidade, sem deixar passar os capítulos relacionados com a integração do INETI em Ciências ULisboa e a liderança da associação FCiências.ID.

Luís Carriço

Luís Carriço apontou a "quantidade de trabalho por segundo" como o fator que mais contribuiu para a produtividade de Rebordão

Confirmando a fama de que sempre disse o que achava que deveria ser dito, José Manuel Rebordão não abdicou da crítica – ou sequer das desinteligências de âmbito político relacionadas com a extinção do INETI. Lembrou também que, nos anos 80, o tecido empresarial português era constituído por pequenas empresas que nem sempre primavam pela intensidade tecnológica, e também recordou um projeto de deteção de códigos de barras que não se transformou em negócio por falta de envergadura empresarial e ainda a marca nacional que teve dificuldade em vender elevadores, porque o mercado não lhes reconhecia histórico devido ao País de origem.

Os fundos estruturais, aplicados no âmbito da UE, haveriam de propiciar o salto para um novo paradigma – que ainda hoje persiste. “Executar (um projeto ou um programa) significa gastar dinheiro”, referiu José Manuel Rebordão. “A cultura não mudou (na atualidade)”, acrescentou o professor do Departamento de Física.

José Manuel Rebordão a segurar um prémio

José Manuel Rebordão levou consigo uma recordação durante a sessão de homenagem em Ciências ULisboa

José Manuel Rebordão aproveitou ainda para dar como referência a forma de trabalhar da ESA, que viria a conhecer mais de perto com a adesão de Portugal como estado membro no ano 2000 – mas que começou produzir efeito alguns anos antes, na indústria nacional, quando várias empresas e instituições científicas portuguesas juntaram esforços para desenvolver o PoSAT em 1993.

José Rebordão com familiares, amigos e colegas durante o evento

José Manuel Rebordão entre familiares, amigos e colegas

O professor de Ciências ULisboa recorda que o primeiro satélite português, que teve a sua liderança técnica, haveria de produzir efeitos diretos no posicionamento do INETI e nas áreas em que atuava. “No INETI tivemos muito sucesso, o que nos trouxe também problemas”, referiu o investigador.

Sobre a ESA, recordou ainda que “não pede nada a uma entidade que vá contra a sua natureza”, sem deixar de salientar a “transparência” e o nível de preparação com que a agência europeia trabalha.

Manuel Abreu

Manuel Abreu lançou a pergunta da tarde: qual o segredo especial da produtividade de José Manuel Rebordão

A escassez de diagnósticos e indicadores estatísticos que permitam saber quais as reais necessidades e os resultados dos investimentos aplicados no País também foi abordada durante esta lição, e como não poderia deixar de ser a extinção do INETI e consequente integração da equipa de investigadores em Ciências ULisboa também foi descrita sem perder de vista o panorama político.

Se ninguém regateia elogios ao trabalho feito na transição do INETI, também ninguém esquece o trabalho feito na extinção da Fundação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FFCUL) e consequente lançamento da associação FCiências.ID que agora assume um papel determinante no apoio a projetos de investigação científica e na ligação à sociedade e ao tecido empresarial. “Foi um processo complicado”, referiu o professor, numa alusão ao “histórico de incompatibilidades” que se gerou enquanto tinha de lidar, em paralelo, com as realidades regulamentares distintas de FFCUL e FCiências.ID.

Nuno Araújo

Nuno Araújo assegurou a condução dos trabalhos

Sistemas que hoje fazem parte do quotidiano de Ciências ULisboa, como o Census, o Biblios e o Fundus, também foram mencionados no desenrolar do percurso, e em contrapartida, a proliferação de instituições que aparentemente se justapõem em recursos e funções foi apontada em jeito de crítica ao sistema científico nacional das últimas décadas.

projeção de fotografias de José Manuel Rebordão

A Última Lição passou em revista a evolução da carreira de José Manuel Rebordão em paralelo com quase 50 anos do sistema científico nacional

O contacto com o sector empresarial surgiu à tona tanto na referência ao facto de as empresas cederem os mais valiosos recursos quando providenciam mão de obra para projetos conjuntos, como para as lógicas que devem ser tidas em conta pelas instituições de investigação. A liberdade das instituições poderá vir dos fundos captados, mas para isso há que dar resposta “às necessidades do mercado e das políticas públicas”.

“O que aprendi no INETI é que as instituições também se abatem”, alertou, por fim. Dificilmente, a lição será esquecida.

Comunicados

Prémios Científicos ULisboa/CGD distinguem oito investigadores de Ciências ULisboa.