Luís Carriço, diretor de CIÊNCIAS, abriu o evento lembrando as oportunidades de investigação que têm origem nas necessidades das empresas e, pouco depois, foi a vez de Nuno Araújo desfazer os mitos que levam a crer que os doutoramentos de física apenas têm saída académica, quando os estudos que vêm do estrangeiro revelam que, afinal, cerca de metade desses investigadores vai trabalhar para a indústria. E há mesmo estudos que indicam que até o grau de satisfação é maior entre esses profissionais que optam por sair da investigação académica.
Ainda assim, o caminho que vai do laboratório da universidade até ao escritório empresarial também pode evidenciar contratempos de permeio. “Quando comecei a apresentar currículos, senti que não era contactado pelas empresas por ter um doutoramento, e por se assumir que implica um salário maior”, refere Nichal Gentilal, cientista do Grupo de Investigação e Desenvolvimento da farmacêutica Hovione.
A rejeição de doutorados também pode ser interpretada como um sinal de falta de sofisticação de parte do tecido empresarial, mas não impede que muitos desses profissionais acabem por facilmente encontrar lugar no estrangeiro. E o próprio Nichal Gentilal admite que, mesmo dentro de portas, já se notam mudanças e há cada vez maior disponibilidade para investir em quem desenvolve o espírito científico. “A Hovione interessa-se mais em pessoas que sabem pensar e resolver problemas e que são autónomas para ir atrás das soluções. E isto porque a parte teórica e de leitura qualquer pessoa consegue recuperar se for preciso”, acrescenta
Na indústria automóvel a lógica não é muito diferente. "Se olharmos para o sector automóvel vemos que a aerodinâmica é sempre tomada em consideração. Além disso, é necessário desenvolver protótipos, peças e ferramentas... e sim, sem dúvida que há uma correspondência entre o que procuramos e os perfis típicos de quem se formou em física", responde Ana Margarida Nunes, responsável de recursos humanos da unidade de negócio para a áreas de soluções corporais e automóveis da Thyssen Krup em Portugal.
Perante o apelo empresarias que ecoou durante o Physics Day, Catarina Pelicano não esconde a expectativa sobre o que se segue depois dos estudos. “Estou a pensar ir trabalhar para a indústria, depois do doutoramento. Este Physics Day foi muito bom para saber o que andam as empresas a fazer” refere a aluna de doutoramento que tem vindo a trabalhar no desenvolvimento de diagnósticos clínicos com base em micro-ondas. “Já dei o meu contributo para esta linha de investigação que tem sido levada a cabo em CIÊNCIAS. Está a chegar a hora de sair da minha zona de conforto, que neste caso ainda é a academia”, admite a jovem investigadora.
É essa busca de alternativas fora da academia que Carlos Fernandes Bhatt, responsável pela gestão de Inovação dos CTT, não pretende desperdiçar: “A presença dos CTT no evento Physics Day enquadra-se na nossa estratégia de proximidade e interação com o ecossistema de inovação, que integra universidades, centros de investigação, startups e outros parceiros industriais e tecnológicos. Estamos convictos de que, em conjunto, podemos enfrentar desafios complexos de uma forma ágil e multidisciplinar, potenciando sinergias e promovendo inovação sustentável”, refere o gestor dos CTT.
Não será de estranhar que quem vem de visita à universidade acabe por ter uma zona de conforto diametralmente oposta à de um doutorando. “Vim aqui mais para aprender e colocar desafios do que para dar respostas”, informa Luís Cabrita, técnico de Departamento de Investigação e Desenvolvimento da Amorim Cork. “Além de ter aprendido coisas novas, levo daqui ideias para pensar que, eventualmente, poderão encontrar aplicação no mundo da cortiça”, acrescenta.
Na física, as aplicações nem sempre são óbvias ou fáceis de descortinar. Sendo aluno de doutoramento de CIÊNCIAS, Tiago Gonçalves também sabe que há sempre o risco de se converter, inesperadamente, num alvo da incompreensão alheia quando explica que está a desenvolver uma teoria modificada da gravidade, que poderá apontar novos caminhos para a forma como funciona o universo, ao mesmo tempo que apresenta soluções alternativas que, eventualmente, não chegaram a ser sequer previstas por alguns gigantes da física.